Meu lar é meu castelo
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A viagem de volta foi tumultuada. O ônibus saiu às 12h15. Os passageiros, na sua maioria, eram integrantes daquela faixa etária que se convencionou chamar de terceira idade. O mais jovem era eu. No meio do caminho, um pneu traseiro recapado foi pro pau; a seguir, o banheiro entrou em colapso (meu lugar era no fundo do ônibus). Por sorte, uma simpática anciã sentada ao meu lado estava munida de um frasco de perfume de cheiro delicioso, com que gentilmente borrifou a atmosfera no restante do trajeto. Chegamos depois de oito horas e meia. Antigamente a viagem durava seis horas. Interessante, ao que parece, a cada ano que passa, aumenta a distância entre Flopis e POA. As placas tectônicas devem estar de mudança.
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A primeira pessoa a me recepcionar, antes mesmo que eu adentrasse às muralhas que protegem o castelo, foi Odaléia, minha doce e prestativa vizinha. Envolveu-me num abraço de corpo inteiro, beijou-me as faces e, com os olhos lacrimejantes, declarou sua saudade. Teríamos ficado ali no bem bom se Valdirão, o energúmeno, marido de Odaléia, não estivesse nas proximidades. Depois de me dar um tapaço nas costelas, fez piadinhas sujas, de conteúdo sexual, que não reproduzo aqui em respeito ao bom gosto e a sensibilidade de quem me lê. Agastado, retirei-me.
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Aparentemente, deixei de pagar a conta do telefone antes de sair de férias. Ingrata, a Br Telecom suspendeu a prestação de serviço, desprezando 10 anos de pontualidade britânica (menos, menos...). Recorri ao banco, em busca de recursos. O gerente sequer me recebeu. Radicalizei e assestei a alça de mira para os cofres públicos – se existe dinheiro para os banqueiros, deve ter uns trocados para mim. Liguei diretamente para o Palácio do Planalto (não mantenho boas relações com o pessoal do Banco Central). O presidente Lula, outro ingrato, também sequer falou comigo (“ta ocupado”, disse a secretaria mal educada). Magoei. Assim, fui obrigado a buscar socorro com Paulão, o quebra-galho financeiro do bairro. Se não pagar o empréstimo na semana que vem, talvez ele quebre minhas pernas. Simpático, o Paulão.
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Joguei fora as roupas sujas (irrecuperáveis), limpei a geladeira (sem a ajuda da doce Odaléia, o Valdirão não está de bom humor) e paguei a conta do telefone. Antes, na terça-feira, fechei o vibrante mensário Marca da Cal, juntamente com meu associado Moah. Aos poucos a vida volta ao normal. Antes, claro, tem o carnaval. Pensando bem, depois da Páscoa, seguramente, no ano vai começar pra valer.
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Beijos, meninas. Abraços, rapazes. É bom estar em casa.
Arriba!
(PS: repararam que não usei a palavra “porra”? Estou ficando civilizado).







