A legião de leitores que me honra com sua atenção ("menos, Jens, bem menos", aconselha Bob, o botão da primeira calça Levis que se transformou em minha perene consciência crítica) sabe que um dos principais aspectos da minha personalidade fulgurante é a firmeza de caráter. Pra mim pau é pau (sem brincadeirinhas ofensivas, cavalheiros) e pedra é pedra. Sou um bagual do asfalto. Talvez o último da espécie.
Entre as minhas convicções inabaláveis, está a certeza de que quem não desfrutou a adolescência ao som do grupo Creedence Clearwater Revival não viveu. Sorry, periferia, mas a vida é assim, cruel. Azar de quem não dançou. Quem não dormiu no sleeping-bag nem sequer sonhou.
Pois foi a reconquista desta sonoridade paradisíaca da juventude dourada e transviada que levou-me a abandonar a segurança dos meus domínios reais, no último domingo, e aventurar-me no território íngreme e assustador onde habita o populacho. Na verdade o objeto da minha busca situava-se exatamente na fronteira entre as terras de fartura, leite, mel e Jack Daniel´s – o meu reino encantado, onde sou déspota esclarecido – e as paragens onde prevalecem o fogo, a dor da violência e o ranger de dentes da miséria, habitadas pelos que, talvez (porém, todavia, contudo, entretanto) um dia herdem o reino dos céus.
No entanto, a sociologia barata estava distante das minhas preocupações naquele momento. Minha caça era o Lara, e meu alvo uma jukebox.
Abre um longo parêntesis explicativo.
O Lara, para quem ainda não sabe, é um empresário audaz da vizinhança, que conseguiu a proeza de unir a administração de um armazém de secos & molhados com a gerência de uma casa noturna de diversão. Ou seja, ele atende a todas as carências da carne, sejam elas de mesa ou cama. Ambos os estabelecimentos funcionam lado a lado, às vezes com concomitância de horários. A sogra do Lara, dona Veridiana, eventualmente fornece consultoria espiritual e amorosa, através do uso de cartas do tarô, para clientes especiais (traz o seu amor de volta em 24 horas!). Por diversas vezes usei os serviços do intrépido empresário, em todas as modalidades oferecidas, e nunca tive razões para recorrer ao Procon. Em todas ocasiões contei com a proteção de uma escolta gentilmente colocada à disposição em deferência a minha posição social superior, conquistada depois de quatro anos de estudo abnegado na Faculdade dos Meios de Comunicação da PUC. A choldra reconhece o valor da educação formal.
Mas naquela tarde calorenta que convidava à modorra, não consegui um contato antecipado com o Lara, a fim de garantir salvo conduto. Porém, destemido - sou bagual que não se entrega assim no mais - rumei para a selva, movido pela perspectiva de conseguir emprestada, sem custos, a jukebox que o Lara mantém na casa de diversão noturna. Isto porque constatei, depois de uma acurada pesquisa, que é a única das redondezas que toca músicas do Creedence Clearwater Revival, sendo portanto imprescindível para abrilhantar a festança que brevemente vai animar os salões suntuosos do castelo que me serve de morada (era para ser uma recepção petit-comité, mas se espalhou. Estou vendendo ingressos e selecionando os convivas. O regabofe vai dar lucro). Ananias, o anão performático, já está contratado, assim como já assegurei a presença de Dolly e Parton, as ovelhas lésbicas depiladas. A jukebox com o som dos anos 70 é a cereja do bolo para garantir o sucesso do evento.
Fecha o longo parêntesis explicativo.
Quando cheguei ao estabelecimento, no meio da tarde domingueira, o ambiente estava tenso. O Lara, sem camisa, exibindo a barriga proeminente e reluzente, carantonha vermelha e copo de cerveja na mão, vociferava:
- Corno, não! Corno, não! Ela me paga!
Subitamente despertos, Moe, Larry e Curly, os três neurônios que ainda me restam, aconselharam:
- Te manda!
Bob, a consciência crítica, corroborou:
- Sai fora daqui!
Não sem o que vim buscar, pensei (eu sou tri-macho). Assim, resoluto, fui em frente.
- O que aconteceu? – perguntei com a solicitude que me é peculiar.
O Lara tomou um gole de cerveja antes de me abraçar.
- O fim do mundo, dr. Jens. A casa caiu!
Preparei-me para ouvir uma história triste.***
Continua na sexta-feira, devido ao adiantado da hora (sim, eu durmo, uma noite ou outra).
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Beijos, princesas. Abraços, aldeões.
Pra cima com a viga todos nós.
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(Quem quiser ouvir o som do Creedence Clearwater Revival: Who'll Stop The Rain, é só clicar na imagem lá em cima).