
Muito do que sou devo ao verbo. Para ser mais preciso: as ideias expressas em palavras impressas foram fundamentais na minha formação. Uns 50% talvez – nem todas altruístas. O restante, a parte boa, devo principalmente às chineladas corretivas da mãe (“Não fui eu! Não fiz nada!”) e às silenciosas, certeiras e definitivas repreensões do pai, que tinha a habilidade de transmitir conceitos éticos e morais unicamente através do olhar.
Aprendi a ler e escrever aos 7 anos no Grupo Escolar José de Anchieta. Quem me deu a chave para abrir a porta deste mundo novo foi a professora Maria Helena, primeiro e inesquecível amor. Desde então, me perdi e me achei, fui herói e vilão, amei e odiei, sorri e chorei, gozei e morri, visitei as profundas do inferno e ascendi ao paraíso. A alfabetização foi o meu Pecado Original – a minha perdição e salvação, liberdade e cárcere. Errando e acertando, continuo querendo mais.
Aliás, acredito que...hummm...o quê? Tá, tá, tá, falem, entre parêntesis, e desapareçam.
Abre.
- Dá um tempo, chefe. Isto está ficando filosófico demais. A idéia não era essa, lembra? – observação de Bob, o botão da minha primeira calça Levis, atualmente ocupando o cargo de confiança de eminência parda.
- É isto aí, te coordena cabeça de pudim – admoestação de Moe, apoiada por Larry e Curly, o trio de neurônios que me restou.
Fecha.
Apesar da insolência, os rapazes estão certos; estava tergiversando. Não mais o farei. Vamos ao cerne da post, portanto. Perdão, leitores
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Entre as obras que me seduziram nos anos juvenis e impressionáveis estão o opúsculo O direito à preguiça de autoria de Paul Lafargue, cunhado de Karl Marx, e o ensaio Elogio ao ócio, de lord Bertrand Russel. Na essência, o que eles dizem é que a emancipação dos trabalhadores, preconizada por Marx e Engels, é a última estação do trem que conduzirá a classe trabalhadora ao paraíso. Ou seja, a destruição dos grilhões impostos pelos exploradores e a posse dos meios de produção seriam as condições objetivas para que os trabalhadores promovessem a união harmônica entre trabalho e lazer – mais este do que aquele, claro. Uma sociedade não apenas sem explorados nem explorados, mas com feriadão permanente, variando entre sextas e segundas-feiras. Nesta nova ordem, o ócio prolongado poderia ser usado tanto para aprimoramento intelectual e espiritual ou atividades menos nobres como assistir futebol na tevê deitado no sofá, vestindo apenas cueca, beber cerveja com os camaradas, pegar um cineminha com a patroa, visitar a parentada ou dedicar-se a consumação dos prazeres carnais (nada a ver com o churrasquinho de fim de semana), atividade que lord Russel praticou com constância e perícia, segundo seus biógrafos.
Ainda imberbe, mas já dotado de uma acurada capacidade analítica, não apenas concordei com o ideário, como tratei de adaptá-lo ao meu cotidiano. Assim, desde essa época procuro intercalar períodos de labor esfalfante com lazer intenso. No fim de semana, fiel a esta diretriz decidi levar a mente e o corpo para o parque de diversões internético, como justa compensação após um período de trabalho duro.
Porque era sábado, acordei depois das onze. Após de uma lauta refeição, à guisa de café da manhã e almoço, assumi o timão de Hal Jr. (pra quem não sabe é o nome que o meu PC recebeu na pia batismal) e fui navegar na web. Evitei as águas turbulentas; deixei-me guiar pelas ondas suaves da futilidade. Fiz algumas descobertas interessantes, todas referentes ao universo feminino, o único que me interessa. A seguir, alguns exemplos.
- A socialite Paris Hilton não é uma loira burra. Esta é apenas uma personagem do jet set (ainda se usa a expressão?). Esclareceu que no dia a dia sob a luz do sol é uma mulher de negócios inteligente e atilada. O grasnar irritante também é falso. Dona de um coração bondoso, fez da casa dos cachorros uma réplica da sua mansão, inclusive com a mobília. Pelo que entendi, durante o dia ela é Margareth Thatcher; à noite, Linda Lovelace, a pioneira dos filmes pornôs. Interessante.
- Adriana BomBom (profissão indefinida) se separou de Dudu Nobre para virar homem. Trocou as formas pneumáticas (gostosas de apalpar) por um corpo de lutador de jiu-jitsu: coxas e braços musculosos e ameaçadores. Suspeito que a causa da separação tenha sido o medo do sambista – um pacato, rotundo e flácido cidadão – de eventualmente ter que encarar um embate físico com a mulher - e não me refiro às doces refregas travadas nos domínios de Afrodite.
- Uma das garotas do Pânico na TV está apaixonada por um dos filhos de Luma de Oliveira. Na verdade, não é uma paixão fugaz, mas um amor que se propõe a ser duradouro. “É o amor da minha vida, o meu homem”, declarou a gostosa. O garoto sortudo é filho também de Eike Batista, cuja fortuna é calculada em 6 bilhões de dólares. Desconfio que, zelosa, mamãe Luma vai abortar o romance. Afinal, uma alpinista social reconhece uma igual.
Municiado por estas e outras informações triviais, senti-me apto para manter conversação mundana por algumas horas com os aldeões e, preferencialmente, aldeãs que habitam as cercanias do castelo. Depois de um minucioso asseio corporal de meia hora, barba feita com esmero, discretamente perfumado (colônia Lancaster), vesti o traje de caçador: tênis preto, meias brancas, Levis original (só sai do armário em ocasiões especialíssimas), camiseta e paletó pretos. Antes de sair, sorri para o cara do outro lado do espelho.
- Agora, vai! – falei com convicção.
Ele retribuiu o otimismo.
- É hoje!
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As expectativas se confirmaram: em nome da classe trabalhadora, fui ao paraíso. A pele cintila, mas infelizmente o cavalheirismo me impede de entrar em detalhes.
Pra melhorar, o Glorioso Colorado dos Pampas venceu o GreNal. A vida é bela.
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Beijos ternos, gurias. Abraços relaxados, guris.
Boa semana pra todos nós. Pra cima com a viga!