Amor, honra e glória em Casablanca


O assunto da blogagem coletiva proposta pela Vanessa, do Fio de Ariadne, me atraiu à primeira vista: o filme da minha vida. Mais uma oportunidade para falar sobre Casablanca. A primeira vez que vi foi nos anos 70, acho, na telinha da TV. O amor foi imediato. Nos anos seguintes assisti mais de 20 vezes, em exibições especiais nos cines Baltimore e Guarani e nas sessões televisivas da madrugada.
O que gosto neste filme? Tudo: a história, os atores, o maniqueísmo, o sentimentalismo, o jeito escancaradamente brega de ser. Despudoradamente, o filme lança mão de todos os chavões cinematográficos: Encontro, Paixão, Abandono, Heroísmo, Idealismo, Reencontro, Espera, Passagem, Renúncia, Honra, Amizade e, claro, a eterna luta do Bem contra o Mal. Geralmente um filme é construído a partir de uma ou duas destas situações. Os roteiristas Howard Koch, Julius J. Epstein e Phillip Epstein conseguiram reunir todas estas situações em Casablanca. O resultado poderia ser uma obra prima ou um monumento ao lugar comum. A primeira ganhou.
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Diz a lenda que próximo do fim das filmagens, Ingrid Bergmann não sabia com quem sua personagem, Ilse Lundt, ficaria no final: o amoral Rick Blaine (Humphrey Bogart) ou o combativo Victor Laszlo (Paul Henreid). Em busca de orientação sobre como atuar nas cenas com os dois – quem deveria ser o alvo de um olhar mais intenso – recebeu a seguinte orientação: aja como se fosse ficar com ambos.
Muitas cenas foram escritas e reescritas já durante a realização das filmagens. O destino de Ilse foi decidido em cima da hora.
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Rick não pronuncia a frase “Toque de novo, Sam”, popularizada por Woody Allen em Sonhos de um Sedutor. Quem pede é Ilse: “Em consideração aos velhos tempos, toque uma única vez, toque At time goes by”. Como não se recusa o pedido de uma dama, Sam (Doodley Wilson) toca, enquanto rolam lágrimas pelos olhos dela.
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Humberto Eco escreveu um ensaio definitivo sobre o filme. Na sua avaliação, “de acordo com os padrões estéticos atuais, Casablanca não é uma obra de arte. É um amálgama de cenas sensacionais ligadas entre si de forma implausível; os seus personagens são psicologicamente inverossímeis, os seus atores estão cheios de maneirismos. Mas é um fabuloso exemplo de discurso cinematográfico (…). Mais do que isso, é um filme cult. E quais são os requisitos para que um filme seja um objeto de culto? A obra tem ser amada. Tem de fornecer um mundo completo, para que os fãs possam citar personagens e episódios como se fossem credos de uma seita, um mundo privado, um mundo sobre o qual se fazer concursos de perguntas e respostas.”
Como bom discípulo, estou apto para entrar em uma competição desta natureza; tenho todas as cenas e diálogos gravados na memória.
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A obra dirigida por Michael Curtz foi lançada em 1942, sem outra pretensão que não fosse fazer parte do esforço de Hollywood para combater o nazismo. Custou US$ 900 mil aos cofres da Warner Bros. Sua estréia estava inicialmente prevista para junho de 1943, mas como em novembro de 1942 os Aliados desembarcaram no norte da África e libertaram a verdadeira Casablanca, a Warner resolveu por lançar a película imediatamente.
O filme foi bem mais além do seu objetivo inicial. A história de amor entre o durão cínico e heróico Rick Blaine e a bela e doce idealista Ilse Lund continua até hoje cativando corações e mentes sonhadores e apaixonados. Ao contar a história de um punhado de vidas reunidas pela guerra em um reduto no norte da África, Casablanca fala de sentimentos que são caros a toda humanidade. Como disse Tolstoi, se queres ser universal, canta a tua aldeia. Casablanca conseguiu.
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Beijos, Ilses. Abraços, Ricks.

Manual prático do amor para a mulher moderna

Com freqüência, as damas se queixam de incompreensão por parte dos cavalheiros. A recíproca é verdadeira. Como cidadão do mundo e atento observador da natureza humana, constantemente escuto reclamações de homens que se sentem vítimas da intolerância feminina. Os motivos de amuo do sexo frágil são hábitos corriqueiros no dia a dia dos machos. Detectado o problema e preocupado em estabelecer a convivência harmoniosa entre os sexos, dei início à elaboração de um pequeno manual de comportamento que possibilite a elas melhor compreensão, aceitação e obediência às necessidades deles. Destarte, acredito estar contribuindo para tornar menos perigosas as relações entre machos e fêmeas, resgatando a palavra de ordem dos anos 60: Faça amor, não faça guerra. Depois de grande esforço intelectual, alinhei os cinco pontos mais nevrálgicos das relações conjugais, que diagnostiquei nas pesquisas de campo. Humildemente, peço que me concedam o privilégio da sua atenção e cliquem na imagem abaixo. Leitura especialmente recomendada para as damas.




Um homem que gosta de outros homens


Hoje é dia de entrevista lá no Palimpnóia. A conversa deste mês tem um alto poder de octanagem. O entrevistado é conhecido na blogosfera como Autor. A sua base de operações é o blog Confissões a Esmo, o lugar onde, diz ele, destila sandices, pensamentos e idéias. “Conto a minha vida, as minhas dúvidas e inquietações. São confissões jogadas ali, a torto e a direito. Para agrado ou desagrado de quem quer que seja”, revela com sinceridade. Entre idas e vindas, faz cinco anos que está na blogosfera. "Ali sou realmente eu. O Autor nasceu como personagem, mas hoje é o mais próximo da realidade possível”, confessa. A opção pelo codinome aconteceu por conta da homossexualidade. Ele explica: “Não sou assumido para toda a sociedade e não faço questão disso. Para quem interessa saber, me identifico". Por ter como temática o dia a dia de um homem gay, achou que seria lido apenas por gays. Não foi o que aconteceu. Há muitos heteros entre os internautas que acessam o blog e comentam com naturalidade tudo que ali é abordado.
Clique aqui e conheça um pouco da história e da personalidade do Autor, um personagem que revela sem pudor a dor e a delícia de ser o que é.

Estranhos no paraíso


Estou deixando a barba crescer. Para ser mais exato, apenas o bigode e o cavanhaque. Meu objetivo principal é acabar com as contestações dos outros anciãos quando ocupo lugar reservado aos idosos nos ônibus. Os pêlos quase totalmente brancos não mais deixarão dúvidas quanto a minha idade provecta. A Rainha Preta Mari Timm desaprova, diz que, além da aparência mais velha, pareço um bode. Talvez ela tenha razão. Estou pensando em mudar o nome do blog para Terreiro do Bode Velho.

Decidi: vou comprar uma bengala daquelas antigas, de madeira de lei e castão de prata. Não é, ainda, uma exigência do meu corpo esbelto, mas simplesmente a realização de um sonho de consumo elegante, que nasceu quando, ainda pequerrucho, lia as crônicas do Nélson Rodrigues, onde os homens desfilavam de cartola e bengala. Meu desejo oculto é um dia restaurar a honra nacional desferindo vigorosas bengaladas no lombo de uma personalidade pública corrupta. Candidato é que não falta.

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Maravilhas na rede Perdoem o uso da palavra chula, mas é inevitável: a internet é foda. Além de ser o olho que tudo vê, é radicalmente democrata ao partilhar a informação: está tudo na rede pra quem quiser ver. Na minha avaliação, os fatos recentes mais extraordinários à disposição no universo virtual são a performance de dona Susan Boyle, a inglesa que hospeda rouxinóis na garganta, e o pega pra capar Joaquim Barbosa X Gilmar Mendes – o Cavaleiro Negro contra o Dragão da Maldade. Pensei em colocar os links aqui, mas certamente vocês já viram; quem não viu é mulher do padre (ou do bispo paraguaio).


A propósito, o ministro Joaquim Barbosa reanimou minha esperança nos homens públicos do Brasil. Lembrei do dr. Sobral Pinto, advogado notável, conservador e anticomunista ferrenho que, mesmo assim, aceitou defender o comunista Luis Carlos Prestes, preso depois do levante vermelho de 1935. Além de honrado, dr. Sobral era destemido – em nome do que julgava ser o certo, enfrentou a ditadura de Getúlio Vargas (na defesa de um preso político torturado exigiu do governo a aplicação da Lei de Proteção aos Animais). O ministro Barbosa segue a mesma trilha nobre e combativa ao encarar o autoritário Mendes. Nem todos se apequenaram, alguns poucos resistem. Ainda.
Como sói acontecer no Brasil, o gesto valente de Barbosa foi exemplarmente punido. Ele virou “o ministro 10 a 1”. Isto é: os dez colegas de Joaquim devem levá-lo ao freezer. Nada de novo. Na verdade, ele já era um estranho no ninho - o primeiro ministro negro da história do Supremo Tribunal Federal. Aliás, dependendo da companhia, às vezes é preferível andar só.

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Beijos, Deusas. Abraços, Faunos.
Bom findi pra todos nós. Arriba!

O tiradentes


Uma das coisas que me intriga são as razões que levam alguém a escolher a profissão de dentista. Considero estranho, nojento até, ganhar a vida vasculhando bocas alheias, algumas, inclusive, que não primam pela boa higiene.
Meu espanto refere-se às pessoas normais, pois há indivíduos que parecem vocacionados para a carreira, como, por exemplo, o dentista da minha adolescência. De origem germânica, era gordo, baixinho e usava óculos fundo de garrafa. Lembrava um oficial nazista de filme antigo. No geral era um sujeito sério, porém se permitia um risinho sádico quando o maldito gancho de metal cutucava uma cárie, fazendo o indefeso paciente (no caso eu) pular de dor na cadeira. Com os olhos faiscando de excitação ele indagava:
- Hummm... é aqui? Tá doendo?
Lacrimejando, respondia afirmativamente e ele fuçava mais um pouco, prolongando a tortura. Era um profissional dedicado ao seu ofício.

Porém, em respeito à verdade, reconheço que nem todo dentista é um torturador em potencial. Existem aqueles que se esmeram para deixar o paciente calmo, confortável e tranqüilo. Para isto usam palavras em abundância. O sujeito ali, deitado naquela cadeira esquisita, com a boca aberta, engolindo saliva e babando ao mesmo tempo, e o homem (ou mulher) escarafunchando um dente com ferrinhos e broca enquanto fala sem parar, querendo saber o que o paciente acha da violência urbana, da roubalheira na política, da bunda da mulher moranga y otras cositas mas. Nestas ocasiões, respondo sucintamente: um vergogloglunha, um merblugda e gostotocha, respectivamente.

Num tempo muito distante, o Grupo Escolar José de Anchieta, em Ipanema, tinha atendimento odontológico. O Bira, castigado por uma implacável dor de dente, procurou ajuda. Depois do exame, o profissional de saúde bucal sentenciou:
- Este não tem salvação, tem que extrair.
Já naquele tempo faltava verba para tudo, inclusive para a anestesia, o que não impediu o artífice do boticão de seguir em frente, no intuito de acabar de vez com o sofrimento do Bira.
- Vai ter que ser a seco – informou, ao mesmo tempo em que atacava o dente podre.
O berro do Bira foi ouvido por boa parte do bairro. Ele pulou da janela do segundo andar e nunca mais voltou a sentar em uma cadeira de dentista. Hoje usa dentadura dupla.
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Beijos, damas. Abraços, cavalheiros.
Pra cima com a tora.

Quase lá


Voltei. Não indaguem sobre a missão aludida no post abaixo, pois nada posso revelar, em nome do bem-estar nacional. Só esclareço que o fato de ainda vivermos em uma ilha de paz, tranquilidade e prosperidade deve-se, em grande parte, ao sucesso da tarefa a que me dediquei nos dias afastamento. Quando os fatos vierem à luz, daqui a uns 50 anos, serei louvado pelos historiadores e reconhecido como um herói nacional. Estudantes em júbilo ostentarão meu rosto em camisetas e tatuagens. O reconhecimento, ainda que tardio, virá. Não, não precisam me agradecer; sou assim: um bagual discreto em relação aos seus feitos heróicos, que venera a pátria acima de tudo!
Agora, a vida retorna ao seu leito normal. Pro alto e avante.
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O fundo do poço –
O Bar do Alemão mudou de nome. Agora se chama Quase lá. Tão logo adentra no conceituado estabelecimento, a seleta clientela é saudada pelo Bugio, o solícito garçom, com a pergunta padrão: “E aí, cumé que tá?” A resposta é igualmente padronizada: “Quase lá”. Trata-se de uma referência à crise econômica. O “quase lá”, significa que o cidadão (ou cidadã, o Alemão não é machista; dona Galega não permite) já caiu no poço da desdita financeira, mas ainda não chegou ao fundo. Está quase lá. Resistimos com denodo, vitaminados por doses generosas do fortificante feito à base de cevada e lúpulo e, é claro, com o apoio logístico do coronel Jack Daniel´s, o bravo combatente do Tennessee. Os credores não passarão (da porta do bar, bem entendido).
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Banzo –
O clã se reuniu em Ipanema na Páscoa. Veio toda a turma de Floripa: a mãe, a mana, o cunhado, os sobrinhos e os sobrinhos-netos. Mesa generosa: peixada e churrascada, of course; adega idem: cervejal, naturalmente. Aproveitei a oportunidade para andar pelas ruas do bairro onde fui soberano na infância e adolescência. Tudo mudou: as casas onde morei não são mais as mesmas, assim como mudaram aquelas que minha gangue apedrejava em noites antigas. O Cine Ipanema, onde quebrávamos cadeiras nas matinês domingueiras, fechou; a pracinha onde fumei meu primeiro cigarro (o legal e o ilegal – vade retro, Satanás!) cresceu – os arbustos incipientes transformaram-se em árvores taludas. Fiquei deprimido. Ipanema não há mais, o bairro que foi meu só existe na memória. Depois de disparar ao vento imprecações inúteis contra o progresso, decidi que não volto mais lá, a não ser daqui a um longo tempo, em forma de cinzas que deverão ser espalhadas na praça da rua Capão da Canoa. Alguns dos melhores momentos da minha vida foram testemunhados por aquela terra vermelha. Quando chegar a hora, quero me juntar a ela e, então, além de uma doce lembrança, serei imortal.
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Então tá, tô na área. É bom estar de volta.
Beijos, meninas. Abraços, rapazes.
Boa semana pra todos nós.
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Up date: Inter Campeão Gaúcho de 2009 (8 X 1 no Caxias). A felicidade é vermelha! Festa na aldeia!

Serviço secreto


Voltei. Ou melhor, não voltei ainda. Só vim aqui para informar rapidamente que estou gozando de perfeita saúde e com a atenção inteiramente voltada para uma missão de extrema relevância para o fortalecimento do Estado Democrático de Direito em nossa nação. Seguindo ordens superiores, não posso em entrar em detalhes sobre a natureza da tarefa, até mesmo para garantir a segurança das amadas leitoras, especialmente, e dos prezados leitores também.
Isto posto, repilo peremptoriamente as calúnias que estão sendo espalhadas de maneira solerte por meus detratores, dando conta de que eu estaria mergulhado em um processo orgiástico – e sem volta – de celebração dos prazeres da carne, mesa, cama, banho, closet e escada do corredor do prédio. Não existe nada disto. A missão que me foi confiada pelos mais altos escalões da República é vital para os interesses nacionais e não permite distrações de natureza voluptuosa. É claro que gosto de uma boa sacanagem, como sabem os que me honram com sua leitura. Porém, amo mais o meu país e não me furto em servir à Pátria Amada Salve, Salve, sempre que requisitado, como na presente situação. Mais não posso revelar, mas garanto que voltarei. Se sobreviver, e não chover, possivelmente na semana que vem.
Beijos gurias; abraços guris. Obrigado pela atenção.
Pra frente, Brasil!
Câmbio, desligo.

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