12 Novembro 2009

Encrenca é o meu negócio

Desde o início da semana vejo, ouço, leio e escrevo apenas sobre futebol. Mais especificamente, sobre arbitragem de futebol. A razão são as críticas furibundas e desairosas proferidas pelo presidente do Palmeiras, Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo, contra o árbitro Carlos Simon, meu amado Chefe, logo após o prélio entre Palmeiras e Fluminense, no domingo passado.
É impressionante a capacidade do futebol de fazer com que a barbárie prevaleça sobre a razão. Inconformado com a derrota por 1 X 0, o acadêmico Belluzo, economista de escol, ex-ministro da Fazenda no governo Sarney (argh!), esqueceu a educação refinada e verbalmente agrediu Simon, o árbitro do jogo, com uma violência poucas vezes vista no mundo do futebol. Não vou repetir os impropérios para não me irritar novamente. Como um moleque de rua, ele chegou ao ponto de ameaçar Simon fisicamente, incitando a torcida palmeirense a fazer o mesmo – para preocupação dos familiares do homem do apito e temor de seus filhos.
Na qualidade de assessores de imprensa, eu e meu associado Moah nos fardamos para a guerra não apenas para preservar a honra do Chefe, como também para mandar bala contra o pitbull das arquibancadas. Infelizmente não foi aceita a minha proposta de comandar um esquadrão avançado até São Paulo e dar uma sova de relho trançado no dirigente pouca prática e, aproveitando a viagem, distribuir umas lambadas em alguns luminares da crônica esportiva, igualmente cafajestes.
Assim, combatemos apenas com palavras. Por enquanto.
Apesar dos guinchos de Belluzzo, a caravana passa; Simon deverá ser o árbitro brasileiro da Copa do Mundo de 2010. Mas não saiu incólume da peleja – foi afastado dos jogos da reta final do Campeonato Brasileiro. Não basta estar certo para não ser alvejado por balas oportunistas. Sim, porque a arbitragem de Simon foi correta, como mostram vídeos em exibição na internet. Quem quiser obter mais informações sobre o assunto pode entrar no site do
Safergs (Sindicato dos Ábitros de Futebol do RS) – a nossa trincheira na web.
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Ultimamente ando compondo versões pornográficas de jóias do nosso cancioneiro popular (a letra que fiz para Guerreiro Menino, do Gonzaguinha é particularmente infame). Por que será? Uma espécie de compensação do cérebro diante de uma situação tensa? Não sei. Por vezes penso que minhas faculdades mentais estão se deteriorando ainda mais.
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Beijos combativos, damas. Abraços vingativos, cavalheiros.
Pra cima com a viga que a luta continua!

04 Novembro 2009

As lições do vil metal

Na pré-delinquência juvenil, nunca precisei de muito dinheiro. Uma penca de gibis (Super-Homem, Batman, Gasparzinho, Bolinha & Luluzinha, Flecha Ligeira, Cavaleiro Negro e Príncipe Valente), doces comprados no armazém do seu Valter, um punhado de balas azedinhas e alguns envelopes com figurinhas dos Ídolos do Robertão – Roberto Gomes Pedrosa, o Campeonato Brasileiro de hoje – satisfaziam as minhas necessidades intelectuais e gastronômicas da semana. Ah, quase ia esquecendo o principal: a grana para as matinês domingueiras do Cine Ipanema. Como se vê, fui um infante de hábitos espartanos.
Porém, já naquela época não existia almoço grátis. Para fazer jus aos benefícios, tinha que seguir um código de conduta, que consistia basicamente em respeitar os mais velhos, confessar os pecados ao padre Antonio no sábado e comungar na missa das 10 de domingo – às vezes atuando como coroinha – não brigar na rua, não proferir palavrões (impossível de obedecer) e ser um aluno aplicado da professora Maria Helena no Grupo Escolar José de Anchieta. Me saía bem, em quase todos os quesitos. Eventuais deslizes, na ótica da mãe, eram punidos com chineladas no traseiro. Registre-se, para a história, que as tundas eram injustas. Ontem, como hoje, nunca fiz nada de reprovável.
Quando ingressei na delinquência juvenil, decidi ganhar o meu próprio dinheiro. Não era justo sobrecarregar o pai com as crescentes demandas da minha sede de aventuras (cerveja, sexo, livros e MPB). Depois de uma rápida incursão na lida com a terra – capina e poda de grama nas casas da vizinhança – ingressei formalmente no mercado de trabalho, como faz-tudo em um escritório de representação comercial. Eu era um contínuo, sempre indo ou vindo de algum lugar. Um “corinho”, na gíria de então – alusão ao vai e vem do prepúcio naqueles momentos íntimos em que os machos da jeunesse dorée prestavam vassalagem no altar de Onã.
Ganhava 120 paus por mês, salário de menor. Aprendi o valor do dinheiro quando economizei três meses para comprar a minha primeira calça Lee (que na verdade foi uma Levis, adquirida na Saco & Cuecão por 80 cruzeiros).
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Atualmente constato, não sem amargura, que a idéia de que o dinheiro não cresce em árvore, mas sim é fruto do trabalho, está caindo em desuso junto a grande parte da juventude. Não me refiro aos filhos da miséria, para quem o mercado de trabalho é uma madrasta má. Falo dos bem nascidos, os filhos da abastança. Lamentavelmente, conheço jovens que, por terem acesso fácil a tudo o que o dinheiro pode comprar, fazem de suas vidas um sono eterno no que diz respeito à conquista de ambições pessoais e sequer aventam a possibilidade de uma atividade produtiva em prol da coletividade. São parasitas sociais. A culpa não é exclusivamente deles, naturalmente. Grande parte da responsabilidade é dos pais, que abdicaram da tarefa nem sempre agradável de educar os filhos, inclusive financeiramente. Talvez movidos pela noção errônea de que amar a prole é nunca dizer não aos seus quereres, mesmo os mais supérfluos, ou quem sabe assombrados por um passado de carência econômica que querem soterrar, ou ainda por simples comodismo, muitos pais desconhecem limites quando se trata de atender os desejos dos rebentos – aqueles que podem ser comprados com o dinheiro. A intenção pode ser boa, mas, na minha opinião, trata-se de um equívoco brutal, cujo resultado é uma legião hedonista. Viver não é apenas sinônimo de vinhos, mulheres (ou homens) e canções. Inclui também luta e trabalho duro não apenas para ganhar dinheiro, mas igualmente para alcançar ideais não necessariamente monetários.
A vida é melhor e mais decente quando o ter é resultado do fazer honesto.
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Este texto faz parte da blogagem coletiva sobre
Educação Financeira Infantil, para a qual fui convidado pela Cybele Meyer.


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Beijos, moças. Abraços, moços. Bom findi a todos.
Arriba, moçada!

02 Novembro 2009

Até breve, amiga

Apesar do calor, do sol e do céu azul, o fim de semana não foi legal. Perdi uma amiga e não sei lidar com a perda das pessoas que amo. Na verdade, no caso perda é uma palavra muito forte. O mais correto é dizer abandono, ou, ainda mais certeiro, afastamento (temporário – é o que espero fervorosamente).
Minha amiga confessou que passou a vida inteira brincando com a morte, com a soberba dos adolescentes que, mesmo na idade adulta, se julgam imortais. Segundo suas próprias palavras “naveguei por mares revoltos, experimentei por diversas vezes o gosto dos pecados capitais e ignorei solenemente alguns dos dez mandamentos. Vivi intensamente.”
Somos assim, alguns de nós.
Porém, durante toda a nossa vida a Dama Sinistra está ao nosso lado e vez por outra dá sinais da sua presença, para nos lembrar da finitude da vida. Isto aconteceu com minha amiga recentemente. Ela conta como foi:
“Dia destes, a deusa veio ao meu encontro. Parecia uma bruxa de olhos vermelhos e cabelos de fogo a reclamar minha presença. Ficou ali me olhando por um tempo que me pareceu séculos. Atrás dela, o cenário era uma grande tela. Vários filmes se atropelavam. Em todos, o papel principal era meu. Foram dias em que saí de mim sem me deixar. Não gostei de muito do que vi, mas passado é passado. Serve apenas para nortear o presente e construir o futuro.”
Depois de uma experiência assim, que nos coloca frente a frente com a nossa fragilidade física e, implacável, desperta a consciência para a transitoriedade da nossa presença neste mundo, repensar a vida e redefinir prioridades é uma imposição existencial.
Foi o que fez minha amiga. E entre suas prioridades atuais cultivar o canteiro de afetos virtuais não é uma possibilidade exequível.
Como uma criança mimada, meu primeiro impulso foi protestar. Mas não sou tão egoísta assim. Depois de refletir, só me restou o conformismo. Ela está certa em dedicar-se àqueles que lhe são próximos física e emocionalmente, que lhe querem e a quem ela quer bem. Antes, e sobretudo, a família. Neste caso, as necessidades de um (ela) se sobrepõem aos quereres de muitos (eu e a legião de amigos que já lamentam a sua ausência).
A mim só resta reafirmar o meu querer, carinho, amizade e, porque não dizer, amor. E desejar que tenha uma boa vida – com a mesma beleza, alegria, bondade, solidariedade e sabedoria que até então ela dividiu com seus inúmeros afetos conquistados no universo virtual da web, mas nem por isto menos reais.

Até breve, amiga. Um beijo.

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Moças e rapazes, boa semana pra todos nós.
Pra cima com a viga!
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Up date - esclarecendo: minha amiga vive - e assim haverá de ser por um bom tempo. Está abatida em razão de susto recente que a fez redefinir suas prioridades nos caminhos da vida.

29 Outubro 2009

Requiescat in pace

Aos 8 anos tive o primeiro contato mais íntimo com a Morte. Foi na sala da casa da rua Mário de Andrade, em Ipanema, temporariamente transformada em quarto hospitalar. O paciente era meu avô Daniel. Até os 80 anos foi um homem forte e trabalhador. Nos meses de outono e inverno cuidava de uma fazenda nos arredores de Porto Alegre. Nos demais vendia ovos, galinhas, frutas e legumes a bordo da carroça puxada pelo vigoroso Tubiano, tendo por companhia o cusco Fumaça, seu fiel escudeiro. Depois de um tombo, nunca mais recuperou a saúde. Nos dois anos seguintes, ele, que até então fora um católico relapso, tornou-se um fervoroso evangélico da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, possivelmente preparando-se para a hora da partida, que aconteceu no lusco-fusco de um domingo do verão de 1963.
Desde alguns meses antes o vô já não caminhava, o que obrigou o pai a transferi-lo do quartinho que ocupava no quintal para a sala de estar da casa, que estava movimentada naquele início de noite – parentes, vizinhos e companheiros de religião trazendo carinho e solidariedade. Pressentindo a chegada do fim, dona Elvina, uma católica devotada, comunicou:
- Ele está indo.
Ouvindo o choro convulsivo da mãe, vi, com os olhos arregalados, meu avô morrer. Segurava a mão de dona Elvina e ambos rezavam compulsando um rosário. Primeiro o Pai Nosso, depois a Ave Maria. Quando por fim a luz abandonou o seu olhar, ela ajeitou os braços dele sobre o peito, cerrou seus olhos e deu um beijo em sua testa.
- Acabou. Ele está em paz.
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No mesmo ano, alguns meses mais tarde, pouca gente deu atenção à morte do escritor britânico Aldous Huxley ocorrida em Los Angeles, pois no mesmo dia, 22 de novembro, faleceu abatido a tiros o então presidente dos Estados Unidos John F. Kennedy.
O autor de Admirável Mundo Novo morreu vítima de um câncer na garganta. Nos momentos finais pediu à Laura, sua segunda esposa, uma dose de LSD, droga que já experimentara e lhe proporcionou experiências de natureza mística, relatadas no livro As portas da percepção. Partiu em meio a uma epifânia, tendo a seu lado a mulher.
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Não sei qual o lenitivo mais adequado para encarar o encontro derradeiro com a Dama Sinistra, a religião que consolou meu avô ou a droga alucinógena que confortou Huxley. Mas sei que, como eles (e como ocorreu com meu pai), quero ter a companhia de uma mulher na hora final.
Elas, que nos trouxeram ao mundo, certamente também sabem como fazer para que o abandonemos em paz.
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Beijos, divinas damas. Abraços, gentis cavalheiros. Divirtam-se no findi prolongado.
Pra cima com a viga, moçada!

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(PS: o Barão de Coubertin, criador das Olimpíadas da era moderna, disse que o importante é competir. Concordo, porém faço um acréscimo: mas o bom mesmo é ganhar. Eu não ganhei, mas fiquei contente com a vitória do Miguel e da Soninha no concurso relativo ao 1° Encontro Nacional de Blogueiros que acontecerá nos dias 12 e 13 de dezembro, na cidade de São Francisco do Sul, Santa Catarina. Mais informações aqui, no blog do Betho Sides. Parabéns, pombinhos. Façam a festa por mim).

27 Outubro 2009

Jornalismo e isenção

Entre as boas coisas proporcionadas pela web, uma é a possibilidade de conhecer pessoas dos mais diversos rincões, em território brasileiro ou até mesmo fora dele. Uma das personalidades agradáveis e interessantes que tenho o privilégio de conhecer neste ambiente é a Yvonne. Ela é uma carioca bem humorada que vive em Guarapari, no Espírito Santo. Além do bom humor, cativa pela inteligência, tolerância e lucidez com que expõe seus pontos de vista. Com ela é possível discordar, debater com entusiasmo e, ao final, manter intocada a convivência civilizada – desde, é claro, que o debatedor mantenha o mesmo nível elevado de transparência e, sobretudo, elegância.
Atualmente, Yvonne está afastada da blogosfera (seu espaço, o
BlogGente está em recesso) mas não abandonou a rede de amigos virtuais com os quais mantém contato através de emails com mensagens ora engraçadas, ora refletindo sobre questões de natureza política ou simplesmente humanas, demasiadamente humanas, que tocam a sua sensibilidade. No texto a seguir ela aborda uma das questões mais atuais e delicadas da nossa vida em sociedade, que é imparcialidade, ou a falta de, do jornalismo que se pratica em nosso país. É um artigo que eu gostaria de ter escrito, mas não poderia - não sou imparcial. Ela, ao contrário conseguiu examinar o assunto com uma linguagem cristalina sem o viés da paixão política. Creio que o resultado da sua reflexão será tão proveitoso para os leitores como foi para mim. Confiram.
Com vocês, damas e cavalheiros, Yvonne.
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Não acredito em jornalismo isento. Aliás, eu não acredito em isenção por parte de nenhum profissional que tenha que escrever sobre um determinado assunto e os meus motivos são muitos. O mundo deve ter pouquíssimas pessoas que esquecem de tudo que acreditam ou gostam para fazer um julgamento justo. Aliás, recentemente bati um papo com um amigo virtual que mora na Itália, exatamente sobre isso. Vou dar um exemplo bem bobo: sou brasileira, amo o meu país e não sou chegada aos "United States of America". Se o governo daquele estranho país toma uma justa medida contra o nosso, eu em princípio já serei totalmente contra. Não importam as razões.
Pois bem, acho que jornalistas políticos em sua grande maioria não merecem crédito algum. Uns são apaixonados pelo Lula, outros querem vê-lo morto. Dessa forma, como é que eu posso ler uma coluna equilibrada? Além da paixão ou ódio individual, ainda existe a orientação do jornal ou da revista. Então tudo fica embaçado diante dos meus olhos. Se o governo federal faz algo de positivo, os apaixonados pelo Lula só faltam se masturbar. Em compensação, os contrários atacam tudo, como se ele não tivesse mérito algum.Eu quero ler a notícia como se fosse uma narrativa ( dia tal, tal hora, fulano caiu do décimo andar e não morreu). Cabe a mim interpretar por qual motivo o fulano teria caído da janela. Se essa notícia fosse dada pela revista "Look", certamente iria culpar o governo Lula pelo fato do cara ter despencado da janela. Já os lulistas dariam uma outra versão tendenciosa contra o governo FHC e diriam que, agora depois do bolsa-família, poucas pessoas se suicidam.

Amigos, a minha linguagem hoje está bem "vovô viu a uva", mas é que estou tentando ser a mais simples e imparcial possível e essa situação aconteceu porque reli ontem um irado texto meu escrito há alguns anos quando o Diogo Mainard começou a se destacar no jornalismo. Naquela época, eu praticamente convidei as pessoas para caçá-lo tal qual a Inquisição fez com as ditas bruxas. Fui baixa o suficiente para mencionar problemas familiares dele que não deveriam ter sido ditos, ou seja, eu utilizei as mesmas armas que ele lança mão em sua coluna semanal na "Óia". Também fui tendenciosa. Felizmente nunca mais li nada dele e eu nem sei dizer se ele continua sendo a figuraça de sempre ou se melhorou alguma coisa. Só sei que ele me fez um grande favor ao me ensinar a ler tudo com cinco mil olhos. Por incrível que pareça, toda essa minha implicância não teve nada a ver com política e sim com as observações dele sempre mesquinhas e fazendo pouco de tudo que vê pela frente. É a mordacidade sendo usada não para escrever algo com fina ironia e sim para acabar com a vida do outro.
Alguns grandes colunistas também cometem os seus erros, como foi o caso do Luis Fernando Veríssimo que recentemente escreveu um texto favorável ao Lula que eu fingi que não li. Nada tenho contra o fato de ele gostar do presidente, só que a defesa ficou pior do que o soneto e o comentário dele foi sobre algo que não tinha como defender o Lula. Como sei que ele é gente fina e um dos maiores escritores do Brasil, eu preferi esquecer esse deslize. Estão vendo só? Não existe ninguém isento e eu sou igual a todo mundo.
Prá terminar, gostaria de homenagear aqui um dos maiores homens que este país já conheceu: o advogado
Sobral Pinto. Já falei dele em outras oportunidades. Ele era um rigoroso católico praticante e anti-comunista ferrenho. No entanto, foi o maior defensor dos presos políticos que eram ... comunistas. Quando aquele homem aparecia, todos os demais perdiam o brilho e importância. Velhinho e temido pelos milicos quando fazia a defesa de alguém. Odiava o Comunismo, mas tinha em mente que é direito soberano de qualquer cidadão acreditar no que bem entende. Abria mão de suas convicções para fazer valer o direito do outro que não pensava da mesma forma que ele e tinha como força motriz um profundo senso de dignidade, solidariedade e respeito pelo ser humano independente da sua postura ideológica, tanto que chegou a invocar o Código de Defesa dos Animais em defesa de Prestes, na ditadura do Estado Novo. Isso sim é imparcialidade e eu acho que todo mundo deveria se espelhar em pessoas assim.

25 Outubro 2009

Um dia no parque


Muito do que sou devo ao verbo. Para ser mais preciso: as ideias expressas em palavras impressas foram fundamentais na minha formação. Uns 50% talvez – nem todas altruístas. O restante, a parte boa, devo principalmente às chineladas corretivas da mãe (“Não fui eu! Não fiz nada!”) e às silenciosas, certeiras e definitivas repreensões do pai, que tinha a habilidade de transmitir conceitos éticos e morais unicamente através do olhar.
Aprendi a ler e escrever aos 7 anos no Grupo Escolar José de Anchieta. Quem me deu a chave para abrir a porta deste mundo novo foi a professora Maria Helena, primeiro e inesquecível amor. Desde então, me perdi e me achei, fui herói e vilão, amei e odiei, sorri e chorei, gozei e morri, visitei as profundas do inferno e ascendi ao paraíso. A alfabetização foi o meu Pecado Original – a minha perdição e salvação, liberdade e cárcere. Errando e acertando, continuo querendo mais.
Aliás, acredito que...hummm...o quê? Tá, tá, tá, falem, entre parêntesis, e desapareçam.

Abre.
- Dá um tempo, chefe. Isto está ficando filosófico demais. A idéia não era essa, lembra? – observação de Bob, o botão da minha primeira calça Levis, atualmente ocupando o cargo de confiança de eminência parda.
- É isto aí, te coordena cabeça de pudim – admoestação de Moe, apoiada por Larry e Curly, o trio de neurônios que me restou.
Fecha.

Apesar da insolência, os rapazes estão certos; estava tergiversando. Não mais o farei. Vamos ao cerne da post, portanto. Perdão, leitores
***
Entre as obras que me seduziram nos anos juvenis e impressionáveis estão o opúsculo O direito à preguiça de autoria de Paul Lafargue, cunhado de Karl Marx, e o ensaio Elogio ao ócio, de lord Bertrand Russel. Na essência, o que eles dizem é que a emancipação dos trabalhadores, preconizada por Marx e Engels, é a última estação do trem que conduzirá a classe trabalhadora ao paraíso. Ou seja, a destruição dos grilhões impostos pelos exploradores e a posse dos meios de produção seriam as condições objetivas para que os trabalhadores promovessem a união harmônica entre trabalho e lazer – mais este do que aquele, claro. Uma sociedade não apenas sem explorados nem explorados, mas com feriadão permanente, variando entre sextas e segundas-feiras. Nesta nova ordem, o ócio prolongado poderia ser usado tanto para aprimoramento intelectual e espiritual ou atividades menos nobres como assistir futebol na tevê deitado no sofá, vestindo apenas cueca, beber cerveja com os camaradas, pegar um cineminha com a patroa, visitar a parentada ou dedicar-se a consumação dos prazeres carnais (nada a ver com o churrasquinho de fim de semana), atividade que lord Russel praticou com constância e perícia, segundo seus biógrafos.
Ainda imberbe, mas já dotado de uma acurada capacidade analítica, não apenas concordei com o ideário, como tratei de adaptá-lo ao meu cotidiano. Assim, desde essa época procuro intercalar períodos de labor esfalfante com lazer intenso. No fim de semana, fiel a esta diretriz decidi levar a mente e o corpo para o parque de diversões internético, como justa compensação após um período de trabalho duro.
Porque era sábado, acordei depois das onze. Após de uma lauta refeição, à guisa de café da manhã e almoço, assumi o timão de Hal Jr. (pra quem não sabe é o nome que o meu PC recebeu na pia batismal) e fui navegar na web. Evitei as águas turbulentas; deixei-me guiar pelas ondas suaves da futilidade. Fiz algumas descobertas interessantes, todas referentes ao universo feminino, o único que me interessa. A seguir, alguns exemplos.
- A socialite Paris Hilton não é uma loira burra. Esta é apenas uma personagem do jet set (ainda se usa a expressão?). Esclareceu que no dia a dia sob a luz do sol é uma mulher de negócios inteligente e atilada. O grasnar irritante também é falso. Dona de um coração bondoso, fez da casa dos cachorros uma réplica da sua mansão, inclusive com a mobília. Pelo que entendi, durante o dia ela é Margareth Thatcher; à noite, Linda Lovelace, a pioneira dos filmes pornôs. Interessante.
- Adriana BomBom (profissão indefinida) se separou de Dudu Nobre para virar homem. Trocou as formas pneumáticas (gostosas de apalpar) por um corpo de lutador de jiu-jitsu: coxas e braços musculosos e ameaçadores. Suspeito que a causa da separação tenha sido o medo do sambista – um pacato, rotundo e flácido cidadão – de eventualmente ter que encarar um embate físico com a mulher - e não me refiro às doces refregas travadas nos domínios de Afrodite.
- Uma das garotas do Pânico na TV está apaixonada por um dos filhos de Luma de Oliveira. Na verdade, não é uma paixão fugaz, mas um amor que se propõe a ser duradouro. “É o amor da minha vida, o meu homem”, declarou a gostosa. O garoto sortudo é filho também de Eike Batista, cuja fortuna é calculada em 6 bilhões de dólares. Desconfio que, zelosa, mamãe Luma vai abortar o romance. Afinal, uma alpinista social reconhece uma igual.
Municiado por estas e outras informações triviais, senti-me apto para manter conversação mundana por algumas horas com os aldeões e, preferencialmente, aldeãs que habitam as cercanias do castelo. Depois de um minucioso asseio corporal de meia hora, barba feita com esmero, discretamente perfumado (colônia Lancaster), vesti o traje de caçador: tênis preto, meias brancas, Levis original (só sai do armário em ocasiões especialíssimas), camiseta e paletó pretos. Antes de sair, sorri para o cara do outro lado do espelho.
- Agora, vai! – falei com convicção.
Ele retribuiu o otimismo.
- É hoje!
***
As expectativas se confirmaram: em nome da classe trabalhadora, fui ao paraíso. A pele cintila, mas infelizmente o cavalheirismo me impede de entrar em detalhes.
Pra melhorar, o Glorioso Colorado dos Pampas venceu o GreNal. A vida é bela.
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Beijos ternos, gurias. Abraços relaxados, guris.
Boa semana pra todos nós. Pra cima com a viga!

21 Outubro 2009

Pugilo de bravos (2)

Certas mulheres têm o dom de mudar um homem para melhor. Lígia pertence a esta linhagem nobre.
Como estávamos embasbacados, coube a ela animar a conversa.
- E o Brasil, hein?
- É, e o Brasil? – ecoou Valdô, o diminuto, inseguro quanto à postura mais adequada a adotar, tendo em vista seus interesses românticos.
- Soube que o país foi reconhecido pela ONU como um exemplo no combate à fome no mundo. Fiquei tão contente. Acho que o Lula está fazendo um bom governo. Ele é uma graça.
O Maia deu um violento tapa na própria coxa.
- Como eu estava dizendo antes da tua chegada: foi preciso um presidente operário para começar a pagar a imensa dívida social do Brasil – disse ele, que alguns minutos antes defendia o empalamento presidencial.
O Pereirinha e o Tarzan igualmente renegaram com entusiasmo suas convicções neoliberais.
- Grande homem. Como Getúlio, o pai dos pobres, o guia genial das massas, um grande timoneiro – na tentativa de mostrar erudição política, o baixinho colocou Vargas, Stalin e Mao no mesmo saco.
- Um orgulho para o Brasil e para o mundo – o Tarzan não deixou por menos.
De minha parte, reafirmei a fé socialista, revelando sutilmente a condição de petista histórico. Pelo seu olhar cintilante, pressenti que marquei alguns pontos.
Certas mulheres têm também a capacidade de fazer aflorar a alma artística de um homem. Lígia é uma delas.
- Não, obrigado. Sou uma gaúcha do asfalto. Acreditam que não sei dançar vanerão? – ela falou sorrindo, ao recusar a cuia de chimarrão.
- Mas isto tem que ser corrigido – falou o Maia com voz de veludo – Tens que conhecer um bailão, hehehe – completou com um risinho safado.
- Quem sabe... – ela acenou com uma esperança tímida.
Amaldiçoando a inaptidão para a dança, contra-ataquei.
- Tua esposa certamente vai gostar de ir junto.
O Maia me fuzilou com os olhos (“tem a volta, sacana!”). O Tarzan, de chapéu, bombacha, faca na cintura, bota e esporas resolveu se exibir.
- Conhece a chula¹?
- Só pela tevê.
- Permita-me – disse ele. Colocou uma vassoura no chão, fazendo às vezes de lança, e passou a pular de um lado a outro do artefato, a barriga proeminente e subindo e descendo e os bicos da bota marcando o ritmo, certamente fazendo os bravos guerreiros farroupilhas revirarem-se nos túmulos.
Quando terminou, ela aplaudiu deliciada.
- Bravo!, bravo!...
Suando, bufando, o Tarzan passou o lenço vermelho na caratonha e quase desabou ao fazer uma curvatura – que pretendia graciosa – em agradecimento.
Teríamos ficado ali a tarde toda se o churrasco já não estivesse perigosamente passando do ponto. Além disso, as consortes de meus adversários estavam impacientes e, de cinco em cinco minutos, enviavam pequenos mensageiros:
- Paiê, a mãe mandou perguntar se ainda vai demorar muito.
- Paiê, a mãe quer saber quem é essa mulher.
- Paiê, a mãe disse que a carne vai queimar e ela vai vir aqui.
Apesar dos meus protestos, todos decidiram que era hora encerrar as atividades.
- Estou faminta – disse a Deusa, dando início às despedidas.
Divididos entre a tristeza e o sonho, vimos Lígia afastar-se em companhia do coxão. Daquele ângulo, a visão era ainda mais portentosa.
Suspiramos. Naquele momento, não éramos mais oponentes futebolísticos ou políticos, mas apenas um magote de velhos rapazes perdidamente enfeitiçados por uma das mais formosas discípulas de Afrodite.
Como na música do Chico, foi cada um pro seu canto. À noite, a vizinhança reclamou da estridência dos uivos.
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Beijos maravilhados, damas. Abraços esperançosos, cavalheiros. Um dia eu chego lá.
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Chula¹: bailado, é uma dança disputa, sempre entre homens que ainda resiste no Rio Grande do Sul. A disputa entre os dois dançarinos, colocados nos extremos de uma grande vara, quatro metros ou mais, começa com um dos participantes executando uma coreografia agitada, muito rápida, de passos quase frenéticos, com movimentos semi-acrobáticos, toda sapateada e taconeada, único som essencial que marca o compasso. O ruído das grandes rosetas, nas esporas, completa o som.