(Querido leitorado: em razão de incompreensíveis lapsos de memória - uma brincadeira de Baco ou uma travessura de Afrodite? -, não tenho condições de produzir um relato fiel do que foi a festa que promovi no último final de semana. Por esta razão, devidamente autorizado reproduzo a reportagem do conceituado colunista social JJ Jabá, designado especialmente para fazer a cobertura do regabofe para um conceituado jornal matutino da grande imprensa gaúcha. A recepção já entrou para a história dos movimentos sociais relevantes da Vila Nova. Todos se referem ao acontecimento como O Evento – o dia em que a Zona Sul tremeu. Tudo é verdade).
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Poucas vezes o circuito fashion da capital gaúcha se revestiu de tanto luxo e elegância como no fim de semana passado por ocasião do encontro social promovido pelo honorável Jens, o escriba mais talentoso do aprazível e aristocrático condomínio Esplanada do Poente, localizado nas Terras Altas de Ipanema, reduto de quem sabe cultivar o bom viver.
Personalidades – Seguindo a tradição britânica de pontualidade, às 8 horas da noite de sexta-feira, os serviçais abriram as portas do suntuoso castelo para receber o crème de la crème da sociedade guasca. Entre outros, estavam lá pesos pesados do comércio de secos & molhados, como o audaz empresário Lara, acompanhado da bela Ivonete, deslumbrante num longo roxo delicadamente ornamentado por gigantescas flores amarelas, e da sogra Veridiana, desfrutando o esplendor da melhor idade ainda esbelta e esperta (no decorrer da festa faturou alguns trocados fazendo leitura de mãos e colocando cartas para clientes sequiosos por antecipar o futuro). Também circulava pelos amplos salões, todo pimpão, o Alemão – outro capitão do comércio – em companhia da doce e paciente Mana. Entre as figuras de proa da intelectualidade gaudéria, destacava-se o animado e sempre ferino Caloca, intelectual orgânico eternamente desempregado por convicção ideológica. A classe trabalhadora do campo e da cidade estava representada pelo Jorjão, contumaz barranqueador de éguas, que se fez acompanhar pela tordilha Mansinha, sua amásia (que, por exigência dos fiscais do Ibama, ficou pastando no jardim). Marisinha, locomotiva da nova geração, secretária eventual do Jens e musa vitalícia do Bar do Alemão, democraticamente eleita, circulava com a desenvoltura de uma habitué do local. Lígia, a vizinha gostoduzulda, igualmente atraía olhares de cobiça e luxúria deles e delas.
Sólidos & líquidos - Irrepreensível a mesa farta e variada de comes & bebes. Ovos e pepinos em conserva, aliados a picadinho de queijo e salame da colônia italiana de Caxias do Sul e Bento Gonçalves (importados pelo empresariado local especialmente para a ocasião) garantiam a contraposição sólida recomendável à ingestão de líquidos de teor alcoólico. O primeiro prato de resistência, servido de madrugada, foi um leitão assado em forno à lenha – um manjar para paladares refinados. No quesito bebibas, foi generosa a oferta de cerveja (Skol, of course) e aguardente de cana vindo diretamente dos alambiques mundialmente famosos de Santo Antonio da Patrulha. O anfitrião, homem de hábitos requintados, optou, com exclusividade, pelo néctar do Tennessee produzido na destilaria do venerando coronel Jack Daniel´s.
Bola preta - Entre as atrações culturais, uma pequena mácula foi a recusa de Ananias, o anão performático, de ser o protagonista do AA, jogo popularizado pelo célebre escritor carioca Rubem Fonseca em uma de suas obras (para quem não sabe: AA é Arremesso de Anão). Bola preta para a falta de esportividade de Ananias.
Sensualidade e competência - Por outro lado, merece louvação a competência recheada de lascívia da apresentação de Dolly & Parton, as ovelhas lésbicas depiladas. Exibiram os dotes de dançarinas no Cancan, depois esfregando-se lubricamente em um poste e a seguir reeditando o bailado da garrafa. No grand finale, à media luz, excitaram a todos ao justificar a razão da alcunha que as definia juntamente com a condição de depiladas. Neste momento, a temperatura subiu – um calor eivado de sensualidade. Vetustos cavalheiros coçaram e apalparam vigorosamente os países baixos. O biólogo Thomas Huxley diria tratar-se de uma boutade evolucionária. Já o neto Aldous, menos sarcástico, classificaria como o hábito de um povo jovem, sempre inclinado a testar manualmente a própria virilidade.
Bola branca exemplar – Que sirva de exemplo para as gerações futuras o profissionalismo extremado de Dolly & Parton. Foi comovente a placidez com que se submeteram ao sacrifício para atender aos clamores da plateia que reivindicava provar literalmente das suas tenras carnes, devidamente assadas na brasa, o que de fato aconteceu. Bola branquíssima. Valeu, garotas.
As mais mais – Marisinha, num luxuriante e minúsculo vestido vermelho, provocou suspiros, gemidos, piadinhas obscenas e demonstrações ruidosas de virilidade entre os machos presentes. Já a coxoduzulda da Lígia, num torturante pretinho básico, gerou amuos e ameaças de divórcio por parte das senhoras casadas. Resmungos em vão. Há indícios – apesar de fortes, não confirmados cabalmente – que a bela não resistiu aos encantos do senhor do castelo e terminou a festa aconchegada nos seus braços musculosos, no leito real. A conferir.
Ápice – O momento mais emocionante foi a alvorada festiva. Às 6 horas da manhã houve queima de fogos e execução dos hinos do Rio Grande, do Glorioso Colorado dos Pampas e da Internacional Comunista, (clique para ouvir!) que os presentes cantaram com a mão direita no peito e o braço esquerdo erguido, com o punho fechado. O Jens derramou uma lágrima. Eu vi. Depois da cerimônia, os convidados que ainda estavam de pé deliciaram-se com Dolly & Parton. Antes da refeição oraram em memória das mártires. Por fim retiraram-se para os respectivos lares, os de nível social mais elevado gentilmente rebocados pela Brigada Militar e os demais conduzidos pela criadagem em simpáticos carrinhos de mão – uma visão matinal de rara beleza.
Este é o meu testemunho.
Beijos, divinas. Abraços, mortais. Ademã que eu vou em frente.