A resposta

Um dia destes, a Luma publicou um post onde indagava à sua legião de leitores: Por que você escreve num blog? A pergunta talvez não fosse exatamente esta, mas a idéia sim. A indagação ficou zanzando na minha cabeça, exigindo resposta.
Consultei Bob, o botão da minha primeira calça Levis que atualmente faz às vezes de consciência crítica.
- Esta é fácil. Tu escreves para atenuar a solidão. É uma forma de manter a infelicidade sob controle – disse o meu amigo metálico.
Protestei.
- Peraí, manter a infelicidade sob controle é meio drástico. Não sou um cara infeliz. Eu diria que sou mezzo a mezzo. Como disse o poeta, não sou alegre nem sou triste.
Ele zombou.
- Nem lá nem cá e citações literárias, a história da tua vida. Então vou dizer diferente. Você escreve e publica para cultivar amigos e assim adubar o canteiro da tua frágil felicidade. Que tal? Ficou até meio poético.
- Má poesia, mas melhorou. Um pouquinho.
Na verdade, acho que ele estava gozando da minha cara. Bob anda muito mordaz, ultimamente.
Decidi consultar outras fontes. No caso os três patetas, ou melhor, meus três neurônios.
Moe não escondeu o mau humor por ser incomodado no seu descanso vespertino.
- Porra, já falei pra me chamar só quando o assunto for mulher. Qual é o problema?
Expus a questão.
- Sei lá, pô. Porque tu é doido. Não tem mais nada de útil pra fazer. Aliás, nem sabes fazer outra coisa.
Fiquei magoado com a observação e, antes que dispensasse seus serviços, ele decidiu amenizar:
- Escreves porque é verbo. Se fosse carne, comerias.
- E não apenas por via oral – acrescentou Larry, engraçadinho.
- E se fosse líquido, beberias – completou Curly.
Bob, atento à conversa, decidiu intervir:
- Pode acrescentar mais um motivo: exibicionismo.
- É isto aí, cabeça de pudim exibido – corroborou Curly, mostrando a língua.
Amuado, desisti de obter uma resposta decente daquele bando de degenerados.
Mas não posso deixar de pensar que talvez eles tenham razão.
***
Beijos, gurias. Abraços, guris. Boa semana pra todos nós.
Arriba!

***
(PS: tem um texto meu lá no #fora sarney. Clique aqui para ler Sarney, a saga de um farsante).

A morena mais frajola do Brasil (e o pai também)

Rainha Preta do maracatu.


Pô, Beti Timm, valeu a pena!

Olha aí, olha aí...


Yeaaaaah!



Pra você eu guardei o amor mais bonito.



Ói nóis aqui traveiz.

***

Ela, eu vivo o tempo todo pra ela.
***
Tem mais uma porrada de fotos. Portanto, é bem provável que eu volte ao assunto.
***
Beijos, princesas. Abraços, burgomestres

Casal 20

Que psssiu nada, Aderbal. Estou na minha casa e quero conversar. Maldita hora em que comprei esta mini televisão. A idéia era apenas me distrair, enquanto preparo a comida pra ti e os teus filhos, e não pra ti jantar acompanhando o noticiário da noite. Isto não está certo, esta é a hora da família. Vou desligar esta droga. Não seja bobo, Aderbal, tu mesmo disse que pro Jorge, no churrasco de domingo passado, que os telejornais noturnos são totalmente dispensáveis: as notícias são divulgadas antes, no rádio e na internet, ou depois, nos jornais impressos da manhã. A noite é para o lazer. Tu disse, eu ouvi. Então, agora é o momento da família, vamos interagir. Não me interessa se a fulana se encontrou com a sicrana na calada da noite pra fazer tricô ou livrar a cara do Sarney. Não tô nem aí. A nossa vida não vai mudar por causa disto. Por mim, o Sarney que se exploda. Amanhã tu comenta com o pessoal no escritório. Sabe onde estão tuas filhas, Aderbal? Maria Antonia, a sabichona, saiu com as amigas e disse que vai passar o fim de semana na casa da Isabel, volta domingo à tarde. Na verdade, saiu com o namorado e vai ficar com ele. Eu sei, tu sabe e ela sabe que nós sabemos, mas insiste em mentir, não sei o porquê. Por enquanto, vou levando. Já a Maria Gorete foi pra balada com a turma da faculdade. Pode ficar na casa da Bárbara. Ou não. Os celulares estão ligados e elas sabem que vamos ligar a qualquer hora, só pra saber se estão bem, fazendo bom uso da liberdade que conquistaram. Mas aposto que vai cair na caixa. Então, a noite é nossa. Como foi o teu dia? Ah, Aderbal, tu é tão sem graça com esta mania de não falar da vida dos outros. Não quero saber do teu trabalho, quero saber das fofocas do escritório. Aposto que quando estás com a tua turma o falatório come solto – quem está dando pra quem, quem está comendo quem, estas coisas da vida. Bobagem, Aderbal, não te faz de bobo. Todo mundo gosta de falar da vida alheia. Então tá, tu é diferente, mas eu não. Escuta, vou te contar as novidades da vizinhança. Como não quer saber? Não seja hipócrita, Aderbal, vivemos em comunidade, é natural querer saber da vida dos outros. Aliás, acho que é um dever a gente saber que tipo de gente convive com a gente. Sabe a Vilma, aquela baixinha, loura oxigenada, separada, que já passou dos 40 mas finge que ainda é balzaqueana? É, esta mesmo, a gordinha que faz questão de salientar os peitos e a bunda. Então, no início da semana retomei as minhas caminhadas no final de tarde. Ela se aproximou e passou a me acompanhar. Nada demais, afinal a gente já se conhecia de vista, sempre a cumprimentei. Mas tu nem imagina o que aconteceu, Aderbal. Assim, de uma hora pra outra se tornou minha melhor amiga. Contou coisas da sua intimidade e também de outras vizinhas. Umas histórias cabeludas. Hum? Como, não ouvi? Ah, ficou curioso, né? Bom, ela tem consciência de que por ser separada e independente atrai o desejo dos homens e a ira das mulheres. Eu disse que realmente as donas de casa do condomínio viam nela uma ameaça, uma espécie de tufão sexual. Não sei por que razão, resolveu me fazer de confidente. Confirmou que o que todo mundo pensa é verdade: dá mais que chuchu na serra. No condomínio deu pro Pereirinha, quando era síndico, e pro Silveira, o zelador. Lembra que a gente comentou no ano passado, pois é... Claro que não fiz nenhum comentário, mas pela minha expressão ela percebeu que queria saber a razão. Nem ela sabe. Além de não serem modelos de beleza, os dois trepam mal. São uns merdas, disse. Não entendi. Se não tinha tesão, porque transar? Não soube explicar; pediram e ela deu. Taí, Aderbal, nesta concordo contigo, ela é livre apenas na aparência. Ainda se submete ao desejo dos machos. Pena, acho ela muito bacana. É gostosa também, né? Ah, pára, Aderbal, não mente. Claro que reparou. É boa ou não é? Pode falar. Pneumática? O que é isto? Boa de agarrar, apalpar? Interessante... Opa, como é que é? Rechonchuda? Eu sou rechonchuda, rechonchudinha? A Vilma é pneumática, gostosa de acariciar e apertar e eu sou rechonchuda? Não inventa, Aderbal. Tu me chamou de gorda. Ela é um tesão; eu, uma baleia. Reconchuda não é elogio, Aderbal. Pneumática, é. Claro, chamar de fofa ou fofinha a mulher do vizinho, tudo bem, é galanteio. Mas a própria mulher, na intimidade do lar, jamais será fofa, Aderbal. Muito menos rechonchuda. Ou é gostosa ou não é. Fofa, rechonchudinha, é a puta que te pariu, Aderbal, meu bolo fofo. Ah, viu como é ruim, meu balofinho querido? É, eu sou a tua fofa e tu o meu bolo fofo. Ou preferes ser o meu barrilzinho de cerveja? Ah, já sei, tu és o meu Nutrinho. Claro que lembra, era um achocolatado pra criança, o bonequinho da propaganda era barrigudinho e bochechudo como tu. Tá legal, eu paro. Agora, fofa, nunca mais. Rechonchuda nunca mais, Aderbal!
***
Beijos, lindas. Abraços, rechonchudos.

Ladrões, tiranos e assassinos

O trabalhador rural Elton Brum da Silva, integrante do MST, foi morto na manhã da última sexta-feira, 21 de agosto, em São Gabriel, durante o cumprimento de uma ordem de despejo na Fazenda Southall executada pela Brigada Militar. Silva, que estava desarmado, foi assassinado com um tiro de espingarda calibre 12 que o atingiu nas costas, disparado por um brigadiano.
Juntamente com a roubalheira dos cofres públicos (44 milhões de reais só no Detran-RS), este é o “novo jeito de governar” implantado por Yeda Crucius (PSDB) na terra dos gaúchos.
Neste momento de luto e revolta é oportuno lembrar as palavras de Érico Veríssimo no primeiro volume de suas memórias, Solo de Clarineta:
"Numa época de atrocidades e injustiças como a nossa, o menos que podemos fazer é acender a nossa lâmpada, fazer luz sobre a realidade do nosso mundo, evitando que sobre ele caia a escuridão, propícia aos ladrões, aos assassinos e aos tiranos. Sim, segurar a lâmpada, a despeito da náusea e do horror. Se não tivermos uma lâmpada elétrica, acendamos o nosso toco de vela ou, em último caso, risquemos fósforos repetidamente, como um sinal de que não desertamos do nosso posto."

***

Sem beijos e abraços. Apenas tristeza e estarrecimento.

Mistérios à beira do rio

A mana Rosa tinha cinco anos. Eu era uma coisinha lindinha e fofinha recém nascida e já aprisionada pela teia de amor tecida por seu Antonio e dona Arminda. Apesar do escudo de bem querer do pai, da mãe e da irmã, a presença do mal era avassaladora, a ponto de ameaçar minha existência antes do segundo ano de vida. Eu definhava a olhos vistos, quando a comadre Delma, depois de consultar as divindades da mata, sentenciou:
- Este guri tá com encosto.
Junto com o diagnóstico veio a cura.
- É preciso fazer uma oferenda. Na meia-noite de sexta-feira, ele deve ser levado na beira do rio junto com uma dúzia de rosas. Depois de pedir ao Deus Maior que lhe dê saúde, as rosas devem ser depositadas na água. Na volta, não olhar para trás de jeito nenhum.
Por ser amiga da família e ter intimidade com os deuses, comadre Delma foi encarregada da missão.

Assim, pouco antes da meia-noite de uma sexta-feira de lua cheia ela me tomou nos braços e saiu da Baronesa, a rua onde morávamos, e rumou para a beira do Guaíba, na Praia de Belas. Lá, procedeu conforme as orientações das divindades. Rezou, depositou as flores no rio e iniciou o caminho de volta. Após o primeiro passo sentiu uma presença que resfolegava às suas costas. Controlou o medo e a curiosidade, manteve a calma. Não apressou o passo e não se voltou para ver quem ou o quê nos acompanhava, mas sentiu nos ossos, na carne e na alma que era um animal, um bicho negro, peludo. Apertou-me contra o peito, rezou com mais fervor e manteve o andar firme até chegar em casa. A presença, o mal que não queria me deixar, ficou pelo caminho.
Assim, sobrevivi.
Até hoje me arrepio quando lembro ou ouço esta história. Quem conta é minha mãe. Ela não tem razão para mentir. E eu não tenho motivos para não acreditar.
***
Beijos, beldades. Abraços, latagões.
Gandaia no findi.

Jornalista!

Pouco antes das nove horas da noite de sexta-feira, 14 de agosto, as portas do Salão de Atos da PUC, no prédio 40, se abriram.
Ciceroniados por Mari Timm, a estrela noite, entramos, pai e mãe, na fila dos que tinham cartão vip por serem parentes dos formandos. Antes de adentrar ao palco dos acontecimentos, informei:
- Eu sou Jens, o jornalista.
Para minha surpresa, agradável, o porteiro estava bem informado. Tirou do bolso uma tira de papel, conferiu o nome e disse:
- O senhor não precisa de cartão, seu lugar está reservado, bem como da sua acompanhante.
Enquanto ele acionava uma recepcionista para me acompanhar, confabulei rapidamente com a Preta Timm acerca da conveniência de vendermos os dois cartões vips sobressalentes – o meu e o da Beti Timm que, por tratar-se da mãe da Mari, cavalheirescamente permiti que ficasse ao meu lado. Judiciosa, a Rainha Preta dissuadiu-me da idéia de mercadejar os ingressos (suspeito que depois os tenha vendido em proveito próprio). Encantado, por finalmente ser tratado com a deferência que julgo merecer, deixei que uma gentil serviçal me guiasse até o local reservado. Maravilhado, constatei que era mais do que um vip – na verdade um nobre entre plebeus, o que me dava direito aos dois primeiros lugares da primeira fila. Detalhe: as cadeiras estavam revestidas com um fino tecido branco (cetim, linho, cambraia?) destacando-se do cinza chumbo das demais. Para não deixar dúvida sobre quem era o rei do pedaço, os tronos ostentavam meu nome. Amedrontada, Beti Timm reconheceu o poder da imprensa e repassou-me 10 reais a título de arrendamento, depois que ameacei fazer um escândalo dizendo que não a conhecia. Os mortais comuns, desconcertados, me olhavam com admiração e inveja.
***
“Confiro-lhe o grau de bacharel em jornalismo”. Depois de 1 hora ouvindo esta frase e vendo a gurizada se curvar para ser coroada com aquele ridículo chapéu quadrado (no meu tempo não tinha, felizmente), e já tendo esgotado meu estoque de fantasias sexuais com as mestras que conduziam a solenidade (pô, precisava fazer alguma coisa para me distrair), eu estava pensando em dar uma escapulida para fumar um cigarro. Minha ideia é que a Beti Timm segurasse a bronca (“se me chamarem diz que fui no banheiro”). Foi então que a professora Magda Cunha, diretora da Famecos,chamou:
- Mariana Timm da Silva.
Berrei:
- Yááááh, Mariana!
Elegante, sorridente e linda (luminosa, a mais bela de todas), a Preta encaminhou-se até a bancada, ao som de Realce de Gilberto Gil. Ouvi a voz de Alexandre, o Cavaleiro Andante, sentado um pouco mais atrás, na condição de um simples vip:
- Dá-lhe, Mariana!
Surpreendendo a plateia, antes de entoar novamente o cantochão de formatura, a diretora Magda convocou:
- Chamamos o jornalista Jens para participar desta solenidade.
Lépido e fagueiro subi a rampa, abracei minha filha enquanto meu currículo profissional era recitado no microfone. Nos envolvemos num abraço apertado, consagrando mais um momento de glória dos Silvas.
Finalmente a sagração:
- Confiro-lhe o grau de bacharel em jornalismo.
O diploma quem entregou fui eu, graças ao privilégio e gentileza proporcionados pela PUC aos seus filhos de primeira e segunda geração. Me senti com um atleta de uma prova de revezamento passando o bastão para o corredor mais jovem e com mais fôlego – de pai para filha. A diferença é que, ainda, não parei de correr, apenas diminui o ritmo (devagar quase parando, segundo meus detratores).
Gosto de pensar que Seu Antonio, o homem magro que escolheu ser meu pai e se tornou avô da Mariana (a sua “Preta”), estava no recinto nos observando discretamente, assim como também é bom imaginar que Dona Arminda, mãe e avó, tenha se transportado do seu atual remanso florianopolitano para também testemunhar aquele momento de glória.
Claro que fiquei contente; evidente que estou orgulhoso. Porém, não estou nem um pouco surpreso. A Mariana concluir a faculdade, para mim, foi uma coisa natural na sua trajetória de vida, da mesma forma que não considerei a conquista do meu diploma algo extraordinário. Seu Antonio não esperava menos dos genuínos herdeiros da estirpe. Afinal, nos ensinou que em todos os sentidos a educação é fundamental.
Mariana honrou o pai e o avô.
O legado do homem magro continua vivo.
Agora, pra cima com a viga, Mariana. Pro alto e avante!
***
Beijos, gurias. Abraços, guris.

A Deusa da chuva


Ela chegou com a chuva torrencial de agosto que desabou sobre a cidade no lusco-fusco da primeira sexta-feira do mês. Na porta do conceituado estabelecimento comercial fechou a sombrinha vermelha. Com os dedos finos e longos ajeitou os cabelos curtos, escuros e luminosos e com as botas pretas alisou graciosamente o encharcado e enlameado tapete de boas-vindas. Só então adentrou no Bar do Alemão.
Foi um acontecimento histórico. Por um breve instante o impossível aconteceu: o tóc-tóc elegante das suas pisadas foi o único som que se ouviu naquele reduto de falastrões indomáveis. A desconhecida envolta em uma brilhante capa de chuva amarela fez com que calassem os comentaristas e técnicos amadores de futebol, interrompeu as elucubrações matemáticas dos insistentes caçadores dos números da mega-sena, silenciou as bazófias dos discípulos de Casanova.
Eu estava na mesa de sempre, com os camaradas de sempre – Caloca, intelectual orgânico e eterno desempregado por convicção ideológica, e Jorjão, contumaz barranqueador de éguas, humilde homem do campo deslocado na cidade grande. Também eles ficaram impressionados com A Visão.
- Deus seja louvado! – exclamou o Caloca, renegando anos de militância ateísta.
- Minha Nossa Senhora – balbuciou o Jorjão, abalado na sua preferência radical pelas fêmeas da espécie equina.
Apesar de raramente expressar sentimentos mais íntimos quando em companhia de meus liderados (a fim de manter o respeito e o temor necessários à preservação da liderança) cedi ao ímpeto de manifestar minha impressão e, seguindo os ditames da minha educação refinada, observei:
- PQP! Que gostosa! Coxoduzulda!
O burburinho que tomou conta do bar indicava que nas mesas adjacentes a reação era a mesma.
Alheia ao rebuliço, a Deusa instalou-se em uma mesa discreta perto da janela. Tirou a capa de chuva e colocou numa cadeira junto com a sombrinha. A calça de brim, a blusa branca e a jaqueta de couro marrom emolduravam um corpo maduro e sinuoso, com as saliências e reentrâncias nos lugares certos. O bar suspirou.
Nervoso, o Alemão penteou a cabeleira com os dedos e encolheu a barriga preparando-se para oferecer seus préstimos. Porém, mais esperta, a Mana (a consorte do Alemão) adiantou-se. Limpou a mesa, conversou, sorriu e anotou o pedido da estranha. A seguir trouxe refrigerante, torrada e o jornal do dia, que foi brutalmente tomado do aturdido Cunha, o único que ficou imune aos encantos da estranha, possivelmente por não enxergar à distância.
Com um sinal discreto, solicitei a presença da Mana à nossa mesa. Antes de renovar o pedido (coronel Jack Daniel´s para mim, cerveja e barrouda para meus camaradas), indaguei:
- Quem é?
- Vizinha nova, acaba de se mudar para um apartamento no teu condomínio.
- É mesmo? – retruquei abobalhado, evitando que a baba molhasse o cavanhaque.
- Comportem-se, rapazes, não me façam passar vergonha.
Comportamo-nos, admirando embevecidos a delicadeza com que ela mordiscava a torrada e folheava as páginas do jornal. Contemplativos, não percebemos a chegada da Marisinha, minha secretária eventual e musa em tempo integral.
- Hei, tem alguém aí? – perguntou a jovem musa.
Voltamos à realidade.
- Então, gostaram da Lígia?
- Quem?
- Lígia, a nova vizinha. Chegou de tarde. Ajudei a fazer a mudança.
- Casada? – quis saber o Caloca.
- Viúva.
O Caloca gemeu baixinho:
- Que tentação...
O Jorjão recorreu ao vocabulário do campo:
- Que potranca...
Degustei um gole do néctar do Tennessee:
- A primavera chegou mais cedo.
- E parece que vai ser longa – completou o Caloca.
- Humpt, homens!... – encerrou a Marisinha levemente enciumada.
Lá fora chovia à cântaros.

***
Beijos, deusas. Abraços, cavalheiros.

***
PS. Sexta,14, é a formatura da Mari Timm. Festa na aldeia. Estão todos convidados.

O mês do pesadelo


Agosto mês do desgosto, reza a lenda popular.
Foi em um 24 de agosto que Getúlio meteu uma bala no coração e assim, com a pompa e circunstância de quem ousou optar pela solução mais radical para defender a honra pessoal e reafirmar seu amor ao povo brasileiro, entrou definitivamente para a História.
Abre parêntesis: comuna imberbe, certa vez critiquei Getúlio na frente de Seu Antônio, o homem magro que escolheu ser meu pai. Foi a única vez que ele, apolítico, sugeriu que eu ficasse quieto e lesse mais antes de criticar o Velhinho. Segui o conselho. O pai estava certo – eu era uma criança e não entendia nada. O baixinho Vargas foi o maior entre os grandes. Fecha parêntesis.
Anos depois, no dia 25 do mesmo mês fatídico, Jânio Quadros, ainda sob a influência dos vapores etílicos que o acompanhavam desde o dia anterior, renunciou à presidência da República tentando reeditar, com menos tragédia, o momento de glória do “baixinho de Itu”. Neste caso, a História se repetiu como farsa (trágica) confirmando o vaticínio de Marx – possivelmente elaborado nos intervalos das manifestações viscerais das crises hemorroidais (sim, os profetas eram humanos, demasiada e miseravelmente humanos).
Agosto também é mês de cachorro louco – mais uma vez a fonte da informação é o populacho ignaro e supersticioso. Porém, sendo um déspota esclarecido, sinto-me obrigado a chancelar a crença da plebe nesta questão em particular. Nos tempos antigos – quando era príncipe infante, senhor de cutelo e baraço e reinava nas ruas, vielas, becos e quebradas de Ipanema – testemunhei a proliferação de cachorros loucos no mês de agosto. Aqueles que tinham abrigo doméstico – como o Pituba, o Dick, a Diana, o Negrinho e o Pirol – eram vacinados pela Prefeitura, gratuitamente. Os cães vadios eram caçados pela carrocinha. Em várias ocasiões comandei minhas tropas no ataque aos cães malucos:
- PQP! Tá louco! Tá babando!
E tome pedrada.
Felizmente, naqueles dias a política habitacional do governo estava em expansão e abundavam no bairro casas em construção, que nos forneciam o arsenal de pedras necessário para combater as feras hidrófobas.
Mais um parêntesis: não conheço ninguém que tenha sido mordido por cachorro louco. Já arranhado por um gato doido, sim. Fui eu, aos quatro anos – tive que tomar 20 injeções na barriga. Acho que isto explica muita coisa, né?. Fecha parêntesis.
Acredito que nossa ação bélica foi decisiva evitar maiores infortúnios para a população ipanemense naqueles tempos selvagens (além de apedrejar os au-au, exterminávamos cobras, lagartos, peixes, preás, passarinhos e borboletas (que depois eram eternizadas em graciosos quadros ou bandejas de rara beleza e evidente sofisticação e bom gosto).
Por tudo isto, tenho certa antipatia pelo mês de agosto – se não fosse o prenúncio da primavera, talvez o qualificasse como o mais cruel dos meses, imitando o poeta T.S. Elliot. Porém, desde a tarde de 5 de agosto estou inclinado a mudar minha posição. Neste dia, o Ministério Público Federal protocolou uma ação civil de improbidade administrativa contra a governadora Yeda Crusius (PSDB) e mais oito pessoas: Carlos Crusius (marido da governadora), deputado federal José Otávio Germano (PP), deputados estaduais Luiz Fernando Zachia (PMDB) e Frederico Antunes (PP), presidente do Tribunal de Contas do Estado, João Luiz Vargas, Walna Villarins Meneses (assessora da governadora), Delson Martini (ex-secretário geral do governo estadual), Rubens Bordini (vice-presidente do Banrisul e ex-tesoureiro da campanha de Yeda). Pesam sobre eles acusações de enriquecimento ilícito, dano ao erário e infração de princípios administrativos, crimes relacionados à fraude que desviou cerca de R$ 44 milhões do Detran gaúcho.
Trata-se de um fato inédito no RS – o titular do Palácio Piratini ser acusado de ladrão em pleno exercício do mandato. Bem mais lá adiante é possível que o caso acabe em pizza.
Mas por enquanto isto aqui está bom demais.
***
Beijos, gurias. Abraços, guris. Cuidado com os au-au ensandecidos.
Um findi maravilhoso para todos nós.

Sarney e anticlímax


Sei, sei, sei... Política, ainda mais no Brasil, não é assunto para pessoas de bom-gosto, algo que se fale na frente de crianças ou à mesa do jantar. Sendo assim, perdoem-me antecipadamente, preparem o estômago e tapem o nariz, pois vou falar do senador José Sarney, que está a caminho do beleléu, possivelmente para trocar de pele na cova, como fazem as serpentes. Com seu afastamento, sem a grande imprensa batendo o bumbo, teremos a doce ilusão de que o império dos biltres foi exterminado. Até o próximo escândalo, naturalmente. No Brasil, as aparências enganam quem quer se enganar.
Mas o que eu quero dizer é que Sarney é minha caça desde 1985 – o tempo da Nova República (lembram? Aos mais jovens recomendo uma busca no Google).
Na época eu era editor do vibrante jornal do Sindicato dos Bancários de POA. Sexta-feira era dia de fechamento. Final de tarde, na saída do diretor de Comunicação, a primeira página em aberto, eu perguntava, já sabendo o que viria: “Qual a matéria de capa?”. A resposta: “Pau na Nova República” ou a variante “Pau no Sarney”.
Eu me dedicava à tarefa com afinco e prazer, unindo informação e opinião, construindo um ariete de hipérboles e metáforas desancando o procér maranhense, Radical, sim. Panfletário, também.
Só encontrei alguma dificuldade durante o Plano Cruzado, pelo qual tinha certa simpatia. Além de sobrar alguma grana no bolso, cada vez que ia pagar uma prestação o valor diminuía, por artes de uma nunca entendida tabela de conversão. Porém, como então era comum, logo a coisa degringolou e a lenha continuou baixando.
Escrevia barbaridades sobre o Sarney, mais ou menos como a Veja (argh!) faz hoje com o Lula, mas com elegância, melhor estilo e sem falsificar a verdade - na maior parte das vezes (não serei canonizado). Recentemente voltei a escrever sobre o coronel do sertão, aqui no blog Fora Sarney.
Um inconveniente eram as interrupções frequentes do telefone. Era alguém da turma, já reunida no bar, iniciando o aquecimento para a noite: “Acaba logo e vem. Estamos te esperando, porra!” Mesmo pressionado, nunca deixei de dedicar ao então presidente o melhor da minha atenção e talento limitado.
O fato é que Sarney não caiu, apesar de não poder sair às ruas no final do mandato – esticado 1 ano além do previsto. Aliás, um dado histórico: desde a redemocratização, o único que vai concluir rigorosamente o período para o qual foi eleito é o presidente Lula (tóc, tóc, tóc). Sarney transformou 4 em 5, Collor estabacou-se no meio do caminho, FHC mudou as regras do meio do jogo e tran$formou 4 em 8.
Bem, encerrando, (pô, já tava na hora!) 24 anos depois, o coronel vive seu ocaso. É a volta do cipó de aroeira. Mas talvez não seja a última volta do parafuso – as ervas daninhas são difíceis de exterminar.
Seja como for, ficarei alegre quando ele cair, mesmo sabendo que outros sobrevivem. Muitos outros – o paladino da moralidade que mandou a filha para a Austrália com o nosso dinheiro; aquele que gosta de “carne nova”(e não é de boi) e assegurou a um apaniguado 1 ano de estadia em Paris, às nossas expensas, bem como o tratamento de saúde milionário da mamãe; aquele outro que garantiu uma boquinha para a filha de um ex-presidente receber sem trabalhar; aquela que defende o trabalho escravo (para os outros, of course); aquele um que gosta de viajar de jatinho fretado pago com a nossa grana: aquele outro que...
***
Deu chabu - Início da tarde de domingo, depois de uma lauta refeição (sanduíche triplo de presunto e queijo, acompanhado de suco de laranja e seguido de algumas colheradas substanciais de doce de leite) decidi abrir a caixa de emails antes de iniciar a conclusão das minhas aventuras na noite da sexta-feira mais fria da década. Foi um erro.
Deparei-me com uma mensagem furibunda da minha bela e instável causídica, exigindo que eu parasse imediatamente com o relato. Com um linguajar ríspido, expôs as razões para exigir o meu silêncio. Depois de uma releitura atenta, e da rememoração dos fatos daquela noite glacial, porém alegre no seu desenrolar, não encontrei motivos plausíveis para sua intolerância, a não ser uma eventual crise de mau humor.
Como sou um cavalheiro – e os cavalheiros dificilmente rejeitam o pedido de uma dama, até mesmo os mais absurdos e radicais – me calo, pedindo desculpas ao distinto leitorado pelo anticlímax. Sou razoavelmente louco, mas não a ponto de enfrentar a ira de uma mulher contrariada. Ainda mais versada nas coisas do Direito. Ouso dizer, no entanto, que foi bonita a festa, pá. Fiquei contente.
***
Beijos combativos, beldades. Abraços destemidos, rapazes. Boa semana pra todos nós.
Pra cima com a viga!

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