Requiescat in pace

Aos 8 anos tive o primeiro contato mais íntimo com a Morte. Foi na sala da casa da rua Mário de Andrade, em Ipanema, temporariamente transformada em quarto hospitalar. O paciente era meu avô Daniel. Até os 80 anos foi um homem forte e trabalhador. Nos meses de outono e inverno cuidava de uma fazenda nos arredores de Porto Alegre. Nos demais vendia ovos, galinhas, frutas e legumes a bordo da carroça puxada pelo vigoroso Tubiano, tendo por companhia o cusco Fumaça, seu fiel escudeiro. Depois de um tombo, nunca mais recuperou a saúde. Nos dois anos seguintes, ele, que até então fora um católico relapso, tornou-se um fervoroso evangélico da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, possivelmente preparando-se para a hora da partida, que aconteceu no lusco-fusco de um domingo do verão de 1963.
Desde alguns meses antes o vô já não caminhava, o que obrigou o pai a transferi-lo do quartinho que ocupava no quintal para a sala de estar da casa, que estava movimentada naquele início de noite – parentes, vizinhos e companheiros de religião trazendo carinho e solidariedade. Pressentindo a chegada do fim, dona Elvina, uma católica devotada, comunicou:
- Ele está indo.
Ouvindo o choro convulsivo da mãe, vi, com os olhos arregalados, meu avô morrer. Segurava a mão de dona Elvina e ambos rezavam compulsando um rosário. Primeiro o Pai Nosso, depois a Ave Maria. Quando por fim a luz abandonou o seu olhar, ela ajeitou os braços dele sobre o peito, cerrou seus olhos e deu um beijo em sua testa.
- Acabou. Ele está em paz.
***
No mesmo ano, alguns meses mais tarde, pouca gente deu atenção à morte do escritor britânico Aldous Huxley ocorrida em Los Angeles, pois no mesmo dia, 22 de novembro, faleceu abatido a tiros o então presidente dos Estados Unidos John F. Kennedy.
O autor de Admirável Mundo Novo morreu vítima de um câncer na garganta. Nos momentos finais pediu à Laura, sua segunda esposa, uma dose de LSD, droga que já experimentara e lhe proporcionou experiências de natureza mística, relatadas no livro As portas da percepção. Partiu em meio a uma epifânia, tendo a seu lado a mulher.
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Não sei qual o lenitivo mais adequado para encarar o encontro derradeiro com a Dama Sinistra, a religião que consolou meu avô ou a droga alucinógena que confortou Huxley. Mas sei que, como eles (e como ocorreu com meu pai), quero ter a companhia de uma mulher na hora final.
Elas, que nos trouxeram ao mundo, certamente também sabem como fazer para que o abandonemos em paz.
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Beijos, divinas damas. Abraços, gentis cavalheiros. Divirtam-se no findi prolongado.
Pra cima com a viga, moçada!

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(PS: o Barão de Coubertin, criador das Olimpíadas da era moderna, disse que o importante é competir. Concordo, porém faço um acréscimo: mas o bom mesmo é ganhar. Eu não ganhei, mas fiquei contente com a vitória do Miguel e da Soninha no concurso relativo ao 1° Encontro Nacional de Blogueiros que acontecerá nos dias 12 e 13 de dezembro, na cidade de São Francisco do Sul, Santa Catarina. Mais informações aqui, no blog do Betho Sides. Parabéns, pombinhos. Façam a festa por mim).

Jornalismo e isenção

Entre as boas coisas proporcionadas pela web, uma é a possibilidade de conhecer pessoas dos mais diversos rincões, em território brasileiro ou até mesmo fora dele. Uma das personalidades agradáveis e interessantes que tenho o privilégio de conhecer neste ambiente é a Yvonne. Ela é uma carioca bem humorada que vive em Guarapari, no Espírito Santo. Além do bom humor, cativa pela inteligência, tolerância e lucidez com que expõe seus pontos de vista. Com ela é possível discordar, debater com entusiasmo e, ao final, manter intocada a convivência civilizada – desde, é claro, que o debatedor mantenha o mesmo nível elevado de transparência e, sobretudo, elegância.
Atualmente, Yvonne está afastada da blogosfera (seu espaço, o
BlogGente está em recesso) mas não abandonou a rede de amigos virtuais com os quais mantém contato através de emails com mensagens ora engraçadas, ora refletindo sobre questões de natureza política ou simplesmente humanas, demasiadamente humanas, que tocam a sua sensibilidade. No texto a seguir ela aborda uma das questões mais atuais e delicadas da nossa vida em sociedade, que é imparcialidade, ou a falta de, do jornalismo que se pratica em nosso país. É um artigo que eu gostaria de ter escrito, mas não poderia - não sou imparcial. Ela, ao contrário conseguiu examinar o assunto com uma linguagem cristalina sem o viés da paixão política. Creio que o resultado da sua reflexão será tão proveitoso para os leitores como foi para mim. Confiram.
Com vocês, damas e cavalheiros, Yvonne.
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Não acredito em jornalismo isento. Aliás, eu não acredito em isenção por parte de nenhum profissional que tenha que escrever sobre um determinado assunto e os meus motivos são muitos. O mundo deve ter pouquíssimas pessoas que esquecem de tudo que acreditam ou gostam para fazer um julgamento justo. Aliás, recentemente bati um papo com um amigo virtual que mora na Itália, exatamente sobre isso. Vou dar um exemplo bem bobo: sou brasileira, amo o meu país e não sou chegada aos "United States of America". Se o governo daquele estranho país toma uma justa medida contra o nosso, eu em princípio já serei totalmente contra. Não importam as razões.
Pois bem, acho que jornalistas políticos em sua grande maioria não merecem crédito algum. Uns são apaixonados pelo Lula, outros querem vê-lo morto. Dessa forma, como é que eu posso ler uma coluna equilibrada? Além da paixão ou ódio individual, ainda existe a orientação do jornal ou da revista. Então tudo fica embaçado diante dos meus olhos. Se o governo federal faz algo de positivo, os apaixonados pelo Lula só faltam se masturbar. Em compensação, os contrários atacam tudo, como se ele não tivesse mérito algum.Eu quero ler a notícia como se fosse uma narrativa ( dia tal, tal hora, fulano caiu do décimo andar e não morreu). Cabe a mim interpretar por qual motivo o fulano teria caído da janela. Se essa notícia fosse dada pela revista "Look", certamente iria culpar o governo Lula pelo fato do cara ter despencado da janela. Já os lulistas dariam uma outra versão tendenciosa contra o governo FHC e diriam que, agora depois do bolsa-família, poucas pessoas se suicidam.

Amigos, a minha linguagem hoje está bem "vovô viu a uva", mas é que estou tentando ser a mais simples e imparcial possível e essa situação aconteceu porque reli ontem um irado texto meu escrito há alguns anos quando o Diogo Mainard começou a se destacar no jornalismo. Naquela época, eu praticamente convidei as pessoas para caçá-lo tal qual a Inquisição fez com as ditas bruxas. Fui baixa o suficiente para mencionar problemas familiares dele que não deveriam ter sido ditos, ou seja, eu utilizei as mesmas armas que ele lança mão em sua coluna semanal na "Óia". Também fui tendenciosa. Felizmente nunca mais li nada dele e eu nem sei dizer se ele continua sendo a figuraça de sempre ou se melhorou alguma coisa. Só sei que ele me fez um grande favor ao me ensinar a ler tudo com cinco mil olhos. Por incrível que pareça, toda essa minha implicância não teve nada a ver com política e sim com as observações dele sempre mesquinhas e fazendo pouco de tudo que vê pela frente. É a mordacidade sendo usada não para escrever algo com fina ironia e sim para acabar com a vida do outro.
Alguns grandes colunistas também cometem os seus erros, como foi o caso do Luis Fernando Veríssimo que recentemente escreveu um texto favorável ao Lula que eu fingi que não li. Nada tenho contra o fato de ele gostar do presidente, só que a defesa ficou pior do que o soneto e o comentário dele foi sobre algo que não tinha como defender o Lula. Como sei que ele é gente fina e um dos maiores escritores do Brasil, eu preferi esquecer esse deslize. Estão vendo só? Não existe ninguém isento e eu sou igual a todo mundo.
Prá terminar, gostaria de homenagear aqui um dos maiores homens que este país já conheceu: o advogado
Sobral Pinto. Já falei dele em outras oportunidades. Ele era um rigoroso católico praticante e anti-comunista ferrenho. No entanto, foi o maior defensor dos presos políticos que eram ... comunistas. Quando aquele homem aparecia, todos os demais perdiam o brilho e importância. Velhinho e temido pelos milicos quando fazia a defesa de alguém. Odiava o Comunismo, mas tinha em mente que é direito soberano de qualquer cidadão acreditar no que bem entende. Abria mão de suas convicções para fazer valer o direito do outro que não pensava da mesma forma que ele e tinha como força motriz um profundo senso de dignidade, solidariedade e respeito pelo ser humano independente da sua postura ideológica, tanto que chegou a invocar o Código de Defesa dos Animais em defesa de Prestes, na ditadura do Estado Novo. Isso sim é imparcialidade e eu acho que todo mundo deveria se espelhar em pessoas assim.

Um dia no parque


Muito do que sou devo ao verbo. Para ser mais preciso: as ideias expressas em palavras impressas foram fundamentais na minha formação. Uns 50% talvez – nem todas altruístas. O restante, a parte boa, devo principalmente às chineladas corretivas da mãe (“Não fui eu! Não fiz nada!”) e às silenciosas, certeiras e definitivas repreensões do pai, que tinha a habilidade de transmitir conceitos éticos e morais unicamente através do olhar.
Aprendi a ler e escrever aos 7 anos no Grupo Escolar José de Anchieta. Quem me deu a chave para abrir a porta deste mundo novo foi a professora Maria Helena, primeiro e inesquecível amor. Desde então, me perdi e me achei, fui herói e vilão, amei e odiei, sorri e chorei, gozei e morri, visitei as profundas do inferno e ascendi ao paraíso. A alfabetização foi o meu Pecado Original – a minha perdição e salvação, liberdade e cárcere. Errando e acertando, continuo querendo mais.
Aliás, acredito que...hummm...o quê? Tá, tá, tá, falem, entre parêntesis, e desapareçam.

Abre.
- Dá um tempo, chefe. Isto está ficando filosófico demais. A idéia não era essa, lembra? – observação de Bob, o botão da minha primeira calça Levis, atualmente ocupando o cargo de confiança de eminência parda.
- É isto aí, te coordena cabeça de pudim – admoestação de Moe, apoiada por Larry e Curly, o trio de neurônios que me restou.
Fecha.

Apesar da insolência, os rapazes estão certos; estava tergiversando. Não mais o farei. Vamos ao cerne da post, portanto. Perdão, leitores
***
Entre as obras que me seduziram nos anos juvenis e impressionáveis estão o opúsculo O direito à preguiça de autoria de Paul Lafargue, cunhado de Karl Marx, e o ensaio Elogio ao ócio, de lord Bertrand Russel. Na essência, o que eles dizem é que a emancipação dos trabalhadores, preconizada por Marx e Engels, é a última estação do trem que conduzirá a classe trabalhadora ao paraíso. Ou seja, a destruição dos grilhões impostos pelos exploradores e a posse dos meios de produção seriam as condições objetivas para que os trabalhadores promovessem a união harmônica entre trabalho e lazer – mais este do que aquele, claro. Uma sociedade não apenas sem explorados nem explorados, mas com feriadão permanente, variando entre sextas e segundas-feiras. Nesta nova ordem, o ócio prolongado poderia ser usado tanto para aprimoramento intelectual e espiritual ou atividades menos nobres como assistir futebol na tevê deitado no sofá, vestindo apenas cueca, beber cerveja com os camaradas, pegar um cineminha com a patroa, visitar a parentada ou dedicar-se a consumação dos prazeres carnais (nada a ver com o churrasquinho de fim de semana), atividade que lord Russel praticou com constância e perícia, segundo seus biógrafos.
Ainda imberbe, mas já dotado de uma acurada capacidade analítica, não apenas concordei com o ideário, como tratei de adaptá-lo ao meu cotidiano. Assim, desde essa época procuro intercalar períodos de labor esfalfante com lazer intenso. No fim de semana, fiel a esta diretriz decidi levar a mente e o corpo para o parque de diversões internético, como justa compensação após um período de trabalho duro.
Porque era sábado, acordei depois das onze. Após de uma lauta refeição, à guisa de café da manhã e almoço, assumi o timão de Hal Jr. (pra quem não sabe é o nome que o meu PC recebeu na pia batismal) e fui navegar na web. Evitei as águas turbulentas; deixei-me guiar pelas ondas suaves da futilidade. Fiz algumas descobertas interessantes, todas referentes ao universo feminino, o único que me interessa. A seguir, alguns exemplos.
- A socialite Paris Hilton não é uma loira burra. Esta é apenas uma personagem do jet set (ainda se usa a expressão?). Esclareceu que no dia a dia sob a luz do sol é uma mulher de negócios inteligente e atilada. O grasnar irritante também é falso. Dona de um coração bondoso, fez da casa dos cachorros uma réplica da sua mansão, inclusive com a mobília. Pelo que entendi, durante o dia ela é Margareth Thatcher; à noite, Linda Lovelace, a pioneira dos filmes pornôs. Interessante.
- Adriana BomBom (profissão indefinida) se separou de Dudu Nobre para virar homem. Trocou as formas pneumáticas (gostosas de apalpar) por um corpo de lutador de jiu-jitsu: coxas e braços musculosos e ameaçadores. Suspeito que a causa da separação tenha sido o medo do sambista – um pacato, rotundo e flácido cidadão – de eventualmente ter que encarar um embate físico com a mulher - e não me refiro às doces refregas travadas nos domínios de Afrodite.
- Uma das garotas do Pânico na TV está apaixonada por um dos filhos de Luma de Oliveira. Na verdade, não é uma paixão fugaz, mas um amor que se propõe a ser duradouro. “É o amor da minha vida, o meu homem”, declarou a gostosa. O garoto sortudo é filho também de Eike Batista, cuja fortuna é calculada em 6 bilhões de dólares. Desconfio que, zelosa, mamãe Luma vai abortar o romance. Afinal, uma alpinista social reconhece uma igual.
Municiado por estas e outras informações triviais, senti-me apto para manter conversação mundana por algumas horas com os aldeões e, preferencialmente, aldeãs que habitam as cercanias do castelo. Depois de um minucioso asseio corporal de meia hora, barba feita com esmero, discretamente perfumado (colônia Lancaster), vesti o traje de caçador: tênis preto, meias brancas, Levis original (só sai do armário em ocasiões especialíssimas), camiseta e paletó pretos. Antes de sair, sorri para o cara do outro lado do espelho.
- Agora, vai! – falei com convicção.
Ele retribuiu o otimismo.
- É hoje!
***
As expectativas se confirmaram: em nome da classe trabalhadora, fui ao paraíso. A pele cintila, mas infelizmente o cavalheirismo me impede de entrar em detalhes.
Pra melhorar, o Glorioso Colorado dos Pampas venceu o GreNal. A vida é bela.
***
Beijos ternos, gurias. Abraços relaxados, guris.
Boa semana pra todos nós. Pra cima com a viga!

Pugilo de bravos (2)

Certas mulheres têm o dom de mudar um homem para melhor. Lígia pertence a esta linhagem nobre.
Como estávamos embasbacados, coube a ela animar a conversa.
- E o Brasil, hein?
- É, e o Brasil? – ecoou Valdô, o diminuto, inseguro quanto à postura mais adequada a adotar, tendo em vista seus interesses românticos.
- Soube que o país foi reconhecido pela ONU como um exemplo no combate à fome no mundo. Fiquei tão contente. Acho que o Lula está fazendo um bom governo. Ele é uma graça.
O Maia deu um violento tapa na própria coxa.
- Como eu estava dizendo antes da tua chegada: foi preciso um presidente operário para começar a pagar a imensa dívida social do Brasil – disse ele, que alguns minutos antes defendia o empalamento presidencial.
O Pereirinha e o Tarzan igualmente renegaram com entusiasmo suas convicções neoliberais.
- Grande homem. Como Getúlio, o pai dos pobres, o guia genial das massas, um grande timoneiro – na tentativa de mostrar erudição política, o baixinho colocou Vargas, Stalin e Mao no mesmo saco.
- Um orgulho para o Brasil e para o mundo – o Tarzan não deixou por menos.
De minha parte, reafirmei a fé socialista, revelando sutilmente a condição de petista histórico. Pelo seu olhar cintilante, pressenti que marquei alguns pontos.
Certas mulheres têm também a capacidade de fazer aflorar a alma artística de um homem. Lígia é uma delas.
- Não, obrigado. Sou uma gaúcha do asfalto. Acreditam que não sei dançar vanerão? – ela falou sorrindo, ao recusar a cuia de chimarrão.
- Mas isto tem que ser corrigido – falou o Maia com voz de veludo – Tens que conhecer um bailão, hehehe – completou com um risinho safado.
- Quem sabe... – ela acenou com uma esperança tímida.
Amaldiçoando a inaptidão para a dança, contra-ataquei.
- Tua esposa certamente vai gostar de ir junto.
O Maia me fuzilou com os olhos (“tem a volta, sacana!”). O Tarzan, de chapéu, bombacha, faca na cintura, bota e esporas resolveu se exibir.
- Conhece a chula¹?
- Só pela tevê.
- Permita-me – disse ele. Colocou uma vassoura no chão, fazendo às vezes de lança, e passou a pular de um lado a outro do artefato, a barriga proeminente e subindo e descendo e os bicos da bota marcando o ritmo, certamente fazendo os bravos guerreiros farroupilhas revirarem-se nos túmulos.
Quando terminou, ela aplaudiu deliciada.
- Bravo!, bravo!...
Suando, bufando, o Tarzan passou o lenço vermelho na caratonha e quase desabou ao fazer uma curvatura – que pretendia graciosa – em agradecimento.
Teríamos ficado ali a tarde toda se o churrasco já não estivesse perigosamente passando do ponto. Além disso, as consortes de meus adversários estavam impacientes e, de cinco em cinco minutos, enviavam pequenos mensageiros:
- Paiê, a mãe mandou perguntar se ainda vai demorar muito.
- Paiê, a mãe quer saber quem é essa mulher.
- Paiê, a mãe disse que a carne vai queimar e ela vai vir aqui.
Apesar dos meus protestos, todos decidiram que era hora encerrar as atividades.
- Estou faminta – disse a Deusa, dando início às despedidas.
Divididos entre a tristeza e o sonho, vimos Lígia afastar-se em companhia do coxão. Daquele ângulo, a visão era ainda mais portentosa.
Suspiramos. Naquele momento, não éramos mais oponentes futebolísticos ou políticos, mas apenas um magote de velhos rapazes perdidamente enfeitiçados por uma das mais formosas discípulas de Afrodite.
Como na música do Chico, foi cada um pro seu canto. À noite, a vizinhança reclamou da estridência dos uivos.
***
Beijos maravilhados, damas. Abraços esperançosos, cavalheiros. Um dia eu chego lá.
***
Chula¹: bailado, é uma dança disputa, sempre entre homens que ainda resiste no Rio Grande do Sul. A disputa entre os dois dançarinos, colocados nos extremos de uma grande vara, quatro metros ou mais, começa com um dos participantes executando uma coreografia agitada, muito rápida, de passos quase frenéticos, com movimentos semi-acrobáticos, toda sapateada e taconeada, único som essencial que marca o compasso. O ruído das grandes rosetas, nas esporas, completa o som.

Pugilo de bravos (1)

Raramente faço uso da churrasqueira do condomínio. Não gosto de fazer churrasco só para mim e a companhia não é agradável. Não, não é que eu não suporte ficar à sós comigo mesmo – o inferno, como observou JP Sartre, são os outros. Explico: os habitués, que usam o espaço comunitário como se fosse propriedade particular, são todos anti-petistas e gremistas, uma combinação deletéria para um espírito sensível e vermelho (nas paixões política e clubística) como o meu. Assim, no intuito de preservar a saúde mental e as coronárias, me abstenho de assar uma carne na brasa. Contento-me com sanduíches de queijo, presunto, alface e tomate, besuntados de maionese – uma das minhas especialidades culinárias.
Abre parêntesis. Aqui no RS existem apenas duas posições políticas relevantes: PT e anti-PT. O resto é estatisticamente insignificante. O mesmo se aplica para a preferência clubística: Inter ou Grêmio. Fecha parêntesis.
Porém, neste domingo fui obrigado a abrir uma exceção. No sábado, estava no Bar do Alemão quando o dono do estabelecimento me puxou para um canto.
- Um presente para o doutor, diretamente da fronteira – disse com ar conspirativo.
Gosto quando me chamam de doutor (uma deferência à minha formação acadêmica e existencial). Gostei ainda mais do presente: um corte magistral de uma ripa da chuleta, ornamentada por um delicado colar de gordura. Uma peça de rara beleza, digna do um Deus Núbio como eu. O naco de carne parecia implorar por um espeto e um braseiro. Por isto, no domingão despi-me dos preconceitos e fui resoluto à churrasqueira.
Os ímpios já estavam lá – Maia, Pereirinha e Tarzan (este devidamente fantasiado de gaúcho) – às voltas com espetos de costela gorda, maminha, salsichão, coração de galinha e, como sempre, esculachando verbalmente o presidente da República que, segundo eles, não passa de um pau de arara rabudo, que deveria ser esquartejado e incinerado em praça pública, com a corja que recebe o Bolsa Família servindo de lenha. Ou seja, nada de novo no front reacionário. Coisas do ódio e da paixão política.
- O que vocês acham do próximo GreNal? – tratei de mudar de assunto, com o objetivo de espalhar a cizânia entre as hostes inimigas.
Deu certo. Imediatamente iniciaram uma acirrada discussão sobre as qualidades – ou falta de – do esquadrão tricolor da Azenha, atualmente em baixa no Campeonato Brasileiro.
Assobiando o hino sagrado do Glorioso Colorado dos Pampas, salguei a carne, ajeitei no lugar mais alto da churrasqueira e só então percebi o silêncio. Com olhos esbugalhados, bocas abertas (um fio de baba formava um riozinho no queixo do Pereirinha), o trio encarava algo ou alguém às minhas costas. Voltei-me e igualmente fiquei imobilizado e boquiaberto. Era ela, a Deusa, quem caminhava, ou melhor, flutuava em nossa direção.
- Bom dia! Qual dos senhores poderia me fazer um favor?
Lígia, nossa vizinha mais recente e coxoduzulda (já falei dela aqui) sorria. Demoramos alguns segundos para decodificar a mensagem e recuperar o dom da fala. O Pereirinha acordou primeiro.
- Claro, claro! Valdomiro Pereira, a seu dispor. Pode me chamar de Valdô – o nanico saltou à minha frente, afundando maldosamente o cotovelo no meu estômago.
Ligia trazia um espeto, um pedaço de coxão de dentro e queria alguém para assar. Pereirinha avaliou a carne.
- Que coxão!
- Bota coxão nisto! – avalizou o Maia.
- Uma maravilha! – exultou o Tarzan.
Massageando a barriga magoada pelo cotovelo assassino de Valdô, o reduzido, grunhi:
- Gostosa!
Ela me encarou com olhos de pergunta.
- As coxas – respondi. Em seguida consertei:
- A carne. O coxão parece muito gostoso.
Ela novamente mostrou os dentes alvos.
- Como os senhores são gentis.
Beatificados, lentamente começamos a derreter.
***
Continua na quarta ou na sexta-feira – não sei quanto tempo vou levar para retornar ao estado sólido.
***
Beijos bem-aventurados, Deusas. Abraços em estado de graça, camaradas.
***

Boa semana pra todos nós. Pra cima com a viga!

Abaixo a humildade

O texto a seguir foi publicado na extinta Toca do Jens, de saudosa memória, nos idos de abril de 2007. De lá para cá não mudei muito (piorei só um pouquinho). Sua republicação não se deve a preguiça, falta de inspiração ou ressaca – motivos que poderiam ocorrer ao leitor mais afoito. A razão é a prosaica falta de tempo. Estou atulhado de trabalho - mais de 60 páginas de texto para revisar (“pô, ainda não tá pronto? Era pra ontem”, cobra o meu associado Moah, sempre impaciente). Assim, me permito reapresentar ao leitorado mais um aspecto da minha fascinante personalidade. No mais, sem as minhas repetições não seria o que sou.
***
Não suporto mais ouvir falar em humildade.
Na tevê, do alto da sua arrogância, apresentadores enfatizam diariamente as virtudes da humildade (para a patuléia, of course). A Igreja igualmente reforça a idéia de que os pobres e humildes herdarão o reino dos Céus (já o reino da Terra pertence aos ricos e arrogantes). Os atletas em geral, e os que praticam o rude esporte bretão em particular, também creditam suas vitórias a Deus, em primeiro lugar, e, em segundo, à postura humilde da equipe. (E as derrotas? Culpa do Diabo e da soberba, certamente).
De minha parte, reconheço que não sou humilde. Nem arrogante.
Bem, vamos por partes. Não acho legal a submissão de um ser humano a quem quer seja, a não ser no trato com editores de jornal, gerentes de banco e agiotas em geral - gente que merece o meu mais profundo respeito. Também admito a sujeição em algumas especialíssimas ocasiões de foro íntimo (arrãm!), geralmente em companhia do sexo oposto. É claro que corro o risco, em alguns desses momentos, de ficar numa posição ridícula, pois, como bem observou mestre Millôr: “quem se curva aos poderosos mostra o rabo aos oprimidos”.
Não sou mineiro, mas procuro adotar um meio-termo, domando a altivez natural determinada por minha origem nobre com doses parcimoniosas de modéstia, a fim de viabilizar a convivência com os demais seres humanos, meus quase semelhantes.
Democrático, registro que a turma que gravita em torno castelo que me serve de morada não concorda com essa avaliação. O pessoal acha que sou “cheio” (logo eu, um varapau. Ah, o populacho e suas definições insólitas...), quando pontifico no Bar do Alemão sobre política, economia, psicologia, esportes, amores, desamores e outros aspectos da existência humana no planeta. Sábio, compreendo e perdôo, pois percebo tratar-se de intriga, inveja e incompreensão de pobres mentes limitadas.
Na longa estrada da vida procuro adotar a mesma postura do senador gaúcho Pinheiro Machado, quando, na República Velha, ao afastar-se de um grupo de manifestantes que o apupava, assim respondeu ao motorista que perguntou a velocidade com que deveria dirigir: “nem tão rápido que pareça covardia, nem tão devagar que pareça provocação”.


***
Beijos altivos, Deusas. Abraços sobranceiros, mortais. Boa semana para todos nós.
Arriba, moçada!
***
A ilustração - Bagual em contemplação - é de autoria Bier, camarada e discípulo fiel.

O ovo do Bheto

(Texto para o concurso sobre o 1º Encontro Nacional de Blogueiros)

- E aí, o que achou?
- Bah, trilegal.
- Eu vou. E tu?
- Também tô tri afim, mas não sei...
- Como não sabe? Tens que ir, pô!
- Calma, não é assim. Tem a questão do tempo, da grana...
- Nananinanão, não vem com desculpa. Tempo não é problema, vai ser num fim da semana, viagem de ida e volta de avião. É rápido. O preço é razoável. Muita gente já está pagando em suaves prestações. Já que não te inscreveste antes, descola um adiantamento de salário, um empréstimo no banco. Paga com o 13°.
- É, acho que dá.
- Claro que dá! Puxa, esta é uma chance única. Um monte gente boa vai estar lá.
- Será?
- Claro! Pensa comigo: 1° Encontro Nacional de Blogueiros – todos no mesmo bat-local, na mesma bat-hora. Lembra de quantas vezes a gente conversou sobre como seria bom um encontro ao vivo pra ver se a amizade virtual resiste ao olho no olho, à conversa cara a cara? Agora é a hora.
- É mesmo. Confesso que tenho curiosidade de conhecer a turma. Sabe como é, ouvir o som da voz, a alegria do riso, a fala dos gestos.
- Hehehe, o ser humano em ação, ao vivo e a cores. Vai ser bacana.
- Também pode haver decepções.
- Óbvio. É normal, já que na blogosfera as relações se constroem através da escrita. E os textos tanto podem revelar como esconder quem somos. No encontro afinidades vão se confirmar e possivelmente alguns equívocos vão se desfazer no ar. Faz parte do show.
- Tu não vai me decepcionar, né?
- Jamais. Eu sou exatamente o que aparento ser: lindo, divino, maravilhoso, aristocrático e socialista. Um Deus de Ébano. Além disso, modesto.
- Hehehe, a modéstia eu já percebi há muito tempo.
- Seguinte, decidi: eu vou.
- E eu já estou lá em pensamento.
- Ansiedade não faz bem ao coração.
- Esta faz. É uma expectativa alegre. Estou louca pra te conhecer e também todas as damas e cavalheiros, como tu dizes.
- Eu também. Vai ser...
- Um rito de passagem – do virtual para o real.
- Isto! E também uma celebração da vida, ou melhor, das delícias inesperadas do ato de viver.
- Delícias inesperadas? Tu fala assim no dia a dia?
- Palavras, palavras, palavras...
- Então tá. Nos vemos lá.
- Combinado. Beijo.
- Outro.
***
Não sei se é uma obra de Deus, do acaso ou da natureza, mas o testemunho da história é categórico: a humanidade possui a maravilhosa capacidade de produzir desbravadores conforme as suas necessidades para seguir para o alto e avante. Um destes pioneiros foi Cristóvão Colombo, descobridor da América. Junto com a glória, a grandeza do feito atraiu o sobre genovês o sentimento que desgraçou Caim - o verme da inveja tentou macular o seu sucesso, materializando-se na indagação ressentida:
- Se você não tivesse descoberto a América, por acaso não existem outros homens na Espanha que poderiam fazê-lo? – perguntou o provocador medieval (vingativa e justiceira, a História relegou-o ao anonimato).
Em resposta, Colombo pegou um ovo de galinha e desafiou todos à sua volta para colocá-lo em pé, sobre uma das extremidades. Muitos tentaram, nenhum conseguiu executar o repto. Após algum tempo, Colombo pediu sua vez, pegou o ovo e deu leves batidas contra a mesa até que a casca levemente se quebrasse embaixo, e com esse achatamento, foi simples colocá-lo de pé.
O provocador exclamou:
- Assim qualquer um pode fazê-lo!
E Colombo retrucou:
- Sim, qualquer um! Mas qualquer um ao que se lhe tivesse ocorrido fazê-lo.
E acrescentou:
- Uma vez que eu mostrei o caminho ao Novo Mundo, qualquer um poderá segui-lo. Mas alguém teve antes que ter a idéia. E alguém teve depois que decidir-se a colocá-la em prática.
***
Ciente do exagero comparativo, mesmo assim fiz questão de recordar o episódio histórico, que certamente todos conhecem, para ressaltar o ineditismo e a importância do evento promovido pelo
Betho Sides: o 1° Encontro Nacional de Blogueiros, que acontecerá nos dias 12 e 13 de dezembro, na cidade de São Francisco do Sul, em Florianópolis (a informação completa está aqui).
Submetendo-me ao julgamento do tempo, o senhor da razão, arrisco dizer que futuramente o Encontro vai figurar em lugar destaque no rol dos acontecimentos sociais gerados a partir da internet. Na memória dos internautas que responderam à convocação do Betho, o momento ficará gravado como aquele em que se materializaram, sob o sol e sobre o solo catarinense, as relações e emoções que existiam apenas no cristal líquido da telinha do computador e no universo particular de cada blogueiro. O gasoso se fez sólido e a solidão se fez confraria.
Betho botou o ovo em pé. O encontro por ele capitaneado é uma injeção da vida. Na veia.
***
Damas e cavalheiros, torçam por mim. Beijos e abraços para todos.
Pra cima com a viga!
As informações sobre o Ovo de Colombo foram retiradas da Wikipédia.

Eu e miss Davis

Às vezes ajo sem pensar, como aconteceu na última terça-feira. Acordei e fiz um pedido silencioso invocando a presença de Bette Davis, falecida no 6 de outubro de 1989. Contrariando meus hábitos liguei a TV ao invés do rádio. Estava no ar o Bom Dia Brasil. Na telinha (na verdade um telão de 49 polegadas, como convém a um bagual de posses) Alexandre Garcia, ex-símbolo sexual e áulico saudoso da ditadura militar, se dizia “chocado” com a destruição, pelo MST, de cinco mil pés de laranjeiras em uma propriedade invadida pela segunda vez. A primeira usurpação, que não mereceu maiores considerações por parte do jornalista, foi feita pela empresa exportadora de laranjas – as terras são públicas. Outro fato ainda mais chocante, que é a peregrinação aparentemente interminável do exército de deserdados sociais, abrigado sob lonas pretas, que clama por terra para morar e trabalhar, não foi alvo da indignação do combativo comentarista.
Enquanto isto, pesquisa do IBGE recentemente divulgada mostrou que há muita terra na mão de poucos. O Índice de Gini, padrão internacional que mede o uso do solo, no Brasil é de 0,872, muito próximo de um, o que indicaria o nível máximo de concentração. Mais uma vez, o calejado profissional de imprensa silenciou.
- Indignação seletiva é isto aí – sentenciou miss Davis, momentaneamente rediviva graças aos meus sortilégios. Sacudiu a abundante cabeleira antes de concluir mordaz:
- Eu não mijaria nele nem se ele estivesse em chamas.
Tremi assustado, mas sobretudo aliviado por não ser o objeto de tamanho desprezo.
***
A seguir, um jovem repórter entrevistou um feirante.
- Quanto está a laranja? – quis saber o vibrante profissional.
- Dois reais a dúzia. – respondeu o homem da feira, mostrando uma bacia com as frutas.
Zeloso, o jovem e audaz profissional quis saber mais:
- Quantas laranjas tem ai? – começou a contar e parou no meio da operação, talvez por problemas com a matemática – Tem mais de 10, né?
Constrangido, o feirante concordou:
- É, tem 12. Uma dúzia.
Dividido entre a náusea e o riso, desliguei a TV e fui tomar café. Sem suco de laranja. Bette Davis, braço enganchado no meu, gargalhou. Avaliou o repórter:
- É bonitinho. Me casaria com ele se tivesse uns 100 milhões de dólares, dividisse metade comigo e me desse a garantia de que estaria morto em um ano.
Sorri, mais uma vez encantado com o pragmatismo da impetuosa intérprete de Jezebel.
***
Semana passada estava na fila do banco, quando fui abordado por um atencioso jovem, cujo crachá indicava ser empregado do estabelecimento.
- Cidadão, o senhor pode passar naquela fila, é mais rápido – apontou para o caixa especial para os idosos.
Titubeei.
- O senhor tem mais de 60 anos, né?
Indignado, pensei em tirar o sorriso da sua cara com o meu palavrão preferido (PquiusP!), porém, depois de considerar que se ficasse onde estava levaria cerca de meia hora para ser atendido, aceitei a gentileza e, como se fora um ancião às portas da senilidade, deixei-me conduzir para a outra bicha, bem menor (em tempos idos a gente chamava fila de bicha. Sempre tinha alguém alguém no ônibus das seis da matina indo para a bicha do INPS. Coisas do idioma portoalegrês).
Ao chegar em casa a primeira coisa que fiz foi raspar o cavanhaque e o bigode brancos. Mariana Timm estava com a razão desde o início: além acentuar a aparência de sátiro, os pêlos na cara me envelhecem além da conta. Agora, estou avaliando a ideia de também eliminar por completo os que me restam ao lado e no topo da cabeça – estes últimos cada vez mais raros.
Miss Davis aprovou as mudanças:
- Não dá para reformar a vida de uma hora para outra, mas mudar de cara é um bom começo, passa um aviso: “Apertem seus cintos, esta será uma noite turbulenta”.
Me encarou com os olhos molhados e se inclinou para que eu acendesse o cigarro elegantemente espetado na piteira.
Tremi novamente; agora embevecido com turbulência cada vez mais próxima.
***
Beijos sonhadores, donas. Abraços sem adjetivações, cidadãos.
Arriba, moçada!
Update: as frases atribuidas a Bete Davis foram de fato proferidas por ela. Catei aqui.

Marolinha

Na semana passada, o Lima, meu contador e bicheiro ocasional, convocou uma reunião. Lampeiro, e como sempre otimista, fui ao encontro esperando boas notícias. Quem sabe ele, sempre criativo quando o assunto é finanças e burla fiscal, me apresentasse uma fórmula segura de engordar substancialmente os meus proventos?
- E aí, qual é a boa? – perguntei animado.
A expressão do Lima, ao contrário, não era nada animadora.
- A tua situação tá feia. Periclitante, eu diria – respondeu, como sempre fazendo questão de exibir o seu conhecimento do vernáculo, em deferência à minha condição de operário da escrita.
A informação não foi propriamente uma novidade, mesmo assim fiquei acabrunhado.
- Paris, então, nem pensar? – indaguei, fazendo referência ao sonho, acalentado desde os 18 anos, de visitar a Cidade das Luzes e beber uns martinis com os ectoplasmas de Hemingway, Fitzgerald e Paulo Francis no bar do Hotel Ritz. Gertrude Stein, se aparecer, será bem-vinda, apesar do mau humor.
O contador riu.
- Com sorte vai te sobrar dinheiro para uma passagem até Alvorada. Isto se conseguir ludibriar alguns credores – esclareceu, citando a encantadora cidadezinha da região metropolitana de POA e quase tropeçando no ludibriar.
- Pôtaquiupariu! – lamentei – Mais uma vez serei obrigado a ir para Flopis no verão.
- Encher o pandulho de churrasco e cerveja às custas do teu cunhado. É dura a vida – o Lima, além de engraçadinho, é sarcástico.
- Não enche – retruquei – Qual a gravidade da situação?
Profissional, o Lima me apresentou os dados. Em respeito aos sentimentos do gentil leitorado, não vou detalhar os números que atestam o estado terminal das minhas finanças, sob risco de provocar uma catadupa de lágrimas nas damas e enternecer o coração duro dos cavalheiros. Saibam, porém, que Dante estava certo: banqueiros, comerciantes e usurários em geral têm lugar cativo no inferno.
***
Retornei ao castelo tristonho e cabisbaixo. Convoquei uma reunião urgente com o coronel Jack Daniel´s e Bob, o botão da minha primeira calça Levis, atualmente exercendo a função de consciência crítica.
- Não te rende - incentivou o coronel.
- À luta, companheiro – reforçou Bob.
Assim estimulado, meu sangue bagual ferveu e o coração voltou a bater forte. Excitado e febril, elaborei algumas ações destinadas a vitaminar minhas finanças em prazo curtíssimo. São elas:
Venda de órgãos – estou colocando à disposição do mercado um olho (o esquerdo, o outro está meio bambo) e um rim (estava guardando para, no futuro, trocar por um fígado para uso próprio, mas diante da necessidade maior...). Preços a combinar.
Serviço de acompanhante – me disponho a ser companhia em eventos de natureza política, beneficiente ou gandaia pura e simples. Tenho traquejo no convívio com todas as camadas da pirâmide social. Serviços extras de ordem...hã, hum... orgiástica devem ser combinados com antecedência. Em princípio atendo apenas damas, mas propostas de cavalheiros serão estudadas com carinho. Não aceito reclamações e nem devolvo o dinheiro.
***
É claro que ainda trabalho na idéia do Grande Golpe Redentor, não necessariamente ilegal, que garanta a sustentabilidade econômica até o fim dos meus dias (daqui a uns 50 anos) e a certeza da impunidade, a exemplo do que acontece com destacados membros da nossa elite empresarial e política. Neste aspecto, estou aberto a sugestões e propostas associativas.
***
Ao saber das providências, o velho coronel do Tennesse quase foi às lágrimas.
- É isto aí, meu guri! – disse com a voz embargada.
Bob também estava emocionado.
- Agora vai!!!
***
Assim espero.
Beijos ensolarados, damas. Abraços valentes, cavalheiros.
Boa semana pra todos nós. Pra cima com a viga!

PS: Tchau, Mercedes. Obrigado por tudo. Diz pra Elis que mandei um beijo.

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