Falta pouco


 Ainda tenho umas costuras pra aprontar, mas tô chegando (desta vez é sério, pô!).

Beijos e abraços recheados de saudades.

Notícias da corte

Não fui preso (ainda) por atentado ao pudor, não estou doentinho e não está acontecendo nenhuma festa por aqui. A questão (ou a "questã" como diz minha vizinha Odaléia, a fofinha) é que ando meio borocochô nos últimos tempos e não apenas em razão deste frio filho da puta que assola o bravo Rio Grande do Sul. Na esteira das tropas do General Inverno, uma chusma das mais variadas pragas invadiu os meus domínios outrora paradisíacos. O resultado é que tenho uma quantidade amazônica de pepinos, abacaxis e bananas para descascar, não apenas de ordem financeira, como podem concluir os mais apressadinhos, mas também de natureza geográfica (porque não nasci no Rio de Janeiro, ou na Bahia, porra?), física (não sou eu aquele cara que está nu na foto que meus inimigos andam exibindo no Bar do Sandro – ainda bem que esta ralé não domina as ferramentas da internet), e legal (não adianta insistir, Maria Odete, não faço exame de DNA de jeito nenhum).
Buenas, resumindo minha situação, na linguagem da choldra: estou matando cachorro a grito. Em vista disto, não tenho ânimo para escrever, a não ser quando sou (mal) pago para isto.
Ah sim, não fui totalmente sincero quando disse que não está acontecendo nenhuma festa por aqui. Vez por outra, promovo pequenas orgias no meu castelo. Coisa prosaica: não tem anão, ovelhas depiladas e muito menos azeite de oliva. Se não fossem estes prazeres mínimos, eu já teria entregue os pontos. Tempos difíceis.
Um dia claro, ainda vou rir de tudo isto.
Beijos, damas. Abraços, cavalheiros. 
Pra cima com a viga, moçada!

Conselheiro sentimental


(Antes de qualquer coisa, reconheço que estou em débito com todos vocês. Sorry, a coisa está osca por aqui - como sempre estou correndo atrás do vil metal. Mas me aguardem. Aparecerei. Isto posto, vamos às coisas do coração como convém a esta época enamorada).
***
O Zeca (foto acima) é o meu melhor e mais fiel amigo. O único cara que tem paciência para ouvir meus choramingos amorosos.
- Estou apaixonado – declarei.
- Como é que é?
- Estou apaixonado, porra!
O Zeca latiu baixinho, compreensivo. Sabia que eu queria confessar.
O amor nos torna idiotas? Acho que sim. Assim, abri o coração (meu Deus, “abri o coração”, a que ponto cheguei!).
- Eu amo ela (“amo ela”. Cacófato explícito. É o fim da várzea!). Depois de tentar me morder, o Zeca engasgou. Continuei.
- PQP é a mulher mais linda, gostosa e adorável do mundo.
- Quinhentos anos atrás dizias o mesmo na Nairinha, lembra?
- O que passou, passou. Estou falando do meu amor da maturidade.
O Zeca lambeu a pata.
- Ainda não comeu, né?
- Não seja vulgar, seu animal.
- Comeu ou não comeu?
- Her, hum... não ao vivo e a cores. Mas sabe como é, imaginação é tudo...
- Entendi. É gostosa?
- A mais gostoduzulda das coxoduzuldas – esclareci.
- Já disse isto pra ela?
- Claro que não, seu quadrúpede. Sou um cavalheiro.
- Cavalheiro, não. Imbecil, sim.
- Me respeita, seu porrinha. Não vou te dar ração.
Meu companheiro se coçou vigorosamente atrás da orelha peluda. Terminado o trabalho, olhou e lambeu a pata, satisfeito.
- Tu não conheces as mulheres, seu tonto.
- Como assim?
- Chega junto, seja agressivo. Dá uma encoxada e diz “vem cá, gostosa!”
- Tu é um animal ignorante – acusei.
- Com muito orgulho – ele retrucou.
Acendi um cigarro pra mim e dei um biscoito canino pra ele. Pensei e depois indaguei:
- Será que funciona?
- Claro. Tens que mostrar que é homem. Aliás, tu é um homem ou uma coca-cola?
- Sou um bagual dos pampas – respondi enfático.
- Pois então, tem que mostrar. Agarra, encoxa e diz: te amo, gostosa. Te quero. Depois beija.
- E daí?
- Não vai querer que eu te ensine tudo, né?
- Hehehe... claro que não. Tô sabendo.
Zeca anunciou que estava com sono e, balançando o pequeno rabo, dirigiu-se para seus aposentos reais.
Eu fiquei pensando: porra, que cachorro metido. Acha que sabe tudo da vida.
Será?
Por via das dúvidas, vou testar seus conselhos.
Na paixão, é tudo ou nada.
***
Beijos, deusas maravilhosas.
Abraços, rapazes. Façam novenas por mim.
***
Pra cima com a viga, moçada.

O tom da paixão


Estou apaixonado. E, por esta razão, em crise existencial e cultural.
Ao contrário dos boatos maledicentes espalhados pelos inimigos, sou um homem fiel às minhas convicções existenciais, sejam elas de natureza amorosa, política, econômica ou cultural. Acreditem: hoje eu teria uma vida bem mais confortável, caso fosse um pouco mais “maleável” na obediência de princípios éticos e morais. Mas sou fruto de velha e boa cepa. Não sou um sujeito volúvel, não posso ser dobrado. Como o personagem de Hemingway em o Velho e o Mar, só serei derrotado quando for destruído. Não estou à venda para os inimigos, não traio amores e não abandono companheiros de estrada. Quando o afeto se encerra, não disfarço, sigo meu rumo com mala, cuia, garrucha e relho.
Alguns de nós somos assim, exagerados. O “nós”, no caso, é ramo dos Silvas a que dei origem, que inclui Beti Timm (é no sempre, sempre será, independente de qualquer coisa) e minha herdeira Mariana Timm da Silva. Antes que alguém pense em propor a canonização do clã (pessoalmente aceito; acho que mereço) esclareço que também cometemos pecados (no meu caso pecadilhos) e caímos em tentações. Afinal, somos humanos, apesar de alguns discípulos acreditarem que eu não sou deste mundo. Confesso que estimulo esta crença celestial em relação a minha origem, desde que descobri, quando tinha 30 anos, que era um filho bastardo. Na minha imaginação fértil e amorosa, o Homem Magro e a Mulher Dedicada (Seu Antonio e Dona Arminda) que escolheram ser meus pais, são as versões modernas de José e Maria. E eu Jens, o Anjo Decaído, o primo pobre de Jesus (algo assim como um parente distante e pedichão do Ronaldinho Gaúcho). Estou sendo herético, eu sei. Mas não me importo.
Mas somos só um trio ingênuo unidos na maternidade até a eternidade. Fazer o quê? Assim fomos forjados por Antônio, o Homem Magro que escolheu ser meu pai e avô carinhoso de Mariana (“minha Preta”, como ele a chamava). Como diz ela, a Preta, somos uma pequena tribo de fortes. No fim dos tempos, um Timm da Silva estará lá.
(A propósito, o mundo não acabou dia 21 de maio, como anunciado. Isto vai me causar problemas. Confiante no Armagedon, me endividei, seguindo o pensamento lógico de lorde Bertrand Russel: já que tudo vai acabar, f...-se o resto. Suspeito que meus credores, malditos materialistas, não são sensíveis à considerações filosóficas. Assim sendo, acho que em breve vou precisar me homiziar. Ofertas de refúgio são bem-vindas).
***
Bob, o botão da minha primeira calça Levis, adquirida em 1978, hoje elevado à condição de minha consciência critica, aconselha:
- Menos divagações e mais objetividade, senão este troço não vai acabar nunca. Afinal, onde tu quer chegar? – indagou com a petulância habitual.
Reagi com o orgulho do guasca que sou e sempre serei:
- Ninguém manda em mim. Sou bagual, pô.
Depois do esporro, pensei melhor e decidi seguir a orientação. Bob sempre tem razão. Então, vamos lá – objetividade, enfim, sem gip-gip nem nheco-nheco.
***
Como disse estou apaixonado e em crise. Minha paixão atende por vários nomes – Maria, Nana, Daniela, Gal, Paula, Roberta, Adriana, Fernanda, Isabella, Beth, Elis, Joyce, Luciana e Miúcha – e tem um único responsável: Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim. O Tom, como a ele se refere o Chico (Buarque, of course), ou Tomzinho como carinhosamente o chamava o Poetinha, no caso o embaixador poeta e compositor Vinicius de Morais.
Pois é, (re)descobri Tom Jobim.
***
Que merda, eu queria homenagear o cara, mas cometi um erro crasso, qual seja o de escrever ouvindo suas canções. Percebi que qualquer elogio seria bobo, besta, pretensioso, diante da genialidade do Maestro. Assim, só posso recomendar que ouçam o CD Aqui Tem TOM (uma palinha aqui: http://www.somlivre.com/?1913/produto/cd/Aqui-Tem-Tom-vol.-1#) onde várias vozes femininas interpretam suas músicas. As vozes são as das damas que citei acima. Não dá pra comentar. Apenas ouvir, encantar-se e permitir apaixonar-se.
Empolgado com a suavidade e delicadeza do ritmo, juntamente com a beleza das palavras, aliadas à esplêndida tarde de sol (escrevo num sábado, em pleno veranico de maio) interrompi a escrita várias vezes – em alguns momentos para reverberar, aos berros na janela do castelo, os versos magistrais e em outros para embalar numa dança solitária amores imaginários de ontem, hoje e amanhã – possíveis e impossíveis.
***
Explicitada a paixão, resta esclarecer a razão da crise. Sinto que estou traindo Chico, Gil, Caetano, Milton, Cazuza, Cartola e Noel, entre outros. Perdoem, rapazes, ainda gosto de vocês. Mas Tom é maior.
***
O CD que acalenta meus dias de outono é apenas o volume 1. Ou seja, há mais maravilhas no volume 2.
***
Beijos suaves, garotas. Abraços fraternos, cavalheiros.
Pra cima com a viga!
PS1: valeu Inter, Campeão Gaúcho 2011!!!
PS2: voltei, porra!!! Esta semana vou conferir o que vocês andaram aprontando na minha ausência.

Serviços gerais: secos, molhados e molhadinhos

Apesar dos boatos maldosos espalhados diuturnamente de maneira pérfida por meus desafetos, segundo os quais meus dias – e noites, principalmente – são pontuados por sucessivos festins licenciosos, a verdade é que sou um homem de hábitos simples, espartanos. Levo uma vida de reclusão, em constante meditação em busca de respostas às questões filosóficas que atormentam a humanidade: de onde viemos, porque estamos aqui, para onde vamos e porque o ataque do Inter não arrisca chutes de média distância. 
No trato com meus quase semelhantes sou um sujeito cordato, solidário, sempre disposto a ouvir os dramas alheios, consolar e distribuir conselhos ajuizados.
Até bem pouco tempo nunca pensei em auferir dividendos a partir desta postura de amor e solidariedade ao próximo. Porém, diante do estado anêmico das minhas finanças, aceitei a sugestão do meu associado Moah, qual seja cobrar uma remuneração mínima pela distribuição dos meus vastos conhecimentos em prol da resolução de pendengas emocionais e materiais que vez por outra afligem os animais de sangue quente. 
Como sou um dos últimos socialistas românticos, não exijo nenhuma exorbitância, apenas uma módica ajuda de custo que pode ser viabilizada na forma de pecúnia e/ou alimentos sólidos ou líquidos, pois infelizmente ainda não atingi o grau de elevação espiritual que dispensa a ingestão de refeições calóricas ricas em proteínas e gordura animal. Não aceito pagamento em cheque, cartão de crédito ou animais vivos – apenas grana viva (desde que não morda), barras ouro, pedras de diamante, churrasco de boi ou ovelha, lombo de porco assado ao queijo, paella, bife à cavalo, embalagens de Skol (mínimo seis) ou garrafas de Jack Daniels legítimo (meu paladar aguçado detecta o malte de origem paraguaia).
Trata-se de uma pechincha, considerando os benefícios que proporciono, tais como reconciliação amorosa; indicações seguras para a solução de problemas financeiros (nem todas no âmbito da legalidade jurídica, reconheço); cura de males do corpo como espinhela caída, lumbago e perebas em geral; reabilitação da libido (para ambos os sexos) através de técnicas físicas e mentais que aprendi com as sacerdotisas do Templo da Lua Negra, uma seita encravada nas montanhas de Marrakech em honra a Deusa (ou Demônio?) Lilith.
Não prometo o que não posso cumprir, como, por exemplo, trazer um amor de volta em três dias (para tanto preciso de no mínimo cinco dias e assessoria de Carlão, indivíduo de maus bofes, mas, por isto mesmo, extremamente persuasivo). Também não me comprometo a acrescentar dez centímetros no órgão sexual de cidadãos mal dotados pela natureza (neste quesito, o máximo que consegui foram 3,5 centímetros – não em causa própria, que fique bem claro). Igualmente não elimino mau hálito e não sei como usar a internet para excluir inadimplentes das listas do SPC e SERASA. Meus conhecimentos são limitados.
Atendo de terça a domingo, a partir das sete da noite (sem hora para acabar) no Bar do Sandro. Sou aquele sujeito de turbante e óculos escuros na mesa do canto à esquerda.
Nas quartas-feiras as damas não pagam.

Beijos, adoráveis consulentes. Abraços, viris clientes. Bem-vindos, sintam-se em casa e abram seu coração. Sou todo ouvidos.



O pior aconteceu

“Bem-vindos ao Inferno” saudava uma faixa exposta no Gigante da Beira-Rio na noite de quarta-feira, por ocasião do prélio entre o Glorioso Colorado dos Pampas, o Sport Club Internacional, contra os bandoleiros de língua espanhola acoitados no Club Atlético Peñarol.
Porém, ao contrário do que esperava a nação colorada, o Diabo vestiu vermelho e, Papai Noel às avessas, recolheu presentes e sepultou a nossa alegria depois dos 90 minutos de jogo.
Antes, porém, tudo era certeza e otimismo. Afinal, na semana passada o Inter empatou em 1 a 1 com o mesmo Peñarol. Agora, em casa, bastava apenas uma vitória ou empate (0 a 0 ou 1 a 1) para seguir em frente na Copa Libertadores.
Jogo jogado. Adiós hermanos.
***
- É hoje. Vamos ferrar com estes porras – vaticinei aos meus confrades no Bar do Sandro, aprazível estabelecimento comercial que disponibiliza à seleta clientela a transmissão de jogos de futebol ao vivo. Tocava o hino da nação (sei do cacófato) brasileira.
A turba concordou:
- É nóis na fita, Seu Cabeça Branca.
Alguns membros da jeunesse dorée local se referem a mim desta maneira carinhosa. Não reclamo, até gosto (mas preciso cortar o cabelo – máquina zero e depois raspar com navalha). É um sinal de consideração – com pitadas de temor e admiração –, o que significa também imunidade física e patrimonial e até, se eu requerer, descontos relevantes para a efetivação de ações justiceiras extra-oficiais ou simples desejos de vingança. Eu sou assim, potencialmente mesquinho. Porém, até agora não encomendei nenhuma tarefa. Mas é bom saber que a possibilidade existe. Quando necessário, um homem de escol precisa de alguém que faça o serviço sujo. Meus desafetos e credores que se cuidem. Como disse o Senhor, a vingança será minha.
***
- Vamos vingar os rapazes de 50! – incentivei, para espanto da ala jovem.
A garotada só entendeu depois que, utilizando didaticamente minha extraordinária capacidade de síntese, relatei o desastre da final da Copa de 1950, no Maracanã (pra quem não sabe, perdemos para o Uruguai por 2 X 1).
- Bem que eu dava um teco no meio das fuças deste tal de Júlio Varela – observou um jovem ouvinte.
- É Obdúlio Varela – corrigi. Mas deixa pra lá, já passou.
Então, reverentes, acompanhamos a execução hino da nação (olha ele aí de novo) rio-grandense. Todos ficaram de pé e cantaram os versos, à exceção de um argentino, que em breve será convidado a sair do bairro – além de novato no pedaço é gremista.
***
- O que interessa é hoje, aqui e agora. Vamos liquidar com esta cambada – reforçou Marisinha, minha secretária eventual e musa permanente, antes do apito do juiz.
O termo “cambada”, percebi, foi uma homenagem a Seu Antônio, um durão dos velhos tempos, o homem magro que escolheu ser meu pai, que assim se referia a todos os que não comungavam da sua rigorosa cartilha ética, política, moral e futebolística (“não quero te ver andando com esta cambada, meu filho”). Sensibilizado pela lembrança, dirigi um olhar terno à Marisinha e murmurei meu afeto:
- Gostosa, nhamnham!
Ela retribuiu:
- Chefinho tesão, hoje tem. Em honra de Falcão e dos guerreiros comandados por Guiñazu.
Diante desta promessa – a concretização de um desejo há muito incubado – pensei em acionar o Sandro, descolar um numerário emprestado em caráter emergencial e ligar para a Agafarma, pedindo a entrega rápida de uma cartela com os comprimidos azuis. No entanto, desisti no primeiro minuto de jogo, quando o garoto Oscar vazou a meta da equipe uruguaia.
- Bucha! – exaltei.
- Nós somos foda! – comemorou Marisinha, sempre elegante, me abraçando e beijando.
A partir deste contato (que peitos!, que peitos!) dispensei o uso de aditivos químicos para estimular a libido. A manifestação imponente e vigorosa da minha natureza gaudéria fez-me perceber que não seria necessário alocar meus parcos recursos monetários na aquisição de estimulantes sexuais.
Creio que me fiz entender, of course. Ainda sou um bagual de estância. O Colosso de Ébano vive!
***
Esta empolgação durou até os 15 segundos do segundo tempo, quando a esquadra castelhana negro-amarela empatou o jogo.
Senti um refluxo no ímpeto da minha musa.
- Vai dar merda – declarou a bela.
“Senhor não me abandone”, implorei mentalmente, estimulando ao mesmo tempo os ases da academia alvi-rubra:
- Vai Andrezinho! Chuta, Damião! Cruza, D´Alessandro! Ajuda, Deus!
***
Infelizmente, soube depois, o Senhor, temporariamente, não está atendendo aos pleitos terrenos. Está ocupado com questões espirituais relativas ao Oriente Médio. Parece que Lá do Outro Lado não há registro do ingresso de Osama em lugar nenhum – nem No Meio, uma possibilidade remota, nem Em Baixo, onde provavelmente deveria estar. Os boatos de que teria conseguido infiltrar-se Em Cima foram rechaçados com veemência por Gabriel, o chefe da SIC (Segurança Interna Celestial). Deus – o ancião irascível do Velho Testamento – está impaciente. “Onde está Osama?”, quer saber o Criador. Cabeças e asas serão decepadas.
***
Diante de uma questão de tal magnitude é compreensível que meus apelos tenham sido ignorados.
Assim, aos cinco minutos da segunda etapa, o Peñarol marcou mais um gol, pondo fim às minhas expectativas de uma noite-madrugada pontuada pelos ritos ardentes que marcam o encontro de seres apaixonados. 2 X 1 pra eles.
- Putz, estamos ferrados. Brochei – declarou peremptoriamente a minha musa gostoduzulda.
Fiquei indignado. Amaldiçoei o mundo, a vida e, heresia suprema, o comandante Falcão e os bravos combatentes do exército vermelho dos pampas.
Se fosse um outro tempo o jogo seria interrompido, as tropas arregimentadas e, no dia seguinte, o Uruguai, invadido e rendido, seria apenas uma extensão do Rio Grande do Sul. Alisei a adaga (sou descendente distante de Adão Latorre, o degolador da Revolução Federalista de 1893 – nascido no Uruguai, ironicamente, mas gaúcho de coração, bravura e maldade) e pedi o celular do Sandro para convocar os herdeiros dos Lanceiros Negros da Revolução Farroupilha.
- É guerra – anunciei.
O jovem pragmático e paciente empresário da noite me fez ver a realidade.
- Não adianta, Seu Jens. O time se borrou. A defesa cochilou. Deu tilt no meio de campo. Ninguém arrisca um drible e chuta de fora da área. Os caras querem chegar na cara do gol. Não vai dar. Não é o nosso dia.
- A Marisinha também não vai me dar – choraminguei.
- Calma, Seu Jens. Domingo tem Gre-Nal. Vai que o Inter ganha e ela se anima de novo...
- Sim, sim... amanhã será um novo dia – consolei-me, à maneira de Scarlett O´Hara (se fosse mulher, seria que nem ela).
***
Refleti e deixei-me acalmar pelas palavras do Sandro, especialmente depois que o Grêmio perdeu para o Universidad Católica, do Chile, e também ficou fora da Copa Libertadores.
Contrariando minha postura recatada diante do infortúnio de um adversário, comemorei o gol da equipe chilena, aos 41 minutos do segundo tempo:
- Viva a PUC! – bradei, reverenciando a instituição onde conclui a formação superior.
Sorry, tricolores, mas uma vez marista, sempre marista. No RS ou no Chile.
***
Beijos e abraços rubros de esperança, damas e cavalheiros. 

Foto: a desolação do valente guerreiro Guiñazu. Jefferson Botega, no Clic RBS.

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