Um bom bagual

Hoje é o aniversário do Edu. Não sei exatamente quanto tempo o conheço, mas foi (e é) através da blogosfera que entabulamos contato. Trata-se de um bom rapaz. Jovem, na casa dos 30 anos, caminha com segurança para o auge da maturidade, já a bordo de um currículo respeitável: profissionalmente bem encaminhado, poliglota, homem do mundo – esteve nos países nórdicos, eventualmente distribui seus conhecimentos profissionais em localidades da América Latina e também ensina alguma coisinha para os gringos do norte.
Mas o Edu não é só trabalho.
É também um apreciador da boa mesa (apesar de uma certa resistência às delícias da carne vermelha) e da boa música. Tem uma postura pragmática diante das coisas da vida. Consciente de que, como disse o bardo inglês, ninguém vive impunemente as delícias dos extremos, ele caminha pela existência com moderação, equilibrando-se com habilidade na fina linha divisória entre o calor da emoção e a frialdade da razão. Apesar dos meus estímulos para que se jogue sem peias no turbilhão das emoções mundanas, com especial atenção para os domínios de Eros, o Edu não perde o tino. Sabe que viver não é um caminho para cavaleiros descuidados. Ao contrário do que sou, ele não é um porralouca. Não se pense, porém, que é uma destas figuras amorfas, que se limita a ficar na janela e ver a banda passar. Também toca as suas canções de amor (é bem resolvido sentimentalmente) e de combate (indigna-se com as injustiças, abomina preconceitos e tem fortes inclinações socialistas - de acordo com a minha percepção).
Mas o Edu também tem seus defeitos: a ojeriza ao fumo e às bebidas álcoolicas são as anomalias mais evidentes - igualmente de acordo com os meus critérios. Tudo bem, a perfeição não existe.
Enfim, o Edu é um cara batuta, um bagual de Sampa.
Eu bebo a isto. Salut!
Feliz aniversário, camarada. Vida longa, paz e prosperidade.
***
Amazonas e centauros, comemorem comigo. O Edu merece.
Bom findi para todos nós.
(Ah, o Edu também é um escriba talentoso e, algumas vezes, abusado, como pode ser conferido aqui no seu blog).

Estaca Zero


Saudades - do que já foi (o primeiro beijo); do que poderia ter sido (o primeiro amor); do que ainda está por vir (???!!!).
Correio sentimental - Lobo cansado e carente procura companheira que saiba lavar, cozinhar, fazer cafuné e, de manhã cedo, quando (ela) for trabalhar dê beijo de tchau. Se deixar algum trocado por garantia, melhor ainda. De minha parte, ofereço carinho e atenção totais. Como um bom escoteiro, estarei sempre alerta.
Cartas para a redação.
Who are you? - Jonatan e Natanael são gêmeos univitelinos (idênticos). São companheiros de peraltices do Chandler, meu sobrinho-neto. Assim como os demais adultos, eu (apesar das dúvidas quanto a minha maturidade) não consigo diferenciá-los. Por isto, evito chamá-los pelo nome, pois não gostam de ser confundidos. Já o Chandler, 9 anos, e Ana Clara, sobrinha-neta de 3 anos, conseguem - sabem quem é quem. Como?, perguntei ao infante guerreiro. Ele não soube responder. Simplesmente sabe.
O que as crianças têm que nós perdemos?
Enigma fecal – Preparem-se, lá vem nojeira. Os banheiros dos botecos, não apenas os florianapolitanos, me intrigam. A descarga dá conta valentemente de um xixizinho. O cara vai, desfaz-se do excesso de líquido no organismo, puxa a descarga e tudo bem, lá se vai a mistura de cevada, lúpulo, uréia, ácido úrico e quejandos. Mas se o cidadão, numa situação de urgência, vê-se obrigado a despejar algo mais sólido, não há descarga que dê jeito. O troço fica boiando faceiro, zombando da gente: decifra-me ou te devoro. Não consigo entender esta resistência do cocô de boteco em seguir os trâmites normais da existência.
Diante da visão abominável, geralmente vomito. Sou um bagual sensível.
Estaca Zero - Estou me sentindo esquisito nos últimos dias. Não estou angustiado, não tenho pesadelos nem pensamentos soturnos em relação ao destino da humanidade.
Estou sereno, como nos versos de Ednardo e Climério em Estaca Zero: “E a gente fica sereno/ Desconhecendo o destino/ E com um sorriso besta/ De quem sabe onde chegar/ (...) Mas faz de conta que sabe/ Que tem um canto da estrada/ Chamado estaca zero/ Onde a gente pode dizer/ O rumo que quer tomar”.
***
Beijos ensandecidos de paixão, deusas dos lares, ruas, esquinas, praças e avenidas. Abraços recheados de testosterona, varonis combatentes.
Pra cima com a viga, moçada!

Guerra no céu

Ainda estou em Flopis. Em duas semanas engordei 5 quilos, metade da meta a que me propus no início do ano – chegar aos 70. Estou bonito e “possante” como diria a mãe. Faço quatro refeições por dia, a saber: café da manhã, almoço, lanche e janta, fora os penduricalhos gastronômicos nos intervalos. A mana Rosa é uma mulher à antiga: comer, comer, comer para melhor crescer.
Outro hábito saudável que adquiri é acordar cedo. Às 7 horas sou um homem pronto para a luta. O que estraga o meu humor, eventualmente, são as caretas do Renato Machado e da Miriam Leitão no Bom dia Brasil. Não é um mundo perfeito.
Caçadores de pipas - Comentei, brincando (mas não tanto), que poderia facilmente me adaptar, por um longo período, à vida por aqui – comer, beber, dormir e escrever o inevitável para garantir os meus hábitos de consumo refinados, como o néctar proveniente da sucursal paraguaia da destilaria do coronel Jack Daniel´s. Recebi entusiasmados apoios, em especial do meu sobrinho-neto Chandler, companheiro das noites de filmes sanguinolentos e das tardes de pipas ao vento; estou aperfeiçoando-o na arte de detonar – cortar – pipas alheias. Todos os dias travamos batalhas no céu. Na semana passada abatemos quatro inimigos. (Tá, eu sei sobre os perigos do cerol, mas – por favor, senhoras! - sou um adulto responsável e cuidadoso. Não há o que temer).
O único que não se mostrou feliz com a possibilidade da minha estada prolongada foi o cunhado Beto: em pânico, olhou para os céus e murmurou um pedido aos deuses. Acho que foi “Tudo, menos isto. Piedade, piedade, piedade...”
Dreams - Tenho tido uns sonhos estranhos. Um dia destes sonhei que circulava pelos botecos elegantes da vida vestido de mulher – eslaque (alguém ainda se lembra?) preto, justíssimo, bata vermelha e peruca castanha, resvalando para o loiro. Aparentemente, minha intenção era saber como as mulheres vivem. Estava no banheiro, tentando me livrar da calça (empacou nos quadris) quando acordei. Quase fiz xixi na cama.
Ah sim, até onde me lembro, eu era coxoduzulda, tri gostosa. Só não recordo se tinha peitos fartos e ofegantes.
Business - Tive uma idéia genial para faturar uma grana. É o seguinte: notei que nós, os machos da espécie, temos um problema constante com o controle remoto da tevê. O aparelhinho está sempre caindo no chão ou extraviado. Alexandre, o Cavaleiro Andante da Mari Timm, já saiu da casa de um amigo com o controle no bolso. Da mesma forma, também já levei o meu para passear no bar. Considerando esta relação íntima, minha idéia é colocar no mercado o Porta Controle Remoto – um invólucro feito couro (para os mais abastados, que poderiam gravar seu nome com letras de ouro), crochê (para a turma politicamente correta, que poderia ostentar mensagens positivas tipo “Ame as árvores e os passarinhos”) ou plástico (de preço mais acessível para a plebe rude, que, graças a política do presidente Lula, também tem acesso ao que há de mais moderno na tecnologia televisiva).
O troço, ou melhor, o Porta Controle Remoto ficaria junto ao corpo, suspenso perto do coração por um cordão em volta do pescoço. Os muitos ricos poderiam optar pela versão em metal nobre – ouro ou platina. A idéia é oferecer o produto também na versão dupla, para o controle do dvd.
Como sou um otimista exagerado - e tenho alguns contatos em Brasília -, penso que o genial presidente Lula poderia instituir a Bolsa Porta Controle Remoto e assim encerrar com chave de ouro a sua administração.
Vou ficar rico.
Aceito sócios na empreitada.
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Beijos, deusas na terra nascidas. Abraços, companheiros de adoração.
Pra cima com a viga!
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PS: orientado por minha assessoria jurídica, informo que não poderei detalhar meu affair com Pedrinho nas areias de Ipanema no tórrido verão de 1970. Segundo os causídicos, as revelações poderiam dar origem a um processo por danos morais. Só posso dizer que a idéia inicial era um troca-troca (“meia”, como chamávamos então), só que eu, já então um adorável trapaceiro, não troquei – se é que vocês me entendem...
Mais não digo. Perdão, leitores.
Boa semana pra todos nós.

Os rituais do adeus

Quarta-feira passada fui à missa. Fazia anos que não entrava em uma igreja, sou um católico errático.
Antes de prosseguir, uma revelação: acredito em Deus. Fui batizado, fiz a Primeira Comunhão, acompanhei procissão, fui coroinha, confessava com o padre Antonio todos os sábados e não perdia a missa das dez do domingo. Aos 16 anos li Porque Não Sou Cristão, livro de ensaios de lord Bertrand Russel, e virei ateu. Dois anos depois, incomodado com esta situação, me encarei, refleti e por fim decidi: acredito em Deus. Nunca mais abandonei o reino do Senhor. O ateísmo exige uma dose vitaminada de racionalidade. Mas comigo "a anatomia ficou louca; sou (quase) todo coração". A crença, ainda que seja um cristão relapso, torna a minha vida mais fácil de viver. Na verdade, fácil não é o adjetivo correto, mas vamos em frente.
O que me levou à igreja foi a missa pelo 7° dia de falecimento da mãe. A exemplo do que aconteceu no velório - onde houve choro, mas não desespero - me impressionaram os novos ritos católicos, com canções e intervenções dos fiéis, através da leitura de textos bíblicos. Antigamente não era assim; o padre tinha a supremacia da palavra. Os fiéis limitavam-se simplesmente a responder... em latim, nos primeiros tempos. Hoje, tudo está mudado. Até mesmo as réplicas – “O Senhor esteja convosco.” “E contigo também”, respondíamos; hoje é “Ele está no meio de nós”. Existem inovações impensáveis em outras épocas, como o uso de instrumentos musicais e de retroprojetor para exibir as letras das músicas cantadas na cerimônia. Também reparei na ausência do suporte (não sei o nome exato) na frente ou atrás dos pés dos bancos, conforme a posição do fiel, onde a gente se ajoelhava. Hoje em dia poucos são os que se prostram diante do Senhor.
Bem, seja como for, ambos os rituais – o velório e a missa – tiveram o poder de reconfortar, amenizar a dor da perda, aplacar a angústia da saudade. As palavras de fé e esperança, o simbolismo da cerimônia, a ideia de que existe um outro mundo (melhor) além deste, são mecanismos de consolo extremamente eficientes.
Alguns de nós precisam destes lenitivos para seguir adiante.
***
Beijos, divinas damas. Abraços, leais cavalheiros. Bom findi pra todos nós.

Pra cima com a viga!

Esquinas

Muito do que sou – para o bem e para o mal – devo às esquinas de Porto Alegre. Nestas quebradas, malandramente me tornei cavaleiro, e também cavalheiro, antes passando pelos estágios da delinquência juvenil e da porralouquice de adulto iniciante (segundo meus detratores, desde então não mudei muito).
Uma das principais esquinas da minha adolescência foi a confluência da avenida Tramandaí com a rua Dea Coufal, em Ipanema. Ali era o ponto de encontro da turma nas noites de sábado. Se havia dinheiro farto, bebíamos chope ou caipirinha de vodka acompanhada de sanduíche aberto no Bolognha, que ficava em frente. Se a verba era escassa, uma cerveja no boteco ao lado do posto de gasolina. Se inexistia grana, dividíamos cigarros e falávamos de garotas.
Foi este local que propiciou uma das descobertas sexuais mais interessantes e, porque não confessar?, prazerosas da minha existência já então ardente e aventureira. Aconteceu numa noite de sábado de verão. Eu estava solitário na esquina quando o Pedrinho apareceu e fez um convite prenhe de segundas intenções:
- Vamos passear na praia?
"Oba!", pensei, hoje vou afogar o ganso.
***
(- Epa, epa! Opa, opa! Peraí! – interrupção abrupta de Bob, o botão de minha primeira calça Levis, hoje investido na função de consciência critica.
- Qualé o problema?, seu porra!
- Tu vai contar a história com o Pedrinho?
- Vou.
- Enlouqueceu?
- Ué, não tem nada demais.
- Como não?, seu lorpa. Vai que amanhã tu concorre à presidência da República. Teus inimigos podem usar o episódio para dinamitar tua candidatura.
- Mas foi uma coisa normal. Aliás, atualmente é mais normal do que ontem.
- Nunca desdenhe o poder do preconceito, seu tonto. Além disto, alguns dos teus leitores podem ficar estupefatos.
- Hummm... acho que tens razão. Em nome dos interesses maiores do nosso povo, me calarei. Aliás, aproveitando a oportunidade gostaria de declarar que sou um soldado do povo e, se ele assim o exigir, em 2014 estarei pronto para assumir o comando da nossa pujante nação.
- Tá, tá, deixa a demagogia para depois. Te coordena, abobado da enchente*).
***
Então, adiante. Sorry, Pedrinho.
***
Outra esquina marcante da minha vida foi a junção da avenida Borges de Medeiros com a rua da Praia, conhecida hoje como Esquina Democrática. No início era local do footing dos dândis da capital dos gaúchos (sim, um bagual também pode ser elegante), onde a gente ficava olhando as pernas de louça das moças (e, como na música do Chico, não podia agarrar). Logo vieram tempos menos aprazíveis, e a esquina passou a abrigar manifestações ruidosas e iradas contra os gorilas fardados que estavam no poder. Foi numa delas que recebi o meu batismo de fogo, ou melhor, batismo de borracha – um brigadiano me acertou uma cacetada nas costas durante um ato pela anistia ampla, geral e irrestrita. Malditos gorilas!

***
Paulatinamente abandonei as esquinas. Chegou o tempo de namorar e conspirar nos bares da vida.
Ficaram os versos de Djavan: só eu sei as esquinas por que passei.
Beijos, gurias. Abraços, guris.
***
Abobado da enchente é uma expressão genuinamente porto alegrense, que tem origem na enchente de 1941, quando o centro da cidade foi inundado. Agora, quem era o abobado e o que ele fez pra ter uma expressão em sua honra, ninguém sabe.
***
Pro alto e avante!

O xixi da discórdia


As cenas são impressionantes: na tarde da segunda-feira de carnaval guardas municipais do Rio de Janeiro perseguem foliões que fazem xixi nas ruas da cidade maravilhosa. Alguns cidadãos sequer tem tempo de ocultar o seu...ãh...hummm... vocês sabem o quê. Igualmente, duas cidadãs são flagradas ainda abaixadas e mal têm tempo de recompor-se e tentar a fuga mal sucedida (nestas horas é bom ser homem, hehehe...). A ação dos intrépidos guardiões da lei foi mostrada no Jornal da Record. Eles se empenhavam em fazer cumprir a lei municipal que proíbe fazer xixi nas ruas, becos e vielas do Rio.
 - Não vamos permitir que a cidade se transforme em um mictório a céu aberto – garantiu um valoroso servidor público.
Nada mais justo e louvável. É extremamente desagradável o cheiro de xixi curtido no sol. Os banheiros químicos, porém, não davam vazão à demanda: 1 para cada grupo de 625 foliões - todos devidamente abastecidos por doses industriais do néctar dourado produzido a partir do malte e do lúpulo. Assim, é compreensível que, na hora do aperto, muitos tenham tentado burlar a lei. 200 foram parar na delegacia.
No intuito de colaborar com os mijões cariocas, apresento uma sugestão: carregar uma mochila com garrafas pet vazias, que funcionariam como uma espécie de mictório particular. Na hora H bastaria colocar o hã...hummm... vocês sabem o quê na boquinha da garrafa e fazer o serviço. Os mais sedentos, por assim dizer, podem usar as garrafas de 20 litros de água mineral. A idéia não é original. Francisco Assis Chateaubriand Bandeira de Mello, o Chatô, usou expediente semelhante na Abadia de Westminster, quando foi assistir a coroação da rainha Elizabeth II, nos anos 50.
Para a urgência feminina ainda não encontrei solução (sorry, ladies).
Confesso que fiz muito xixi na rua. Reguei muitas árvores e banhei muitos muros, inicialmente nos intervalos dos prélios futebolísticos nos campinhos de Ipanema, depois, mais taludinho, na volta das reuniões dançantes. Nestas ocasiões, o anúncio "vou dar uma mijada" funcionava como uma senha desatreladora (porra, que palavra!) de bexigas, confirmando a observação de Vinicius de Morais: "quando um brasileiro mija, todos mijam". Até mesmo o cusco que eventualmente nos acompanhava levantava a pata.
Era uma mijação feliz.
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Beijos, damas (perdoem a escatologia). Abraços, rapazes (boa sorte nos concursos para ver quem faz xixi mais longe).
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Pra cima com a viga, moçada!

Educação sentimental


Tão logo ultrapassava o portão eu começava a berrar:
- Não fiz nada, mãe. Foi ele que começou.
- Não interessa! Entra!
- Não, mãezinha, não! Sou inocente.
- Tu sabe que não é pra brigar na rua. Vou contar tudo pro teu pai quando ele chegar.
- Ai, ai, ai! Socorro!
O chinelo, implacável, fustigava o meu traseiro.
Houve uma época em que as chineladas eram diárias, sempre no final da tarde. Os motivos eram variados, todos justos: brigas, palavrões dirigidos à vizinhança, sumiços intempestivos (uma vez quase fui atropelado na pracinha em frente a igreja, pelo único táxi do bairro; antes de chegar em casa, a mãe já sabia), fundaços erráticos que atingiam as residências das redondezas... Eu era um potro selvagem. A mãe, uma domadora determinada.
Seria injusto classificar aquelas chineladas corretivas como surras. O chinelo de pano era velho e macio. Não machucava. A gritaria era só uma tentativa de criar constrangimento junto às vizinhas e escapar impune. Porém, estas também eram mães e lidavam com os mesmos artifícios. As artimanhas nunca funcionaram.
Porém, nem todos os lares eram assim. Havia casos de espancamento puro e simples ou castigos com vara de marmelo.
À noite, na mesa de jantar, a mãe fazia para o pai o inventário das nossas estripulias diurnas (comparado à mana Rosa, eu era um anjo). Sorrindo, ele ouvia atento, antes de nos ofertar seu carinho. A mana era a sua Preta e eu o seu Negrão. A mãe sacudia a cabeça, tentando ocultar o sorriso de compreensão desenhado nos lábios. Bem mais tarde, entendi o pacto que havia entre eles: à mãe cabia o trabalho (braçal) primordial de disciplinar os pequenos selvagens habitavam em nós (assim como em todas as crianças), nos civilizando, por assim dizer, nos fazendo diferenciar o certo do errado. O pai, além de provedor material, era o mentor intelectual, quem estabelecia as diretrizes éticas e morais que deveríamos seguir. Nunca ergueu a mão para os filhos. Sua repreensão  era através do olhar e das palavras, sempre invocando  a razão e a reflexão ("tu acha que isto está certo?"). Não era preciso mais.
Nos dias de hoje talvez este arranjo seja considerado arcaico. Mas com a gente funcionou.
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Beijos encantados, garotas. Abraços másculos, rapazes.
Pra cima com a viga!
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PS: Blanche DuBois, personagem criada por Tennessee Willians na peça Um Bonde Chamado Desejo, dizia que dependia da bondade de estranhos. Eu não. Em momentos de melancolia preciso (e desejo) da presença de amigos - ou simplesmente de quem me queira bem - mesmo que na distância imposta pelo universo virtual. Assim, obrigado a todos os que passaram por aqui nos últimos dias. Valeu a força.

Réquiem

Pouco antes da meia-noite de segunda-feira, 8 de fevereiro, ela foi embora. Estava cansada.
Meu primeiro impulso emocionado é declarar que foi uma mulher excepcional. Seria um exagero ditado pelo amor. O mais correto é reconhecer que foi simples e determinada – por vezes sujeita a imperfeições – na sua trajetória por este mundo. Foi humana, demasiadamente humana. Na tarefa a que se propôs, cuidar da família e fazer o bem, foi vitoriosa.
Nos últimos dias não escondia o cansaço, a solidão dolorida que nunca a abandonou, desde que seu companheiro de uma vida recheada de lutas e afetos a deixou, seis anos atrás. Queria ir embora, juntar-se a ele.
Assim, no dia 8 de fevereiro, aos 82 anos, Dona Arminda foi morar no infinito, junto com Seu Antonio – a mulher franzina e o homem magro que escolheram ser minha mãe e meu pai, bem como da mana Rosa.
Por vontade dos Deuses, fui a testemunha solitária da sua partida.
Valeu a vida vivida, mãe. Obrigado por tudo.
Estou com saudade.
Dá um beijo no pai.
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Damas e cavalheiros, beijos e abraços.
A vida continua (um pouco mais triste). Pra cima com a viga.

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