Hehehe...

Entre meus confrades do Bar do Alemão sou considerado um privilegiado. “Consegue ganhar a vida sem fazer força, aliás, nem precisa sair de casa. Passa o dia juntando letrinhas. Até a grana vem por computador. Coisa de gênio”, comentam às minhas costas, sem esconder a admiração.
Não é bem assim. O que meus camaradas não sabem é que o labor intelectual é muitas vezes mais duro que o trabalho físico, exigindo persistência, denodo, astúcia e aprimoramento constante. Neste último quesito estou enfrentando dificuldades.
Confesso, com uma ponta de vergonha, que ainda engatinho na trilha aberta pela mais nova reforma ortográfica. Sou um sujeito conservador, quando se trata do idioma pátrio, tanto que recém superei o trauma causado pela reforma de 1971 (sim, crianças, esta é a terceira alteração nas regras do jogo ortográfico. A primeira foi em 1943).
Reluto em abandonar o trema, não tenho a mínima idéia do que fazer com o hífen e meus olhos cansados são por demais sensíveis para contemplar o atentado terrorista representado pela nudez capilar de certas palavras como ideia ou plateia.
Assim, combaterei na trincheira até dezembro de 2012, data para a rendição inapelável. A partir de então, terei de retornar aos bancos escolares.
Abre parêntesis. Depois da reforma de 71, em que também foram suprimidos alguns acentos, eu e meus sequazes do Ginásio Padre Réus radicalizamos e abolimos por completo a acentuação. Diante da reclamação das mestras, respondíamos com a ingênua sabedoria juvenil: “Ué, fessora, o acento não caiu?” Nem todos, nos ensinaram as notas vermelhas nas provas de redação (sim, crianças, naquele tempo elas, as notas de reprovação, existiam, juntamente com a possibilidade de repetir o ano caso não fosse obtida a média mínima – 5 ou 7, não lembro mais. Analfabetos funcionais não alcançavam a diplomação em nenhum estágio escolar, ao contrário de hoje, quando, graças a máfia togada do STF, podem até ser jornalistas. Fecha parêntesis.
Outra fonte de angústia é o internetês, a nova língua que surgiu na esteira da popularização da comunicação através da www. Sou inepto no uso de hieróglifos modernos (ou pós, como queiram) como kd, naum, vc, qd y quejandos. Incomoda-me particularmente a inabilidade para encaixar um ou dois rs ou um estrondoso e bem humorado kkkkkkk no meio de uma conversa virtual. O máximo que consigo é um constrangedor hehehe, geralmente manifestado em hora imprópria. Neste admirável mundo novo, sou um analfabeto.
Como os dinossauros, caminho para a extinção. Garbosamente, of course.
***
Beijos, meninas-moças. Abraços, valentões.
Boa semana pra todos nós. Pra cima com a viga!

.

Almoço grátis

Certos dias a gente acorda com a uma música na cabeça e não há jeito de se livrar. No meu caso geralmente são músicas irrelevantes.
Nesta sexta-feira despertei batucando um samba antigo: Dendeca, de Osvaldo Nunes. A primeira e única vez que escutei foi no final da década de 60, acho. Foi numa festa de casamento. Eu vestia um terno claro, usava cabelo no estilo black power e longas e bem cuidadas suíças - era um “pão”, como na época chamavam os rapazes de fina e bela estampa. Na festa havia uma garota, também recém entrada na adolescência, que era uma exímia e furiosa dançarina de samba. Além disto, era proprietária de uns peitos e coxas estupendos em formosura e fartura. Flertamos com os olhos.
Na época ainda não dominava a nobre arte da dança, mas mesmo que assim não fosse creio que não dançaria com ela, por uma singela razão: eu não tinha condições de levantar da cadeira sob o risco de ser preso imediatamente por atentado ao pudor. Nunca fui escoteiro, mas estava sempre alerta e com a barraca armada (sorry, não resisti à baixaria; vou esfregar pimenta na língua e lavar a boca com sabão).
Bem, resumindo: a música me lembra da garota e, também, a posterior celebração no altar no Onã. Bons tempos da juventude dourada.
Para espantar o frio e também os males que me assombram, decidi começar o dia de forma diferente: cantando e dançando. Assim, tratei de deslizar pelas dependências do castelo – escritório, salão de festas e alcova – soltando a voz com entusiasmo:
“Dendeca, vem cá boneca
Vem sentir este balanço
que eu fiz pra você dançar
Vem cá, neném
(...) Dendeca, tô sentindo um troço
Tô sentindo um troço, ai ai...”
Nesta parte – “tô sentindo um troço” – empolguei-me e juntei à minha voz maviosa movimentos graciosos de pés, mãos e quadris, compondo uma performance digna dos grandes mestres da dança.
Foi então que esmurraram a porta (impressionante como gostam de esmurrar a porta).
Era um comando avançado das minhas vizinhas doces e prestativas, liderados por uma apreensiva Odaléia.
- Tá passando bem, Jenszinho? – sou especialmente considerado entre a vizinhança feminina.
- Ouvimos uns ganidos...
- Pela janela vi que estavas te contorcendo de dor.
Agastado, pensei em dizer a verdade, quando Moe, o mais esperto dos meus três patetas, ops, neurônios, soprou uma idéia genial: “te faz”. Obedeci.
- Na verdade não estou muito bem – coloquei a mão no estômago – ainda não comi nada.
Compadecidas, as amigas imediatamente providenciaram uma lauta refeição matinal. Concomitantemente, recebi vários convites para almoçar. Para dar vazão àquela profusão de bondade, elaboramos um calendário de modo que a cada dia da semana uma delas tenha o privilégio de alimentar-me. Garanti comida pelos próximos sete dias úteis. Quiseram também incluir a janta, o que prontamente recusei, visto que sou um cavalheiro educado na tradição cristã ocidental. Á noite, como se sabe, deve ser dedicada ao convívio familiar. Além disso, nesta hora geralmente os maridos estão em casa. Melhor não abusar da sorte.

***
Beijos, donzelas. Abraços, varões. Bom findi para todos nós.
Arriba!

Sempre no meu coração

O que faz com que, em não poucos casos, o sujeito desafie a lógica familiar e torça por um clube diferente daquele preferido pela maioria do seu clã? Hoje, no Palimpnóia, falo sobre um dos meus amores mais duradouros. Clique na imagem abaixo e confira.
Beijos, moças. Juizo, moços.



Quaquaraquá!, a vingança do escriba


No final de semana passado, contrariando meus hábitos monásticos, aceitei o convite para uma festa. Para ser mais exato, a inauguração de um estabelecimento comercial: o Armazém do Oliveira, propriedade do inquieto Lara, dono também do Lara´s Drink Bar, até sexta-feira passada desativado.
A idéia do Lara, empresário audaz, é posicionar-se no mercado como um fornecedor de todas as necessidades da carne, por assim dizer: os alimentos necessários para garantir o funcionamento do organismo (leite, pão, arroz, ovos, feijão...) – e aqueles imprescindíveis para saciar a fome de lascívia manifestada pela carne (acho que não preciso explicar do que se trata). Ou seja, durante o dia secos & molhados, à noite, molhados & balouçantes – preferencialmente.
Detalhe que revela a genialidade do empresário suburbano: os dois empreendimentos funcionam um ao lado do outro, quando um fecha, o outro abre.
Apesar as lisonjas com que fui agraciado (“sua presença vai abrilhantar o evento, doutor Jens”. Cá entre nós, adoro ser chamado de doutor), meu primeiro impulso foi rejeitar o convite. Porém (ai, porém), minha resistência foi vencida pela temperatura amena, a garantia de boca livre ampla, geral e irrestrita, juntamente com a promessa de finos acepipes (um “violento” mocotó) e vinho em garrafão importado da colônia especialmente em minha homenagem.
Até agora não sei se foi uma decisão sábia ou ato tresloucado. Submeto-me a avaliação do encantador (damas) e gentil (cavalheiros) leitorado.
Empanturrado de mocotó e empapuçado de néctar celestial, permiti-me momentos de alegre intimidade com o populacho. Confraternizava com o contingente feminino naqueles postes de metal comuns nos estabelecimentos de diversão noturna para adultos pândegos, quando minha presença foi requisitada pelo Lara:
- Passa aqui no fundo, doutor. Vamos afogar o ganso no tanque.
Animado (“Uêba, é hoje!”), segui-o incontinenti.
Infelizmente, o Lara não é adepto do uso de metáforas. O ganso era real, assim como a proposta de afogamento. O animal, recém roubado, pertencia ao Mendes, um chacareiro de maus bofes da redondeza, que além de reprimir o roubo de frutas com tiros de sal grosso, é agiota nas horas vagas. É meu inimigo figadal, por conta da cobrança de juros exorbitantes em uma transação financeira tempos atrás. Ao saber que a ave, de estimação, fora batizada com o nome de Gilmar o verniz civilizatório que ainda controlava meus atos descascou por completo. Por razões de ordem moral, cívica e ética a junção deste dois nomes – Gilmar Mendes – desperta meus piores e mais primários instintos. O selvagem assumiu o comando.
- Ao tanque! Ao tanque! – bradei, segurando o pescoço de Gilmar com uma mão enquanto a outra desferia vigorosas bofetadas na cara do patife.
- Pilantra! Salafrário! Sacripanta!
O ganso grasnava e esperneava, sentindo a proximidade do fim.
A malta, jubilosa, urrava.
- Tanque! Justiça!
Ao chegarmos ao local do sacrifício, exigi silêncio. Solenemente, exibi à turba o pescoço gordo e alvo de Gilmar.
Mais urros.
- Afoga!
- Detona este porra!
- Bye, bye fiadaputa!
Destituído de qualquer resquício de racionalidade, olhei-o nos olhos e perguntei baixinho:
- Será que precisa de diploma pra entrar no inferno?

Foi assim que afoguei Gilmar Mendes, o ganso.

***
No dia seguinte, dona Vandicleide – Vandinha, a senhora do Lara – assou o bicho no forno. Estava delicioso.
***
Beijos e abraços vingadores, belas e belos.

Pedido


Por favor, direcionem seus melhores pensamentos para o camarada Miguel e a amiga Soninha. Assim, tudo vai dar certo.
Muito obrigado.

***
Beijos e abraços. Boa semana pra todos nós.

Irrelevâncias

Estava prestes a iniciar mais um relato fulgurante da minha vida aventureira quando fui rudemente interrompido.
- Pô, dá um tempo.
Era Bob, minha consciência crítica. (Pra quem ainda não sabe: ele foi o botão que sobrou da minha primeira calça Levis, adquirida nos longínquos anos 70; desde então tornou-se meu amigo de fé, irmão, camarada e confidente).
- Qual é o problema? – perguntei mal humorado.
- Só escreves irrelevâncias – respondeu.
- Não acho, minha vida é muito interessante. Ao menos pra mim – tentei encerrar o assunto. Ele insistiu.
- Que tal abordar um assunto socialmente relevante?
- “Socialmente relevante?” Hummm... Estamos sofisticados. Qual é a sugestão?
- Um libelo contundente contra a corrupção dos homens públicos. Podias falar sobre as trapaças do Sarney.
Não pude conter a indignação.
- Escatologia não!
- Calma, calma... Que tal abordar os logros da governadora Yeda, a Véia?
Levantei às pressas. Mal tive tempo de chegar ao banheiro e vomitar na privada.
- Porra, lá se foi o almoço. A Toca não é um depósito de dejetos excrementais. Reconheço que há quem diga que isto aqui mais parece uma casa de tolerância. Mas é um bordel é limpinho.
- Bah, estás intratável. Niilista.
- E porralouca. Perdi as ilusões. Eles roubaram, roubam e vão continuar roubando. Assim foi, é e continuará sendo. Não há punição, a justiça é deles. Neste caso, palavras de protesto são irrelevantes.
- Fazer o quê, então?
- Sei lá. De minha parte decidi votar nulo no ano que vem. Menos pra presidente, pra tentar evitar o mal maior.
- Sei não... Lembra do Érico: é preciso manter uma vela acesa para evitar que caia sobre nós a escuridão, que só é propícia aos tiranos, ladrões e assassinos.
- Pra esta turma não adianta vela. Talvez uma fogueira na Praça dos Três Poderes, usando a cambada como lenha.
- Brrr... Desisto. Vais falar da derrota do Inter? Preteou o olho da gateada.
Ao ouvir a referência à Gloriosa Esquadra Vermelha, esta sim altamente relevante, o sangue subiu-me às têmporas. Por pouco não despachei meu amigo metálico pela janela do segundo andar para uma viagem sem volta.
- FOMOS ROUBADOS! Um pênalti não marcado e uma falta cobrada com a bola rolando. Vermes malditos!
Ele decidiu sapatear sobre a minha dor.
- Golaço do gorducho.
Limpando a espuma abundante que escorria da boca, respondi com altivez.
- O Gordonaldo e seus asseclas que se preparem. Dia 1° de julho, às margens do Guaíba, conhecerão a força da ira alvi-rubra. A vingança é vermelha.
Bob tentou falar mais alguma coisa, mas eu impedi, trancafiando-o no fundo da gaveta onde guardo minhas quinquilharias emocionais. Liberdade de expressão tem hora e não era aquela.
Depois desta conversa indigesta, decidi encerrar as atividades redacionais e recolher-me ao leito real, curtindo a dor da derrota injusta e articulando sonhos delirantes de vingança. Corinthianos, tremei!
***
Beijos, divindades. Abraços, aldeões. Democraticamente, bom findi para todos nós (menos pro careca que apitou o jogo do Inter).
Pra cima com a viga, moçada!

Noites no Muffu


Segunda-feira. Encontro meu associado Moah no Muffuletta. Muffu, para os habitués.
- E aí, rufião?
Respondo no mesmo diapasão.
- Diz aí, inimigo público das damas de boa vontade.
Sentamos.
- Tudo bem, viadão?
- Ótimo, seu corno!
O encontro, no meio do mês (geralmente época de penúria para humildes operários da escrita como nós), só foi possível por conta de um ganho pecuniário extra, proporcionado por um trabalho inesperado (freelancer ou frila, no jargão chique da profissão, ou o popular bico, na linguagem dos mortais que não têm o privilégio de ganhar a vida juntando letrinhas).
O atento e solícito Sérgio Black se coloca a disposição, como sempre adivinhando nossos desejos. (Não foi à toa que foi eleito como o melhor atendimento no concurso Boteco Bohemia).
- Presumo que vão querer o de sempre, cavalheiros.
O de sempre: o bourbon do Kentucky – o preferido de William Faulkner – para meu associado e, para mim, o uísque produzido pelo coronel Jack Daniel´s no Tennessee. Doses duplas. Como penduricalhos, duas pedras de gelo redondas.
Moah inicia os trabalhos.
- Pô, gostei da tua idéia de virar gigolô. Desistiu porquê?
Explico que fui obrigado a recuar diante dos protestos candentes da vizinhança feminina. Ameaçaram inclusive solicitar minha interdição por distúrbio mental, confinando-me às dependências do castelo. Para acabar com a quizila, no Dia dos Namorados promovi uma reunião no salão de festas do condomínio e fiz uma profissão de fé contra o rufianismo. Fui perdoado.
- Mas tô sabendo que tens outras novidades – cutuca meu associado com malícia no riso e no olhar.
Dissimulo.
- Não entendi.
- Não te faz de sonso. Estou falando da tua paixão anunciada e publicada. Gostei da audácia. Tem que ser bagual pra escancarar a bandeira assim, via internet. O pessoal comentou lá no Tuim (boteco no centro da cidade que reúne os boêmios vespertinos).
- Eu sou muito macho – reafirmei na defensiva - Falaram o quê?
- As bobagens de sempre: a boneca está apaixonada, nenê quer colinho, o gigante caiu, Jens não é mais aquele... São uns gaiatos.
- E também invejosos e recalcados. Cambada de onanistas – completo sem ocultar o mau humor, esquecido do tempo em que era pedra e não vidraça.
Percebendo que vou mudar de assunto, o Moah trata de satisfazer a sua curiosidade irrefreável.
- Ela é boa?
Aproveito para me exibir.
- Boa, não. Ela é coxuda, gostoduzulda, linda. Uma baita mulher. E, o melhor, além de carinhosa, sabe escrever e gosta de ler.
- Quer dizer: não precisa de catapulta – observa meu camarada com uma ponta de inveja, fazendo referência a uma passagem do primeiro romance de Paulo Francis, onde depois do sexo o personagem clamava por uma catapulta quando a parceira puxava conversa.
- Definitivamente não precisarei – ele não percebe o tempo do verbo.
Atendendo aos reclamos da vaidade, vou ao toalete retocar a maquiagem.
Na volta, passamos ao segundo item da pauta.
Concordo quando ele diz que precisamos bolar um modo de descolar uma grana legal. De preferência sem esforço. Tenho uma proposta.
- Vamos promover uma ação entre amigos.
- Uma rifa?
- Isto mesmo. Mil números a 5 paus cada 1. Dividimos meio a meio.
Ele toma um gole de bourbon e cofia o cavanhaque.
- Até que pode dar certo. Vamos rifar o quê?
- Sei lá. Um notebook, uma tevê de 29 polegadas, um programa na Tia Carmem. No final ninguém vai ganhar mesmo. Lembra dos anos 80?
Ele lembra, claro. Nas décadas 70/80 proliferavam rifas entre o pessoal de esquerda: para ajudar uma recém nascida dissidência radical, a edição de um jornal, a impressão de panfletos, a organização de um congresso, a formação de um fundo de greve. O prêmio podia ser qualquer coisa. Estava implícito que não haveria ganhador. Reclamar seria uma atitude reacionária.
Entusiasmado, meu associado dá contornos concretos à proposta.
- Vamos destacar que a grana vai para uma causa justa, que é aplacar a insatisfação dos nossos credores, o que significa nos garantir um mínimo de tranqüilidade para atravessar o longo e tenebroso inverno que se aproxima. Tudo em nome da Causa e do Jornalismo Combativo. O que tu acha?
- Acho que cola. Vamos nesta.
- Legal. Mas vamos cobrar 10 paus cada número. Se vendermos tudo, 5 pilas pra cada um. A razão é nobre, ninguém vai reclamar.
Animado pelo néctar do Tennessee, concordo.
- Perfeito. A solidariedade da classe trabalhadora mais uma vez se manifestará em auxílio a dois combatentes do exército dos oprimidos.
Antecipando o sucesso do projeto, faço um sinal ao vigilante Sergio Black que prontamente providencia outra rodada.
- Quantos números o Lula vai comprar? – indaga o Moah, sonhando em voz alta.
Não respondo. Deixo-me envolver pela magia dos acordes suaves de guitarra que anunciam o início do show de Wander Wildner e Jimi Joe. É noite de lua cheia e encantamento.
***
Beijos lamechas, beldades. Abraços sisudos, rapazes.
Nesta quarta, torçam pelo Glorioso Esquadrão Alvi-rubro dos Pampas. Arriba, Colorado!

Pierrô apaixonado


Além da catarata, espinhela caída, lumbago, incontinência urinária e outras mazelas indesejáveis, o senso comum preconiza que uma das seqüelas do avanço da idade - esta desejável - é a conquista do conhecimento sobre os mecanismos que regem as nossas relações cotidianas. Sendo um crédulo, e como tal otimista, nunca duvidei que as aventuras e desventuras pelas quebradas do mundaréu, da infância à idade adulta, fossem gerar, na madureza, mais um déspota esclarecido (se não um luminar de aldeia, pelo menos um sábio de botequim).
Estava enganado. Quase quatro anos após meu cinqüentenário de glórias, confesso que, até o momento, meu viver neste vale de risos e lágrimas trouxe mais perplexidades do que respostas. As coisas que dizem respeito à paixão e ao coração, especialmente, permanecem mistérios que me seduzem e amedrontam.
Por um lado, gosto de me apaixonar. Não, para ser mais exato cito o menestrel de Orós: “minha vida só é vida porque sei que ela vai ser sempre apaixonada”. No que me tange, entre as paixões possíveis, é fundamental aquela que une um homem a uma mulher. A partir daí este sentimento se espraia para outros aspectos do meu cotidiano. Eu sou aquele tipo de cara que precisa de uma mulher para viver melhor.
Por outro lado também sou aquele tipo de cara que reluta em se entregar por completo a uma dama. Dançar sob a luz do luar no centro de uma tempestade de fogo não me assusta. Quando a procela é de paixão, igualmente não temo navegar nas águas indomadas do mar da volúpia. O querer correspondido me faz marinheiro audaz.
O problema, para mim, se apresenta quando os instintos estão serenados, a carne saciada na sua fome de posse e rendição. Na verdade, o que me aflige é a relação fora da cama – não importa se antes ou depois do sexo – quando a relação exige o passo adiante, o encontro do afeto além do desejo, o tesão transfigurado em carinho, atenção, interesse... Encontro de almas, convergência de emoções, sei lá...
É nestas horas que geralmente a audácia me abandona e ergo a trincheira que silencia a declaração de amor ingênua, boba, sincera, e sonega a espontaneidade do afago suave e reconfortante. Nem sempre fui assim, mas quase sempre ajo assim.
Suspeito que esta deformidade emocional teve origem no curto mas intenso relacionamento com Maria Gorete, minha quase primeira namorada. Antes e além do sexo, eu queria paixão, amor, envolvimento. Ela, ao contrário, não queria nada além de fazer um favor carnal. Só conseguiu quebrar meu coração. Talvez para evitar sofrimento semelhante (inevitável?) eu tenha optado por outro tipo de melancolia, onde a ausência de entrega tornam dor e alegria sentimentos superficiais.
Pois bem, isto acaba aqui e agora. Decidi aposentar a armadura, trocar a fantasia. Sai o último dos durões – cínico, sem mulher, sempre de mal com a vida – e entra o pierrô apaixonado transbordando amor e alegria. Quero me permitir viver um grande amor, ser exagerado, carinhoso, ciumento, brega. Lobo bobo.
Não é uma mudança repentina, resultado de um entusiasmo ocasional. O processo para chegar até aqui vem se arrastando algum tempo, não sem questionamentos e angústias – não é de um dia para o outro que se abandona convicções arraigadas, mesmo que deletérias.
Bem, contado o milagre, falta revelar o santo. No caso, a Deusa que buliu com sentimentos íntimos, que ressuscitou possibilidades que julgava definitivamente enterradas, a mulher que me fez resgatar a frase que acreditava definitivamente arquivada no baú dos acontecimentos improváveis, que nunca pronunciei em público:
- Eu te amo, Loba.


***
Uau, ainda estou vivo. Até que não doeu (muito). Finalmente acho que a experiência me ensinou alguma coisa. Viva a idade madura.

***
Beijos ensolarados, lindas. Abraços entusiasmados, rapazes. Boa semana pra todos nós.

Dia dos Namorados

No Palimpnóia, uma história de amor. Confira clicando na imagem abaixo.
Beijos, abraços. Para todos, um findi recheado de paixão.

Moacy Cirne, um sertanejo porreta

É difícil falar professor Moacy Cirne sem recorrer ao elogio entusiasmado. A tentação é grande, pois afinal ele é um intelectual reconhecido, que construiu uma sólida carreira no mundo das idéias, ministrando aulas na Universidade Federal Fluminense e publicando, desde os anos 60, cerca de duas dúzias de obras não apenas sobre comunicação social (especialmente, mas não só, no âmbito da análise das histórias em quadrinhos), mas ingressando também no universo da poesia. Aliás, a poesia é uma das grandes paixões do professor, que em 1967 o levou a criar, com companheiros de Natal e do Rio de Janeiro, o poema/processo, um movimento de vanguarda (anti)literária recheado de poemas semiótico-gráfico-visuais, além dos projetos semântico-verbais.
Sempre inquieto, na época da universidade (hoje está aposentado) Moacy Cirne criou um fanzine independente de uma página batizado de Balaio Porreta. Costumava organizar comemorações chamadas "Balaiadas" com distribuição de brindes como livros de arte e poesia entre os alunos do curso de Comunicação Social da UFF, para divulgar as edições especiais do Balaio. Desde 2007 o fanzine, que une textos provocativos, listagens de filmes, pensamentos e poesias, se transferiu para a internet sob a forma de um blog, o
Balaio Porreta, que se caracteriza por ser um espaço generoso à participação de poetas, escritores e demais artistas da blogosfera.
Permita-se conhecer um pouco das idéias e da trajetória de Moacy Cirne, um sertanejo nascido em 1943 em Caicó, no Sertão do Seridó (RN), clicando na imagem abaixo. Ele é o entrevistado do mês do Palimpnóia.


***
Beijos, gurias. Abraços, guris. Vamô que vamô. Sexta é dias nos namorados.
Retrato:arte de Beti Timm

Sentimental demais

Ao contrário de Martin, eu não tive um sonho; tive um pesadelo. As luzes se apagaram, as máquinas se rebelaram e o fim do mundo era iminente, conforme revelou-me Michel de Nostredame numa noite gelada e trevosa. Quando acordei não era uma barata, como Gregor Samsa, mas tiritava de frio, porém, sem esconder o alívio de meus temores não passarem um sonho ruim.
Doce ilusão que pouco durou. Logo constatei que não havia luz no castelo; na rua, silêncio. Debelado o pânico inicial, isto é, após meia hora de rezas e pedidos de perdão pelos pecados – entremeados por um surto incontrolável de evacuação – decidi encarar meus demônios. O telefone estava funcionando, assim como a luz do corredor iluminava os passos da plebe ignara que saia para o trabalho. A seguir, no pátio do condomínio, a combustão dos automóveis e as vozes do populacho indicavam que, para alguns, a vida seguia o seu ritmo normal. “O problema é comigo”, pensei. A espada do Senhor finalmente me alcançara, confirmando que ninguém vive impunemente a delícia dos extremos. Entretanto, como minha cabeça ainda estava entre os ombros, decidi consultar algumas instâncias terrenas. Segurando as contrações do esfíncter, liguei para a companhia de energia elétrica. Para espanto da atendente, dei uma gargalhada quando soube que o fornecimento havia sido cortado por falta de pagamento. De imediato, retomei a compostura, exigindo meus direitos, ameaçando com processo: “paguei esta merda ontem!” Impassível, a voz mecânica respondeu: “o sistema ainda não foi informado do pagamento. Tão logo isto seja feito, o serviço será normalizado”. Com a coragem reabilitada (afinal, não era a temida vingança do Altíssimo) encerrei o diálogo com uma ameaça: “se não religarem a luz amanhã vai dar merda. Conheço meus direitos. Passar bem, sua vaca!” A mulher biônica não se abalou: “A CEEE agradece a sua ligação. A seguir anote o número do protocolo do atendimento. Tenha um bom dia.” Desdenhei o protocolo, mas segui o conselho; folheei livros lidos e não lidos até onde a luminosidade do dia permitiu, antes de aconchegar-me nos braços de Morfeu.


Na manhã seguinte, a primeira coisa que fiz ao acordar foi ligar o rádio. A voz indignada da radialista contra mais uma roubalheira gaudéria me acalmou: definitivamente, o contratempo energético do dia anterior não tinha relação com forças celestiais. Era por demais humano. Coisa dos malditos capitalistas. Assim tranqüilo levantei, escovei os dentes, lavei a boca e o rosto (mais uma vez lamentei que, como o cabelo, a cara não possa ser penteada), bebi meio litro de leite acompanhado de um naco generoso de cuca caseira, que comprei de um moleque no dia anterior, por 1 real. Por fim, abanquei-me diante do computador. Não consegui acessar a internet. Ao contrário de outras vezes, não era birra do computador. Pressenti que o problema era mais sério. Depois de me certificar que o pagamento estava em dia, liguei para a assistência técnica. Mexe, remexe e nada. O problema não era deles. Também não era da Oi, antiga Br Telecom. A bronca era minha, vaticinou o atendente do UOL, lamentando que eu ainda não houvesse optado pelo serviço técnico on line oferecido (e recusado) pela empresa poucos dias antes. Quando renovou a oferta mandei-o tomar no seu orifício mais íntimo. Dispensei o bom dia. A seguir, liguei para JE – o único ser humano que desfruta da minha confiança para fuçar nas entranhas de Hal Jr, my personal computer. Além disto, cobra baratinho. O problema é a falta de presteza. Apareceu só na manhã de segunda-feira. Resolveu (“estranho, seu Jens, não sei bem o que aconteceu”). Foi, claro, um aviso: a rebelião das máquinas. Os Deuses não jogam dados.


Neste meio tempo, entreguei-me ao desânimo. Parece que toda vez que fico excepcionalmente feliz com com o advento de uma relação feminina algo acontece para tentar dinamitar esta felicidade. É como se alguém dissesse: você não a merece ou, principalmente, ela merece alguém melhor do que você. A merda é que eu acredito; ao mesmo tempo que anseio as maravilhas existenciais da paixão, amor e luxúria, não me sinto digno delas. Atualmente, por exemplo, amo e sou amado e me pergunto o que fiz para ser alvo do melhor de tanto afeto. Ela é bela, gostosa, um tesão de mulher. Ela é sábia, senhora consciente de seus poderes e fraquezas. Aprendeu com erros e acertos, dores e amores. Se fez poderosa, Deusa sem deixar de ser visceralmente humana, vivenciando em toda plenitude os espinhos e as rosas, o doce o fel, colocados em seu caminho – recusando os atalhos fáceis. O que uma mulher assim radiante, realizada, que ainda aprende com a vida, pode querer como alguém como eu? Ou melhor, que direito tenho eu de cultivar o amor de alguém assim tão especial? Na meia idade, tenho poucas conquistas e muitos sonhos esboçados. Como aconteceu com o poeta, a literatura roubou minhas melhores horas de amor, transformando a carne em palavras, cifras e códigos, vida traduzida em vontade de morrer. Porém, para fazer jus à minha amada preciso me reinventar e encontrar novos versos. Assim sendo, tchau Carlos: não escreverei sonetos de madureza, não darei aos outros ilusão de calma. Talvez seja sempre louco e mentiroso. Acreditarei em mitos e zombarei do mundo. Por outro lado, bem-vindo, Vinicius: pelo amor desta mulher estou disposto a abrir o jogo e o coração, deixar o barco correr, mesmo que tenha que sofrer.
Basta de sonhar com anjos e viver com demônios. As amargas, não. O amor está no ar (pelo menos no decorrer desta semana).
***
Beijos e abraços generalizados. Boa semana pra todos nós.
Pra cima com a viga, moçada!
***
Foto: "O Beijo" de Alfred Eisenstaedt. Foi tirada na Times Square no dia 15 de Agosto de 1945. O Japão havia declarado a sua rendição. A Segunda Guerra Mundial havia acabado.

Diário de notícias

Ninguém me entende. Desde que se tornou pública minha intenção de ganhar a vida como proxeneta, fui condenado ao opróbrio. As Deusas não me dirigem a palavra, os amigos me censuram. Tentei promover uma reunião no salão de festas do condomínio, a fim de explicar a minha posição (“sou um amante atencioso e dedicado, não faço propaganda enganosa”) ou, em último e desesperado caso, implorar perdão (“perdoem-me, Deusas, confesso que pequei”). No entanto, fui desaconselhado por meus companheiros de boteco.
- Fica frio, Jens, pisaste na bola. Melhor ficar quieto. Tu tá sujo na parada – opinou o Caloca, intelectual orgânico, eternamente desempregado, grande camarada.
- É seu Jens, o senhor deu mancada. Estas coisas a gente não diz, apenas faz. Mas é só uma marolinha, logo vai passar – avaliou sensatamente o Jorjão, humilde camponês, contumaz barranqueador de éguas, atualmente amasiado com Mansinha, formosa tordilha a quem chama de “minha senhora”.
Marisinha, minha secretária eventual e musa em tempo integral, momentaneamente militando nas hostes inimigas, disse apenas “Humpft, bem feito!”. Porém, segredou ao Caloca que a raiva já está passando e em breve vai interceder por mim junto às suas iguais.
Odaléia, minha doce e prestativa vizinha, ainda me nega um simples cumprimento. A última vez que a vi estava com os olhos inchados. Acho que andou chorando. Soube por um amigo comum que Valdirão, o energúmeno com quem ela se casou, está desconfiado da tristeza e constantes choramingos da mulher. Como bom bagual precavido, tremi na base. O que decididamente não preciso é de um bruto como o Valdirão na minha cola.
Estou ralado. E ainda por cima mal pago.

***
Diante do inverno rigoroso que se aproxima, estou seriamente inclinado adotar o padrão europeu de higiene corporal. Esta predisposição tem como motivação não apenas o frio intenso, mas, principalmente, o desprezo que estão me dedicando as habitantes do Olimpo. Como raramente saio do castelo e não tenho um cobertor de orelha para me aquecer nas noites geladas, qual o sentido de tomar banho diariamente? Atualmente estou em dúvida sobre qual a periodicidade da ablução: semanal, quinzenal ou mensal.
Plagiando o poeta: ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me chama de Baudeleire.
Ó vida, ó dor.

***
Beijos, maravilhosas. Abraços, companheiros. Boa semana pra todos nós.
Pra cima com a viga.

Powered by Blogger