Paixão e cuba libre

A pergunta do camarada Moacy, em comentário no post anterior, provocou-me o mesmo efeito que as madeleines em Marcel Proust. Voltei ao passado (a comparação termina aí). “Quem fim levou a Selminha?” quer saber o professor. Arguto, talvez tenha percebido que, tratada assim no diminutivo, ela não tenha sido uma personagem menor na trajetória aventureira deste (eu!) bagual dos pampas.
A última informação que tive da Selminha, anos atrás, dava conta que estava de bem com a vida, casada e morando em Flopis.
O que me interessa, porém, não é o presente, mas sim o pretérito. Portanto, apertem os cintos, damas e cavalheiros, a máquina do tempo vai partir.
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Conheci a Selminha no 1° ano do primário no Grupo Escolar José de Anchieta, em Ipanema.
Loirinha (na verdade a cabeleira crespa era amarela fulgurante), miudinha e tímida, suas feições sardentas, quando elogiada, ficavam ruborizadas. Um encanto de menina.
Desde o primeiro contato, a simpatia foi mútua – elo fortalecido a partir da constatação empírica de que éramos outsiders naquele universo juvenil. A condição de único negro da turma me deixava desconfortável (assim como ela, a única órfã). A inteligência era nossa arma para sobrevivermos neste ambiente hostil (eu, mais tarde, adicionei a força dos punhos. Viver é lutar, como constatou Guimarães Rosa).
Era extremamente inteligente, criada pela mãe – o pai, comunista da velha guarda, foi uma das primeiras vítimas da ditadura militar no início dos anos de chumbo. Era a caçula de três irmãos – o mais velho um rebelde sem causa, a irmã amiga e colega de escola da mana Rosa. A matriarca foi minha professora de datilografia (rigorosa, me negou o diploma de conclusão – apesar de rápido, eu olhava para o teclado e usava apenas os dedos indicadores para teclar. Como até hoje). De minha parte, também era um geniozinho em construção (em Português, História e Geografia, ao contrário dela, que se destacava em todas as matérias, com apreço especial por – argh! - Matemática).
Terminado o primário, continuamos companheiros de escola, no Ginásio Estadual Padre Reus. Porém, nos separamos no segundo ano. Ela foi para o Ginásio Estadual Ernesto Dorneles, seguindo a trilha da irmã.
Abre parêntesis. Na época era um colégio só de meninas. O uniforme: saia cinza, meias três quartos brancas, camisa branca. No inverno japona e blusão cinza com detalhes em vermelho. Levado por minha irmã, compareci a alguns eventos no colégio. Adolescente imberbe, retornava para casa alucinado com as visões do paraíso – no caso as pernas grossas das meninas expostas em transgressoras mini-saias (obrigado por tudo, Mary Quant). Todas reconheciam que eu era engraçadinho e lindinho e, acreditavam, também inocente. Lobinho, eu rosnava em silêncio. Depois, em casa, me prostrava em vassalagem diante do altar de Onã. Fecha parêntesis.
Afastados nos bancos escolares, Selminha e eu logo reatamos o contato social nos bailes e reuniões dançantes que animavam a nossa juventude. Eu já estava a caminho de me tornar A Lenda, um dos gigantes daquela era dourada, ocultando com braço firme e forte a timidez e a insegurança. Morava na rua Capão da Canoa, o lado esquerdo do coração pulsante de Ipanema e era uma das estrelas em ascensão da turma. A Selminha fazia parte do bando periférico do Loteamento Fortuna (onde morei por algum tempo e fiz discípulos fiéis), sequioso por ser admitido nas nossas hostes celestiais. Apesar de jovem, eu era um Deus benévolo. Assim, com a concordância da Naira (a soberana de todos nós), permiti o ingresso das novas tropas. Foi uma decisão acertada (havia muitas gurias gostosas entre nossos vizinhos de bairro).
A menina Selminha era agora uma mocinha ainda recatada, fascinada mas também desajeitada naquele universo fashion suburbano. O cérebro continuava afiado, extremamente lógico, mas coube a mim ampliar seus horizontes apresentando-lhe meus camaradas Miller, Fitzgerald, Mailer, Baldwin, Lawrence, Flaubert, Rimbaud, Érico, Jorge, Carlos, Gullar... Ela gostou. Tempos depois me retribuiu com Clarice e Cecília.
O intelecto era robusto, mas o corpo ainda era miudinho, assim como era a mesma a timidez, o que reforçava a indiferença masculina. Apesar do sucesso da modelo Twwgy, anos antes, a gurizada ainda preferia coxas e peitos opulentos – além do temor irracional de uma mulher mais inteligente do que eles.
Eu a achava fascinante. No entanto estava apaixonado pela Naira. Por sua vez, ela me confidenciou que gostava do Jorginho, mulato pachola, quase anão, condição relevada pelos demais porque era o único que sabia dirigir (o pai tinha uma caminhonete DKW). Como os deuses não dão ponto sem nó, o Jorginho namorava a Naira. Portanto, as desditas do amor fortaleciam nossa amizade.
Então houve a festa na garagem da casa do Jorginho.
Era aniversário do homúnculo. Estava todo mundo lá. As gurias levaram um prato – pizza, bolo, salada... petiscos diversos. Os machos contribuíram com grana, revertida depois numa cota parcimoniosa de refrigerantes e num estoque generoso de bebidas de variado teor alcoólico. Acreditando no nosso juramentado senso de responsabilidade, os pais do aniversariante cometeram a imprudência de abdicar de qualquer vigilância sobre os convidados.
O drinque mais requisitado da noite era rum com Coca-Cola (com doses reforçadas do primeiro).
Alegre, o pequenino anfitrião fazia questão de exibir seus dotes dançarinos arrastando a Nairinha pra lá e pra cá, ao som de Renato e seus Blue Caps, The Fevers, Os Incríveis, Morris Albert, Credence Clewater Revival...
Solidários na dor de cotovelo, eu e Selminha fazíamos comentários ácidos sobre a alienação de nossos pares, umas antas que não ouviam Chico, desprezavam Caetano, não entendiam Gil e Gonzaguinha, não sabiam quem era Ivan Lins, desconheciam Tom, Vinicius e João Gilberto. Assim amenizávamos a inveja.
Fomos dançar. Eu não sabia dançar – nunca aprendi; ela sim (acho que este é um dom genético nas mulheres). Influenciados pela cuba libre, nos entendemos – dois pra cá, dois pra lá, meia volta, uma volta inteira.
Depois de Fellings, Detalhes, Reflexions of My Life e Do you do you wanna dance (pela primeira vez consegui a paradinha estratégica acompanhada do avanço da perna esquerda combinada com a inclinação oposta do corpo da cintura pra cima – o encoxamento perfeito), aconteceu o previsível: primeiro o brilho nos olhos, depois a troca de faíscas anunciando a presença da paixão. Éramos neófitos no assunto. Aturdida, ela foi ao banheiro. Eu tentava, sem sucesso, domar ou ao menos ocultar a intensidade dos sentimentos. Driblando a vigilância do namorado diminuto, a Naira se aproximou.
- Pô, legal tu e a Selminha – sorria, resplandecente como sempre.
- Não tem nada – respondi apatetado, como sempre ficava diante dela.
- Não seja bobo, aproveita.
Enquanto se afastava, seus olhos castanhos miraram a camisa fora das calças que ocultava meus sentimentos intensos. Riu. Com malícia, eu acho.
Depois interceptou Selminha na volta do banheiro. Trocaram rápidas palavras. Nairinha estava ciente de que, sonhadores e idealistas, precisávamos de incentivo para viver a vida como ela é fora dos livros.
Funcionou. Assumindo publicamente nossa afeição, eu e Selminha procuramos um recanto livre de olhares indiscretos. Fazia parte do ritual dos namoricos se afastar da pista de dança em determinado momento para respirar ar puro e ver as estrelas. Geralmente era preciso ludibriar o adulto com a função de vigia. Naquela noite estávamos livres. Uns se refugiavam no fundo do pátio, outros em um dos lados da casa e havia aqueles que preferiam os vãos escuros das redondezas. Era a hora do amasso. Normal.
Nós fomos um pouco mais além. Caminhamos meia quadra até a pracinha da Capão da Canoa. As estrelas cintilavam como se tivessem sido recentemente polidas. A lua parecia mais próxima. Era uma bola imensa onde o prata se mesclava com o laranja, cobrindo a noite com uma luminosidade suave.
Na ocasião, porém, o espetáculo da natureza era secundário. Eram outros os mistérios que queríamos admirar, desvendar, desfrutar...
Houve toques, suspiros, calores, carinhos... Corpos em ebulição conhecendo simultaneamente êxtase, assombro, receio, alegria, dor, prazer e, por fim, uma doce frustração por ainda não ousar romper totalmente com as regras da moral vigente, mas já vislumbrando as maravilhas que se ofereciam a exploradores intrépidos. O tempo era nosso aliado.
Ah, também houve beijos – cometas percorrendo o céu da boca, na definição inspirada de Bosco e Blanc.
Voltamos abraçados, namorandinho. A noite teria sido perfeita se tivéssemos abolido o Rum Montilla da cuba libre. Como não foi este o caso, no fim da festa o destilado de origem cubana e a água negra do imperialismo entraram em guerra no nosso organismo. Estávamos sentados na escada ao lado da garagem quando ela disse:
- Não estou bem.
Colocou a mão no estômago, virou a cabeça para o lado, curvou-se e, com graça e leveza, vomitou.
Cavalheirescamente, segurei-a pelos ombros. Depois ofereci um lenço (nunca saio de casa sem lenço, hábito que adquiri com o pai). Ela ainda limpava delicadamente os lábios quando a revolução eclodiu no meu estômago. Foi a minha vez de expulsar os desordeiros – não com a mesma elegância. O jorro foi vigoroso.
- Porra, vou morrer – como sempre, exagerei.
Restabelecida a paz interior, abracei-a.
Depois de enlaçar meu tronco com os braços, ela aconchegou a cabeleira amarela no meu peito e sussurrou enlevada:
- Eu te amo.
Acendi um Minister. Traguei. Expeli a fumaça olhando a lua, as estrelas, a noite e respondi:
- Eu também te amo.
Tínhamos 14 ou 15 anos. Foi o nosso passo inaugural na senda tortuosa da paixão, paixonites (como era nosso caso) e grandes amores, possíveis e impossíveis. Foi também o nosso primeiro porre.
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Beijos, gurias. Abraços, camaradas.
Nos meus tempos de delinquência sempre havia uma pedra no meio do caminho. Porém, não era, como no poema de Drummond, sinônimo de obstáculo. As pedras eram objetos de caça, ataque e defesa.

