Homem sem medo


Onde eu estava quando fui rudemente interrompido pelas exigências laborais? (1)
Ah sim, tiritando de frio ao telefone com minha advogada, dra. Bê.
Rápida e incisiva, como sempre, a bela exigiu minha presença em um evento social naquela noite.
- Tu é a minha última opção, lindinho – informou com voz melíflua.
Hummm, “lindinho”... Pressenti na amabilidade não usual a tentativa de vencer minha conhecida resistência em abandonar o lar em dias – e, principalmente, noites – de baixa temperatura.
Tentei escapar, argumentando escassez de numerario – era meio do mês.
- Além disto está um frio de renguear cusco – acrescentei enfático.
Ela não se sensibilizou e jogou duro
- Deixa de ser preguiçoso, seu traste. Além do mais, é boca livre. Te veste de maneira decente e toma banho! Se tu não for, já sabe... – informou, recomendou e ameaçou antes de desligar.
“Enlouqueceu, pensei”. No entanto, dada a minha reverência, para não dizer temor, para com os advogados em geral (2), e também com as palavras “boca livre” soando agradavelmente nos ouvidos, resolvi aceitar o convite – ou, melhor dizendo, cumprir a ordem. Levei em conta também a possibilidade concreta de retaliação implícita nas reticências, visto que ela defende meus interesses em várias causas que poderão render polpudos rendimentos que me garantirão um futuro tranquilo e nababesco.
Valente, resisti à idéia de refugar o banho.
Aí deparei-me com o primeiro problema. Como encarar a ablução sem congelar ou ser abatido por um choque térmico? Como o aquecedor encontra-se fora de combate por excesso de uso, pensei em soluções caseiras para aquecer o toalete. Desisti da primeira, colocar álcool numa bacia e tocar fogo, com receio de incendiar o castelo. A segunda – oriunda da minha infância semi-rural, pobre, limpinha e feliz –, pôr um braseiro dentro do banheiro, igualmente foi descartada, pelo temor de morrer intoxicado pela fumaça. Sem outra opção, violentei minha natureza sedentária e, nu, pus-me a fazer ginástica: pique no lugar, flexões e corrida pelas amplas dependências da residência, acompanhados de vigorosos gritos de guerra, para contrariedade da vizinhança abaixo e acima:
- Endoidou de vez, seu bolha!
- Pára com este barulho, idiota!
- Vou chamar a polícia!
Desprezando os reclamos do populacho, conclui o aquecimento e, com um último berro triunfal e desafiador, entrei debaixo do chuveiro.
“Vou morrer”, pensei ao sentir a água quente – morna na verdade - na pele. Tremendo, venci a batalha aquática em cinco minutos (já tinha tomado banho no dia anterior, assim procedi apenas a uma rápida atualização do asseio nas partes mais sensíveis).
Após paramentar-me com o requinte permitido por três camisetas (duas de mangas compridas), blusão de lã, jaqueta de couro, cuecão, calça de brim, touca ninja, manta, luvas e meias de lã e botas, fui à luta, com evidente dificuldade de locomoção.
Na rua deserta, o vento Minuano me recebeu com um abraço gelado de boas vindas. Batendo os dentes (“vão quebrar!”) lembrei de uma observação de Euclides da Cunha: “o sertanejo é antes de tudo um forte”. E o gaúcho mais forte ainda, completei mentalmente.
Resoluto, rumei para a Casa do Barão.
***
Semana que vem a saga termina (sei não, neste ritmo este troço só vai acabar na primavera).
***
Injustiças climáticas: Aqui em POA 3° C, em Minas 34° (o inverno mais quente dos últimos 10 anos), na Bahia 24°C, no RJ estão tremendo de frio com 17°C.
***
(1) O jornal fechou sem estresse. Não teve graça
(2) Desde que o hoje ministro da Justiça (arranja uma boquinha aí, Tarso!) conseguiu minha absolvição num processo por injúria e difamação, em 1985, quando eu era mais panfletário do que jornalista, sou eternamente devotado à classe dos operadores do Direito.
***
Beijos e abraços generalizados. Bom findi.

Ops!


Estou fechando a porra do jornal. Volto na sexta-feira, contando minha estada na Casa do Barão. Juro!

Beijos, meninas. Abraços, rapazes.
***
Cá entre nós, gostoso este negócio de fechar o jornal, parece coisa de macho... o prazer está logo ali (estranho, muito estranho...).

Terror glacial


- Socorro, sequestraram o Godofredo!
Meu uivo desesperado rompeu dramaticamente o silêncio do final de manhã glacial da última sexta-feira, 24 de julho, a mais fria da década (3° C, sob o sol) aqui nos pampas.
Já passava das onze horas quando, premido pela necessidade fisiológica número 1, fui obrigado a trocar o aconchego cálido do leito real pela frialdade da toalete principesca. O desespero irrompeu quando, de pé em frente ao vaso sanitário de porcelana portuguesa, procurei Godofredo e não o encontrei (para quem não sabe, este é o nome de batismo do meu – ...ãh...hum...er... – parceiro fiel nas constantes, e prazerosas, incursões nas maravilhosas veredas do universo do conúbio carnal. Acho que me fiz entender, né?).
À beira do desvario (terror, terror, terror..) empreendi uma busca mais acurada e liberei um longo suspiro de alívio quando por fim encontrei o gigante núbio.
Fustigado pelo frio, meu amigo de fé havia se refugiado no canto mais recôndito do seu protetorado pélvico e lá construiu um bunker tépido, reconfortante e acolhedor.
Assustei-me com a aparência do meu companheiro de esbórnia. Estava triste, acabrunhado, sem viço, uma versão murcha e patética do herói pimpão, o combatente soberbo que jamais falhou nos inúmeros e ardentes embates que travamos com o sexo oposto (na maior parte das vezes) nas manhãs, tardes, noites e madrugadas da nossa vida lasciva e aventureira. A sua tristeza parecia dizer que os tempos de glória imponente haviam sucumbido diante da investida sem precedentes do General Inverno.
Tratei de consolá-lo com palmadinhas carinhosas acompanhadas de palavras de incentivo:
- O que é que você tem? Conta pra mim, não quero ver você triste assim. Não fique triste, o mundo é bom, a primavera vem aí. As flores estão voltando
Menos triste e esperançoso, Godofredo recolheu-se ao ninho para sonhar com dias ensolarados, noites quentes e Deusas de pernas à mostra em trajes primaveris colhendo flores no campo.
Depois do susto, Moe, Larry e Curly – os três neurônios responsáveis pela minha precária sanidade mental – condescenderam em renunciar ao reino da inércia por alguns momentos e puseram-se a trabalhar. Racionalizaram o episódio e concluíram tratar-se de um alerta celestial indicando a temeridade de enfrentar a ira gelada da natureza implacável. O recado foi curto e grosso:
- Volta pra cama e não sai de lá, sua besta – ordenou Moe, sempre mandão.
- É isto aí, seu tonto – corroborou Larry, como sempre puxando o saco do chefão.
- Vai te deitar, cabeça de pudim – encerrou o desaforado do Curly, mostrando a língua.
Apesar de ser um bagual de boa cepa, um iconoclasta destruidor de mitos e verdades estabelecidas, sou um rematado e obtuso crente quando a pauta diz respeito às questões místicas que povoam o céu e a terra. Desta forma, acatei com reverência a orientação do trio que se auto-intitula o mais biruta da terra.
Transferi a TV de 42 polegadas (importada diretamente do Paraguai pelo Sem-Braço, empresário autônomo e audaz) para o dormitório real. Precavido com as exigências do estômago, preparei quatro sanduíches e coloquei ao lado da cama na mesinha feita de mogno contrabandeado da Amazônia. Acomodei-me debaixo de dois cobertores de lã e dois edredons. Assim imobilizado, estava pronto para desfrutar de mais uma tarde de indolência, pontuada por filmes, seriados, desenhos e sonecas ocasionais. “Posso viver assim até o fim do inverno”, pensei.
Foi então que o telefone tocou pela primeira vez. Não atendi, ciente de que quem queria contatar-me não fazia parte do círculo íntimo da corte. Estes, para ter o privilégio de ouvir minha voz máscula, rouca e sensual, devem obedecer a um ritual simples mas inflexível: na primeira ligação, desligar após a segunda chamada; esperar exatos 30 segundos e ligar novamente; só então eu atendo. Foi a forma que encontrei para me livrar de interlocutores indesejáveis como cobradores e pedintes do telemarketing. Antes que eu encontrasse o controle remoto da TV extraviado entre as cobertas, o trrrimmm irritante voltou.
- Porra, que saco! – reclamei para o pôster da Ângela Vieira que saiu numa Playboy de 1999 e mandei enquadrar, para me fazer companhia nas noites solitárias.
Contrariando meus hábitos, e amaldiçoando Graham Bell, decidi atender sem esconder a irritação com a impertinência:
- Quem fala?
Era minha causídica, dra. Bê.
A sexta-feira mais fria dos últimos 10 anos estava apenas começando. Surpresas me espreitavam no ar glacial. Na quarta-feira eu conto.
***
Beijos, gurias. Abraços, guris.
Pra cima com a viga e lenha na lareira. Boa semana pra todos nós.

O fator humano



Uma revelação estarrecedora: não sou um Deus, sequer um semi-deus; no máximo posso aspirar a ser um flanelinha das divindades.
Sou humano. Certo: bagual, bonito, charmoso, inteligente e sexy (há opiniões contrárias, reconheço) - mas demasiadamente humano. E, como tal, sujeito às oscilações emocionais comuns à espécie. Em razão da minha natureza hiperbólica, desprezo meio-termos: sou exageradamente otimista ou, inversamente, pessimista. O clássico 8 ou 80.
Com o avanço da idade, aprendi a cultivar os bons momentos e domar os ruins. Na juventude as variações de humor eram mais frequentes - as horas amargas mais longas e intensas. Felizmente, nesta época nunca possuí (nem pretendo) uma arma de fogo. Se assim não fosse, provavelmente não estaria mais aqui. Aliás, se então tivesse acesso a um arsenal nuclear teria levado comigo – sei lá para onde – uma parte considerável da humanidade. Não faço parte da confraria dos Deuses, mas eles zelam por mim. Sou um sujeito de sorte.
Apesar dos cuidados da madureza, ocasionalmente baixo a guarda e a depressão me acerta um direto no queixo. Dói bastante, tonteio e fico confinado aos aposentos reais, alimentando idéias sorumbáticas e apocalípticas sobre o fim do mundo. Como o sol continua a nascer a cada manhã e não há mal que sempre dure (o que não tem solução solucionado está), a natureza segue seu curso, a dor passa a doer menos, tem início o processo de cicatrização e a vida e suas possibilidades passam a não ser tão sombrias. A necessidade de alegria e a esperança se impõe. Fomos feitos para ser maravilhosos; a gente é que complica.
Ainda não quebrei o galho que causou o meu abatimento momentâneo. Na verdade trata-se de um vigoroso tronco de madeira de lei. Os ecologistas que me perdoem, mas já comprei uma motosserra.
Então tá, o palhaço voltou (e, como bom profissional, continua ladrão de mulher).
Beijos ardentes, garotas. Abraços calorosos, rapazes.
A gente se vê por aí.

***
Pra cima com a viga!

Afasta teu sorriso do caminho

Perdi um certo jeito de sorrir que eu tinha; volto quando o encontrar. Até qualquer hora.
Beijos, damas. Abraços, camaradas.

Aviso aos navegantes

Por razões de estafa mental, o titular deste espaço estará ausente até a próxima sexta-feira, motivo pelo qual pede desculpas ao distinto leitorado (às Deusas em especial) – e também aos editores e leitores do Palimpnóia, onde ele deveria marcar presença nesta quarta-feira.
Prometendo retornar antes do final de semana, subscrevemo-nos,


atenciosamente

Moe, Larry e Curly – os neurônios ainda ativos do Jens.

Juventude transviada

Serenados os ânimos no âmbito futebolístico, as derrotas de Inter e Grêmio uniram o Rio Grande, Mariana Timm e Alexandre, seu Cavaleiro Andante – torcedores do Tricolor da Azenha – reivindicaram um churrasco no sábado, para selar definitivamente a paz.
Pai amoroso e diligente, imediatamente mobilizei-me para atender o desejo da minha Rainha Preta. Renegociei algumas dívidas com o comércio local, fiz promessas de pagamento para segunda-feira (“sem falta”, hehehe... melhor esperar sentado) e, assim, levei à churrasqueira cortes generosos de picanha e maminha, acompanhados de porções generosas de salsichão, coração de galinha e, claro, uma costela ornada por uma manta de gordura. Cavalheiro de hábitos refinados, para beber optei por um garrafão de vinho tinto colonial (suave, of course). A temperatura não estava convidativa para o consumo do ouro líquido feito a partir da cevada.
No entanto, os jovens, com a audácia e a curiosidade peculiares da idade, decidiram inovar, preparando uma batida feita à base de leite de coco, leite condensado e aguardente – seguindo receita obtida na internet. Altivos, fizeram ouvidos de mercador à minha sugestão - "pendura na conta” - e adquiriram com recursos próprios uma aguardente feita à base de extrato de maçã, batizada encantadoramente de Minha Chinoca. Na qualidade de expert e veterano consumidor de bebidas de alto, médio e baixo teor alcoólico, ao ver a garrafinha bojuda de plástico pressenti que aquilo não iria dar certo.
- Quanto custou este troço? – indaguei
- 1, 49 seu Jens. Uma pechincha – respondeu o Cavaleiro Andante com júbilo, já que se trata de um poupador empedernido.
Pensei fazê-los desistir do consumo daquela substância aparentemente letal, mas nada falei. Certas coisas os jovens têm de aprender por si mesmos.
Ao mesmo tempo em que assava a carne com a perícia que me tornou um dos mais afamados churrasqueiros dos Pampas, observava-os de esguelha.
- Bah, tá forte. Bota mais leite condensado – exigiu a Rainha Preta.
- Porra, que cachaça ruim – reclamou o Cavaleiro Andante.
- Se tu não fosse tão pão duro...
- Melhor jogar fora.
- Não, isto não! Agora vamos tomar – determinou Mari Timm, avessa a qualquer tipo de desperdício.
Curioso, decidi provar. Não foi uma experiência agradável. “Socorro, ele enlouqueceu e quer me matar”, berrou o fígado para o cérebro.
Senti que era o momento de fazer valer a minha autoridade paterna. Fiz menção de jogar fora a mistura sinistra, o que fez com que
Bete Timm, minha ex-cônjuge, fosse convocada ao conclave:
- Manhê, olha o pai!
A mãe uniu-se as hostes inimigas (“até que não tá ruim”) e não me restou alternativa que não fosse lavar as mãos diante daquela insensatez etílica.
No domingo eram 11 horas quando o telefone tocou. Era Bete Timm, aflita.
- Tem Engov?
- Não. Só Epocler – sou um homem prevenido.
- Então trás três, por favor.
Sorri intimamente. Eu bem que avisei...
***
Beijos, maravilhosas. Abraços, camaradas de armas e vassalagem. Boa semana pra todos nós.
Arriba!

Bochinchos na aldeia


Minha pupila Marisinha estava certa: não pretendia sair do leito real até segunda-feira. No entanto, a jornada vitoriosa do clube mineiro na quinta-feira (Cruzeiro 2 X 2 Grêmio), juntamente com um telefonema do meu associado Moah – “ a grana sai hoje!” – reanimaram o morto-vivo que até então eu era.
Como eu suspeitava a grana não rolou.
Como eu ardentemente desejava, o Grêmio não se classificou para a Copa Libertadores da América.
Confesso (sorry, Preta Timm), fiquei contente.
Amanhã será outro dia (chuta, Nilmar!).
A merda é nossa!

(Ah sim, no final da manhã entrevistei Oscar Ruiz, árbitro da peleja. São inverídicos os boatos de que influenciei o profissional do apito).

Beijos, bonitas e gostosas. Abraços, feios.
Bom findi pra todos nós (aqui no castelo vai ter churrascada)..
Pra cima com a viga,moçada.

Mundo cruel


Fofos e fofas:
Sou eu, Marisinha, secretária eventual e musa em tempo integral do Jens. Minhas credenciais, para quem ainda não me conhece: além de baladeira e coxoduzulda (expressão que o chefinho diz ter criado especialmente para mim, o que não acredito), estudo jornalismo na PUC. Depois da sacanagem da turma do Gilmar pensei em desistir, mas como quem paga é o Lula (viva o Pro-Uni!), continuo. Trabalho de graça para o Jens. Ele garante que além de valer como estágio, a experiência vai enriquecer meu currículo, coisas das quais também duvido. Ele é apaixonado por mim e eu por ele. É uma paixão platônica. Até o momento.
O motivo da minha presença, e da ausência do amado chefe e mentor, é o empate do Inter com o Coringão na quarta-feira, que fez com que o Valoroso Esquadrão dos Pampas perdesse o título de Campeão da Copa do Brasil. Desde então o queridinho do Jens deitou na cama e, insone, não parou mais de resmungar, choramingar e imprecar. Diz que o mundo acabou ou vai acabar, que nunca mais vai levantar, que quer morrer.
Entre um cafuné e outro (ele gosta de recostar a cabeça branca no meu regaço), tentei consolá-lo argumentando que: a) o futebol é assim mesmo; b) isto acontece e vai passar; c) em futebol se ganha, se perde ou se empata; d) os corinthianos vão para o inferno; e) o futebol é uma caixinha de surpresas; f) o Inter caiu de pé; g) o segundo lugar até que não tão ruim assim; h) amanhã será outro dia e i) todas as alternativas anteriores.
Não deu certo. Ele continua renitente na sua convicção de que o mundo é cruel e há uma conspiração contra o Colosso Vermelho dos Pampas.
No auge da crise, dramaticamente sua voz rouca balbuciou aos céus a intenção de morrer. Na verdade, pretendia gritar, mas está sem voz de tanto que berrou durante o jogo – “chuta, Nilmar!”, “vai Taison!”, “Quebra a perna do Gordo, Guiñazu!”, “PQP! PQP!”, “Não, não, MERDA!”.
Fiquei preocupada, mas quando ele pediu que fizesse o “manjar celestial” arquivei o sentimento. Um homem que pede comida não quer se matar.
Rápida explicação: sou descendente aplicada de uma linhagem nobre de exímias cozinheiras (“homem se pega é pelo estômago”, pregavam minhas ancestrais). O “manjar celestial” é uma sobremesa cuja receita, segredo de família, envolve porções encorpadas de chocolate, doce de leite e bolachas. Trata-se de um repasto digno dos Deuses, que o amado chefinho devora em generosos bocados, ao mesmo tempo em que manifesta sua aprovação de boca cheia: “bom pra c...!”
Bem, acho que cumpri minha missão, qual seja a de repassar aos leitores um quadro vívido da dor que se abateu sobre o rei do castelo. Ele está mal, mas vai melhorar. Afinal, domingo o Inter joga contra o Náutico na Ilha do Retiro e, tenho certeza, ele vai estar na frente da tevê ou com o ouvido colado no rádio: “chuta, Nilmar!”, “vai, Taison!”, dá-lhe, Guiñazu!”.
Como são infantis e previsíveis os homens. Humpft!
***
Beijos molhados, fofos. Abraços, fofas. Bom findi para todos.
Até qualquer hora.

Queda e ascensão de um titã

Meu associado Moah é um bon-vivant; um dândi. Apreciador das boas coisas da vida, ele flana com elegância pelas ruas deste Porto não muito alegre, mas mesmo assim encantador. Apesar da idade avançada, não se furta a vivenciar novas experiências. Foi este espírito desbravador que encontrei na hora do almoço de uma fria sexta-feira no centenário Bar Naval, no Mercado Público.
Enquanto saboreávamos uma das especialidades invernais da casa – o “violento” mocotó -, acompanhado de um sublime vinho colonial, colocou-me a par das novidades da sua vida aventureira.
- Estou apaixonado – revelou com um brilho intenso no olhar.
Até aí tudo normal. Toda semana ele se apaixona e desapaixona.
- Desta vez é diferente. A gatinha tem 25 aninhos. Um pitéu.
Foi a minha vez de ficar impressionado.
- Ela é cega?
- Quequiéisto? Sou um cavalheiro ainda desfrutável. Dou um bom caldo, hehehe...
Olhei criticamente para a sua barriga proeminente de burguês bem sucedido, em contraposição à minha figura esbelta de operário intelectual, mas concordei. Não gosto de discutir de pandulho cheio. Além do mais ele estava pagando. Notei uma sombra de preocupação no seu semblante.
- Qual o problema?
Ele abriu as comportas do coração. Ainda não havia compartilhado momentos íntimos com a sua jovem e recente paixão, o que deveria acontecer àquela noite. Temia não dar conta do recado.
- Já teve problemas nesta área? – indaguei.
Negou com veemência, mas fez uma ressalva.
- Mas sabe como é a juventude de hoje... No nosso tempo era dourada, hoje, segundo dizem, é fogosa e insaciável.
Cocei o cavanhaque e fiz a sugestão.
- Apela pro azulzinho.
- Funciona mesmo?
- Claro, é pá-pum! – falei com conhecimento de causa.
Convencido, ele chamou o Sem Braço.
O Sem Braço é o quebra-galho do pedaço. Oficialmente é vendedor de bilhetes de loteria, mas consegue o que freguês desejar: peças de computador, ipods, celulares, relógios, uísque, perfumes e, claro, as pílulas milagrosas. Tudo legítimo, importado diretamente do Paraguai.
***
No sábado pela manhã o telefone tocou. Atendi de mau humor.
- Quem é, porra?
Era o Moah.
- E aí, garanhão? – saudei efusivamente.
- Garanhão uma porra! Deu tudo errado – havia desespero na voz.
- O que houve?
- Falhei miseravelmente.
Contive o riso debochado. Aquele era um momento de dor.
- O Sem Braço vai se ver comigo, acho que a porra do comprimido era falso. Além disto, eu estava nervoso. O Nestor ficou inerte, como se estivesse desmaiado ou em coma.
Nestor é como ele chama o seu, naquele momento, órgão outrora reprodutor. O meu é Godofredo, mas sem o outrora.
- E ela, o que fez? – quis saber.
- Tentou me consolar, mas acho que estava segurando o riso. Mandei embora, estou arrasado.
- Deixa pra lá. Foi só um tropeço ocasional, acontece.
- Já aconteceu contigo?
- Epa!, comigo não – não ia entregar o ouro de bandeja.
- Não sei o que fazer.
- Descansa, relaxa, cuida da alimentação. Vai passar – tentei tranquilizá-lo.
- É isto ou então atear fogos às vestes – concluiu antes de desligar.
***
Ontem encontrei-o novamente. O diálogo foi rápido.
- Tinhas razão. Foi só um acidente de percurso.
- Beleza eu disse. Que anjo te resgatou do inferno?
- Sabe a Zelda? Pois é, hehehe... Aliás, tenho um encontro com ela e já estou atrasado.
Depois de emprestar 50 paus – dificilmente nega um pedido de pecúnia quando está de bem com a vida - lá se foi ele, todo pimpão, flanando pelas ruas da cidade.
Assim como depaupera, a paixão revigora.
***
Beijos, gurias. Abraços, guris.

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