Preta, Preta, Pretinha

Das boas coisas que a vida me proporcionou, a Mariana foi a melhor delas (com a participação fundamental da Beti Timm, naturalmente). Por ela me tornei um homem melhor. Também por causa dela, sou mais feliz.
Parabéns pelo aniversário, Preta. Um beijo do papi.
***
Moças e rapazes, comemorem comigo.

Pra cima com a viga, moçada!

Hey, Tonight

Firme, mas delicado, livrei-me do abraço suarento do Lara e fiquei a uma distância segura dos perdigotos.
- Vai, fala – incentivei.
Ele falou.
Contou que houve uma discussão entre dona Ivonete, sua quarta esposa, e uma vizinha, por causa da bola do filho da segunda, que a todo o momento invadia o pátio e atingia as roupas no varal, zelosamente lavadas pela senhora do Lara. O empresário audaz, que dormitava entre um copo e outro de cerveja, enquanto esperava a transmissão do jogo do Glorioso Colorado dos Pampas, ficou agastado com o bate-boca.
- Silêncio aí, porra!, tem gente querendo descansar.
A vizinha não se intimidou diante da voz de comando:
- Descansar do quê, seu vagabundo? Como se não bastasse, ainda é corno.
Traumatizado por experiências anteriores, o Lara pulou do sofá ao ouvir a ofensa suprema, só superada por referências desabonadoras à sua santa mãezinha.
- Cuméquié???
- É isto aí mesmo, seu balofo, CORNO! Tua mulher dá pra todo mundo na vizinhança.
Sentindo o passado repetir-se, o Lara teve uma vertigem, enquanto dona Ivonete se dispunha ao confronto físico.
- Lambisgóia! Safada! GORDA!
Só não se pegaram a tapas e puxões de cabelo porque foram contidas pela plateia, a esta altura numerosa. Houve, claro, quem incentivasse o confronto físico.
- Em briga de mulher ninguém mete a colher – berrou um.
- Na lama, briga na lama – sugeriu outro, com o olhar lúbrico, tentando transferir o embate para um chiqueiro nas proximidades.
O Lara, recuperando-se da tontura, clamava:
- Corno, não! Corno, não. Ela me paga.
Foi neste momento que adentrei no centro do palco dos acontecimentos.
Graças a minha formação escolar superior (acho que já fiz referência a mesma, né?), tenho grande prestígio entre a plebe. Natural, portanto, que o Lara convocasse meus préstimos para resolver a pendenga. Depois de exigir silêncio, solicitei uma dose reforçada Passaport (o Jack Daniel´s estava em falta na adega do Lara). Enquanto degustava o néctar escocês de origem paraguaia, pus-me a refletir. Meu primeiro impulso, logo descartado, foi pela briga. Faz tempo que não assisto uma luta entre mulheres, especialmente na lama. Porém, a vizinha era bem mais robusta que a mulher do Lara e certamente ganharia o confronto. Isto não faria bem ao ânimo do comerciante, o que poderia influir na minha pretensão em relação ao empréstimo da jukebox. Abandonei também a idéia de chamar a polícia, pois os belicosos homens da lei não são bem-vindos na comunidade. Conclui que a única saída era o judiciário.
Expliquei ao ansioso Lara e à atenta assistência que estávamos diante de um grave atentado à honra e à dignidade da família Lara (movendo a cabeçorra, o patriarca concordou). Tal crime, continuei, era passível de punição de acordo com a legislação vigente no país, expressa na nossa Carta Magna, a Constituição Brasileira. Especifiquei os crimes – calúnia, injúria e difamação – e carreguei nas tintas ao explicitar as possíveis penas: polpuda indenização monetária, serviços forçados nas casas comerciais do Lara, além de uma temporada às custas do Estado no Madre Pelletier, o presídio feminino. Destarte, recomendei ao distinto casal que recorresse ao judiciário em busca de reparação moral e pecuniária. Neste caso, enfatizei, o ônus da prova cabe a quem acusa.
O pessoal não entendeu tudo (ouvi alguns risinhos maliciosos quando pronunciei “ônus”), apenas o suficiente para saber que a vizinha poderia se dar muito mal.
- Xi, vai te ferrar! – sussurrou alguém no ouvido da mulher, visivelmente assustada.
O Lara já falava em acionar o seu advogado, quando o interrompi e novamente fiz uso da palavra. Informei que tudo poderia ser esquecido se houvesse um pedido de desculpas formal, em alto e bom som, por parte da agressora. Afinal, todos eram bons vizinhos e não deveriam romper a amizade por causa de uma rusga causada por moleques mal educados. Conclui com voz firme e forte:
- Não creio que seja necessário recorrer ao cânone da pátria para resolver esta questão. Afinal, somos todos civilizados.
Fui vivamente aplaudido. Houve quem lançasse minha candidatura à vereança.
A vizinha, apesar da expressão abobalhada (um efeito que a minha vasta erudição provoca nas mentes simples da gente do povo), entendeu o que dela se esperava. Entre lágrimas, ganindo, desculpou-se e restabeleceu a honradez de dona Ivonete, enquando dava vigorosos socos no próprio peito opulento e oscilante. Ao final, prometeu dar uma sova de vara de marmelo em Edigleyson Jr, o rebento cujo pé torto ao bater no balão de couro deu origem à situação deveras desagradável.
Satisfeito com o desfecho do caso, o Lara providenciou um churrasco em minha a homenagem
- O senhor é o cara, doutor Jens. Tem que se candidatar.
Humilde, agradeci, enquanto me servia de mais uma dose reforçada de Passaport.
***
Ah, e a jukebox? Tá na mão, é claro. Também consegui a doação de duas caixas de Skol e uma garrafa de Jack Daniel´s (“legítimo, não aquela porcaria que vem do Paraguai”). Igualmente agradecida, dona Ivonete se comprometeu a enviar alguns vidros de ovos e pepinos em conservas.
A festa vai ser de arromba. Estão todos convidados.
***
Beijos, Damas. Abraços, Cavalheiros.

(PS: clicando na imagem acima mais uma delícia sonora do Creedence; Som na caixa).

Who'll Stop The Rain

A legião de leitores que me honra com sua atenção ("menos, Jens, bem menos", aconselha Bob, o botão da primeira calça Levis que se transformou em minha perene consciência crítica) sabe que um dos principais aspectos da minha personalidade fulgurante é a firmeza de caráter. Pra mim pau é pau (sem brincadeirinhas ofensivas, cavalheiros) e pedra é pedra. Sou um bagual do asfalto. Talvez o último da espécie.
Entre as minhas convicções inabaláveis, está a certeza de que quem não desfrutou a adolescência ao som do grupo Creedence Clearwater Revival não viveu. Sorry, periferia, mas a vida é assim, cruel. Azar de quem não dançou. Quem não dormiu no sleeping-bag nem sequer sonhou.
Pois foi a reconquista desta sonoridade paradisíaca da juventude dourada e transviada que levou-me a abandonar a segurança dos meus domínios reais, no último domingo, e aventurar-me no território íngreme e assustador onde habita o populacho. Na verdade o objeto da minha busca situava-se exatamente na fronteira entre as terras de fartura, leite, mel e Jack Daniel´s – o meu reino encantado, onde sou déspota esclarecido – e as paragens onde prevalecem o fogo, a dor da violência e o ranger de dentes da miséria, habitadas pelos que, talvez (porém, todavia, contudo, entretanto) um dia herdem o reino dos céus.
No entanto, a sociologia barata estava distante das minhas preocupações naquele momento. Minha caça era o Lara, e meu alvo uma jukebox.
Abre um longo parêntesis explicativo.
O Lara, para quem ainda não sabe, é um empresário audaz da vizinhança, que conseguiu a proeza de unir a administração de um armazém de secos & molhados com a gerência de uma casa noturna de diversão. Ou seja, ele atende a todas as carências da carne, sejam elas de mesa ou cama. Ambos os estabelecimentos funcionam lado a lado, às vezes com concomitância de horários. A sogra do Lara, dona Veridiana, eventualmente fornece consultoria espiritual e amorosa, através do uso de cartas do tarô, para clientes especiais (traz o seu amor de volta em 24 horas!). Por diversas vezes usei os serviços do intrépido empresário, em todas as modalidades oferecidas, e nunca tive razões para recorrer ao Procon. Em todas ocasiões contei com a proteção de uma escolta gentilmente colocada à disposição em deferência a minha posição social superior, conquistada depois de quatro anos de estudo abnegado na Faculdade dos Meios de Comunicação da PUC. A choldra reconhece o valor da educação formal.
Mas naquela tarde calorenta que convidava à modorra, não consegui um contato antecipado com o Lara, a fim de garantir salvo conduto. Porém, destemido - sou bagual que não se entrega assim no mais - rumei para a selva, movido pela perspectiva de conseguir emprestada, sem custos, a jukebox que o Lara mantém na casa de diversão noturna. Isto porque constatei, depois de uma acurada pesquisa, que é a única das redondezas que toca músicas do Creedence Clearwater Revival, sendo portanto imprescindível para abrilhantar a festança que brevemente vai animar os salões suntuosos do castelo que me serve de morada (era para ser uma recepção petit-comité, mas se espalhou. Estou vendendo ingressos e selecionando os convivas. O regabofe vai dar lucro). Ananias, o anão performático, já está contratado, assim como já assegurei a presença de Dolly e Parton, as ovelhas lésbicas depiladas. A jukebox com o som dos anos 70 é a cereja do bolo para garantir o sucesso do evento.
Fecha o longo parêntesis explicativo.
Quando cheguei ao estabelecimento, no meio da tarde domingueira, o ambiente estava tenso. O Lara, sem camisa, exibindo a barriga proeminente e reluzente, carantonha vermelha e copo de cerveja na mão, vociferava:
- Corno, não! Corno, não! Ela me paga!
Subitamente despertos, Moe, Larry e Curly, os três neurônios que ainda me restam, aconselharam:
- Te manda!
Bob, a consciência crítica, corroborou:
- Sai fora daqui!
Não sem o que vim buscar, pensei (eu sou tri-macho). Assim, resoluto, fui em frente.
- O que aconteceu? – perguntei com a solicitude que me é peculiar.
O Lara tomou um gole de cerveja antes de me abraçar.
- O fim do mundo, dr. Jens. A casa caiu!
Preparei-me para ouvir uma história triste.
***
Continua na sexta-feira, devido ao adiantado da hora (sim, eu durmo, uma noite ou outra).
***
Beijos, princesas. Abraços, aldeões.
Pra cima com a viga todos nós.
***
(Quem quiser ouvir o som do Creedence Clearwater Revival: Who'll Stop The Rain, é só clicar na imagem lá em cima).

A bofetada

Foi a cena mais degradante que já assisti na televisão brasileira. A atriz Tais Araújo (Helena), de joelhos, é sonoramente esbofeteada pela companheira de profissão Lílian Cabral (Tereza). A cena foi o ápice, até agora, da novela Viver a Vida, de Manoel Carlos, exibida pela TV Globo.
Nélson Rodrigues observou que “o pior da bofetada é o som. Se fosse possível uma bofetada muda, não haveria ofensa, nem humilhação”. Neste quesito, Manoel Carlos e a Rede Globo fizeram a lição de casa: a sonoplastia foi perfeita.
Chorando, sem maquiagem, cabelos presos, vestimenta que remete aos tempos da escravidão, Helena se julga culpada pelo acidente que deixou paraplégica a filha de Tereza. Ajoelha-se e pede perdão à mãe. Esta, elegantemente vestida, bem penteada, primorosamente maquiada, olhar faiscante de ódio, desfere a bofetada abjeta e avisa que é apenas o começo da sua vingança. O fato de manter uma das mãos no bolso acentua a soberba que faz lembrar uma senhora de engenho e realça o desprezo que dedica aquele ser inferior prostrado à sua frente.
A cena foi levada ao ar no dia 16 de novembro, quatro dias antes do Dia Nacional da Consciência Negra. Suspeito que tenha sido uma forma, nada sutil, da Rede Globo, para quem não existe racismo no Brasil, mostrar aos negros o seu devido lugar na nossa sociedade.
Não tenho dúvida de que os cavaleiros da Klu Klux Klan tupiniquim intimamente regozijaram-se com o episódio. Porém, em público limitaram-se a qualificar como “besteira” os protestos de quem se sentiu ultrajado. Aliás, isto é comum no Brasil: sempre que alguma manifestação racista (às vezes travestida de piada) gera indignação, a culpa não recai sobre o autor da ignomínia. O culpado é o ofendido, que não tem senso de humor ou, como no caso da novela, leva a sério um exagerado, mas simples, recurso dramático, usual quando o objetivo é exacerbar emoções. Ou seja, aqui o racismo é o crime perfeito – o culpado é sempre a vítima. Trata-se de mais uma contribuição brasileira para as relações fraternas entre as gentes.
De minha parte, troquei de canal. Definitivamente.
***
Beijos combativos, garotas. Abraços indignados, rapazes.
Pra cima com a viga. Boa semana para todos nós.

Entrada proibida

O relato a seguir foi publicado pelo jornalista Wanderlei Soares na sua coluna do jornal O SUL. O referido é verdade e dou fé.
***
Para o Poder Judiciário não há processos de maior ou de menor importância. Há, gravemente ou, simplesmente, processos. Em homenagem a tal princípio, destaco aqui, da minha torre, mantendo em sigilo a identidade de todas as pessoas e autoridades envolvidas, um termo de audiência do Juizado Especial Criminal do Foro Central de Porto Alegre no qual está sacramentado o espírito democrático e salomônico da magistratura gaúcha. O caso envolve a exigência do senhor “K” que exigia, por questões de rixas passadas e presentes, que, H. Baixinho, não mais frequentasse o bar Tuim, no qual os dois se apresentavam como habituês, em mesas separadas, ora para aperitivos, ora para eventuais sessões de repasto. Para os habituês desta coluna, com as omissões citadas, revelo o Termo de Audiência para que se saiba que nem todos os procedimentos criminais tem final trágico. Sigam-me.

Tuim proibido
“Presente o querelante “K” e sua procuradora, a doutora Loura, OAB n° ilegível. Presente o querelado H. Baixinho e seu defensor, doutor A. Dumas, OAB igualmente ilegível. Presente o Ministério Público, doutora J. Darc. Aberta a audiência pela doutora Juíza foi dito que a proposta de conciliação resultou exitosa, resolvendo as partes encerrar amigavelmente o presente feito nos seguintes termos: o querelado H. Baixinho compromete-se, a partir da presente data, 09 de novembro de 2009, a não mais frequentar o bar Tuim, localizado na rua General Câmara, n° 333, bairro Centro, em Porto Alegre, podendo freqüentar outros locais da cidade, ainda que haja a possibilidade de encontro das partes. Fica consignado que o querelado H. Baixinho ainda comparecerá, mais uma vez, no bar Tuim, ou seja, amanhã, dia 10 de novembro de 2009, para quitar sua conta pendente naquele estabelecimento comercial. A partir de então, não mais frequentará o referido estabelecimento comercial. A seguir, diante da conciliação, compromisso firmado e havendo concordância do Ministério Público, determino o arquivamento e baixa do presente termo circunstanciado. Intimados os presentes. Nada Mais. O presente termo foi degravado pelo estagiário F. Kafka Filho em 10/11/2009. Themis Isis, Juíza de Direito.”
W. Soares

Festa!

Ultimamente, não estou vivendo os meus melhores dias. Ando irritadiço e predisposto à violência física, com vontade de pegar um sacripanta pela lapela, encostar na parede e perguntar: “qualé, seu porra?”. Ainda bem que o senador Agripino Maia não mora aqui por perto.
Em busca das origens do mal humor, descartei o inferno astral, que deve iniciar só no mês que vem, peguei algumas coisinhas na prateleira das frustrações profissionais, passei na seção de carências da carne e estacionei no setor de dissabores sentimentais. Aí a cesta de compras ficou abarrotada.
Como acontece sazonalmente, estou de saco cheio de ficar sozinho. Preciso de companhia. Feminina, preferencialmente. Necessito de uma paixão voraz e fugaz, daquelas que fazem a gente perder o juízo, ficar abobalhado, capaz de nos levar ao céu e ao inferno. Minha alma clama por emoções intensas de cama, mesa e banho. Antes que algum engraçadinho sugira que tome um banho frio, informo que já lancei mão da terapia e não resolveu. Os ardores não me abandonaram.
Desta forma, me vi obrigado a adotar procedimentos mais radicais.
***
Preciso de férias e dos folguedos inerentes a este período. No entanto, só poderei desfrutar de uma curta folga na época do Natal e do Ano Novo (não vai chegar nem perto dos 60 dias que julgo merecer). Assim, considerando que não sou um adepto das reuniões dançantes para anciãos, decidi abrir as portas da minha suntuosa morada para receber um petit-comité. Além de um momento de confraternização, a festa será também uma excelente oportunidade de caça, ops, melhor dizendo, de, talvez, dar início a um relacionamento sentimental que deságue em um amor eterno enquanto dure.
Para viabilizar o evento preciso descolar uma grana (dããã...), razão pela qual já está circulando entre os freqüentadores do prestigioso Bar do Alemão – meu segundo lar (algumas vezes primeiro), uma ação entre amigos. São 100 números a 10 paus cada um. O vencedor (se houver, hehehe) levará para casa uma tela erótica pintada pela renomada artista Beti Timm (“Escolhe um quadro e te some daqui!”, disse a bela, gentilmente, quando solicitei que ofertasse um mimo para a promoção).
Além dos comes & bebes, vou usar a grana para contratar algumas atrações, a saber: Ananias, o anão performático que se apresenta besuntado em azeite de oliva extravirgem e Dolly & Parton, uma dupla de ovelhas dançarinas, lésbicas e depiladas.
A simples idéia da festa já me deixou mais animadinho. Pressinto que dias melhores virão.
***
Beijos, divinas moçoilas. Abraços, rapagões.
Pra cima com a viga, moçada.

Encrenca é o meu negócio

Desde o início da semana vejo, ouço, leio e escrevo apenas sobre futebol. Mais especificamente, sobre arbitragem de futebol. A razão são as críticas furibundas e desairosas proferidas pelo presidente do Palmeiras, Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo, contra o árbitro Carlos Simon, meu amado Chefe, logo após o prélio entre Palmeiras e Fluminense, no domingo passado.
É impressionante a capacidade do futebol de fazer com que a barbárie prevaleça sobre a razão. Inconformado com a derrota por 1 X 0, o acadêmico Belluzo, economista de escol, ex-ministro da Fazenda no governo Sarney (argh!), esqueceu a educação refinada e verbalmente agrediu Simon, o árbitro do jogo, com uma violência poucas vezes vista no mundo do futebol. Não vou repetir os impropérios para não me irritar novamente. Como um moleque de rua, ele chegou ao ponto de ameaçar Simon fisicamente, incitando a torcida palmeirense a fazer o mesmo – para preocupação dos familiares do homem do apito e temor de seus filhos.
Na qualidade de assessores de imprensa, eu e meu associado Moah nos fardamos para a guerra não apenas para preservar a honra do Chefe, como também para mandar bala contra o pitbull das arquibancadas. Infelizmente não foi aceita a minha proposta de comandar um esquadrão avançado até São Paulo e dar uma sova de relho trançado no dirigente pouca prática e, aproveitando a viagem, distribuir umas lambadas em alguns luminares da crônica esportiva, igualmente cafajestes.
Assim, combatemos apenas com palavras. Por enquanto.
Apesar dos guinchos de Belluzzo, a caravana passa; Simon deverá ser o árbitro brasileiro da Copa do Mundo de 2010. Mas não saiu incólume da peleja – foi afastado dos jogos da reta final do Campeonato Brasileiro. Não basta estar certo para não ser alvejado por balas oportunistas. Sim, porque a arbitragem de Simon foi correta, como mostram vídeos em exibição na internet. Quem quiser obter mais informações sobre o assunto pode entrar no site do
Safergs (Sindicato dos Ábitros de Futebol do RS) – a nossa trincheira na web.
***
Ultimamente ando compondo versões pornográficas de jóias do nosso cancioneiro popular (a letra que fiz para Guerreiro Menino, do Gonzaguinha é particularmente infame). Por que será? Uma espécie de compensação do cérebro diante de uma situação tensa? Não sei. Por vezes penso que minhas faculdades mentais estão se deteriorando ainda mais.
***
Beijos combativos, damas. Abraços vingativos, cavalheiros.
Pra cima com a viga que a luta continua!

As lições do vil metal

Na pré-delinquência juvenil, nunca precisei de muito dinheiro. Uma penca de gibis (Super-Homem, Batman, Gasparzinho, Bolinha & Luluzinha, Flecha Ligeira, Cavaleiro Negro e Príncipe Valente), doces comprados no armazém do seu Valter, um punhado de balas azedinhas e alguns envelopes com figurinhas dos Ídolos do Robertão – Roberto Gomes Pedrosa, o Campeonato Brasileiro de hoje – satisfaziam as minhas necessidades intelectuais e gastronômicas da semana. Ah, quase ia esquecendo o principal: a grana para as matinês domingueiras do Cine Ipanema. Como se vê, fui um infante de hábitos espartanos.
Porém, já naquela época não existia almoço grátis. Para fazer jus aos benefícios, tinha que seguir um código de conduta, que consistia basicamente em respeitar os mais velhos, confessar os pecados ao padre Antonio no sábado e comungar na missa das 10 de domingo – às vezes atuando como coroinha – não brigar na rua, não proferir palavrões (impossível de obedecer) e ser um aluno aplicado da professora Maria Helena no Grupo Escolar José de Anchieta. Me saía bem, em quase todos os quesitos. Eventuais deslizes, na ótica da mãe, eram punidos com chineladas no traseiro. Registre-se, para a história, que as tundas eram injustas. Ontem, como hoje, nunca fiz nada de reprovável.
Quando ingressei na delinquência juvenil, decidi ganhar o meu próprio dinheiro. Não era justo sobrecarregar o pai com as crescentes demandas da minha sede de aventuras (cerveja, sexo, livros e MPB). Depois de uma rápida incursão na lida com a terra – capina e poda de grama nas casas da vizinhança – ingressei formalmente no mercado de trabalho, como faz-tudo em um escritório de representação comercial. Eu era um contínuo, sempre indo ou vindo de algum lugar. Um “corinho”, na gíria de então – alusão ao vai e vem do prepúcio naqueles momentos íntimos em que os machos da jeunesse dorée prestavam vassalagem no altar de Onã.
Ganhava 120 paus por mês, salário de menor. Aprendi o valor do dinheiro quando economizei três meses para comprar a minha primeira calça Lee (que na verdade foi uma Levis, adquirida na Saco & Cuecão por 80 cruzeiros).
***
Atualmente constato, não sem amargura, que a idéia de que o dinheiro não cresce em árvore, mas sim é fruto do trabalho, está caindo em desuso junto a grande parte da juventude. Não me refiro aos filhos da miséria, para quem o mercado de trabalho é uma madrasta má. Falo dos bem nascidos, os filhos da abastança. Lamentavelmente, conheço jovens que, por terem acesso fácil a tudo o que o dinheiro pode comprar, fazem de suas vidas um sono eterno no que diz respeito à conquista de ambições pessoais e sequer aventam a possibilidade de uma atividade produtiva em prol da coletividade. São parasitas sociais. A culpa não é exclusivamente deles, naturalmente. Grande parte da responsabilidade é dos pais, que abdicaram da tarefa nem sempre agradável de educar os filhos, inclusive financeiramente. Talvez movidos pela noção errônea de que amar a prole é nunca dizer não aos seus quereres, mesmo os mais supérfluos, ou quem sabe assombrados por um passado de carência econômica que querem soterrar, ou ainda por simples comodismo, muitos pais desconhecem limites quando se trata de atender os desejos dos rebentos – aqueles que podem ser comprados com o dinheiro. A intenção pode ser boa, mas, na minha opinião, trata-se de um equívoco brutal, cujo resultado é uma legião hedonista. Viver não é apenas sinônimo de vinhos, mulheres (ou homens) e canções. Inclui também luta e trabalho duro não apenas para ganhar dinheiro, mas igualmente para alcançar ideais não necessariamente monetários.
A vida é melhor e mais decente quando o ter é resultado do fazer honesto.
***
Este texto faz parte da blogagem coletiva sobre
Educação Financeira Infantil, para a qual fui convidado pela Cybele Meyer.


***
Beijos, moças. Abraços, moços. Bom findi a todos.
Arriba, moçada!

Até breve, amiga

Apesar do calor, do sol e do céu azul, o fim de semana não foi legal. Perdi uma amiga e não sei lidar com a perda das pessoas que amo. Na verdade, no caso perda é uma palavra muito forte. O mais correto é dizer abandono, ou, ainda mais certeiro, afastamento (temporário – é o que espero fervorosamente).
Minha amiga confessou que passou a vida inteira brincando com a morte, com a soberba dos adolescentes que, mesmo na idade adulta, se julgam imortais. Segundo suas próprias palavras “naveguei por mares revoltos, experimentei por diversas vezes o gosto dos pecados capitais e ignorei solenemente alguns dos dez mandamentos. Vivi intensamente.”
Somos assim, alguns de nós.
Porém, durante toda a nossa vida a Dama Sinistra está ao nosso lado e vez por outra dá sinais da sua presença, para nos lembrar da finitude da vida. Isto aconteceu com minha amiga recentemente. Ela conta como foi:
“Dia destes, a deusa veio ao meu encontro. Parecia uma bruxa de olhos vermelhos e cabelos de fogo a reclamar minha presença. Ficou ali me olhando por um tempo que me pareceu séculos. Atrás dela, o cenário era uma grande tela. Vários filmes se atropelavam. Em todos, o papel principal era meu. Foram dias em que saí de mim sem me deixar. Não gostei de muito do que vi, mas passado é passado. Serve apenas para nortear o presente e construir o futuro.”
Depois de uma experiência assim, que nos coloca frente a frente com a nossa fragilidade física e, implacável, desperta a consciência para a transitoriedade da nossa presença neste mundo, repensar a vida e redefinir prioridades é uma imposição existencial.
Foi o que fez minha amiga. E entre suas prioridades atuais cultivar o canteiro de afetos virtuais não é uma possibilidade exequível.
Como uma criança mimada, meu primeiro impulso foi protestar. Mas não sou tão egoísta assim. Depois de refletir, só me restou o conformismo. Ela está certa em dedicar-se àqueles que lhe são próximos física e emocionalmente, que lhe querem e a quem ela quer bem. Antes, e sobretudo, a família. Neste caso, as necessidades de um (ela) se sobrepõem aos quereres de muitos (eu e a legião de amigos que já lamentam a sua ausência).
A mim só resta reafirmar o meu querer, carinho, amizade e, porque não dizer, amor. E desejar que tenha uma boa vida – com a mesma beleza, alegria, bondade, solidariedade e sabedoria que até então ela dividiu com seus inúmeros afetos conquistados no universo virtual da web, mas nem por isto menos reais.

Até breve, amiga. Um beijo.

***

Moças e rapazes, boa semana pra todos nós.
Pra cima com a viga!
***
Up date - esclarecendo: minha amiga vive - e assim haverá de ser por um bom tempo. Está abatida em razão de susto recente que a fez redefinir suas prioridades nos caminhos da vida.

Powered by Blogger