Apagão
No último sábado de março, dia 27, encontrei meu associado Moah no Muffuletta (Muffu, para os habitués), no início da noite. Pedimos o de sempre. Para ele bourbon, o uísque de milho feito no Kentucky, o preferido de William Faulkner; para mim o néctar produzido nas destilarias do coronel Jack Daniels, no Tennessee, o predileto de Charles Bukowski. Apesar de racistas, os caipiras do Sul dos EUA não eram de todo ruins, tanto que produziram estes dois tesouros líquidos que hoje integram o patrimônio etílico da humanidade. Isto prova que anjos e demônios habitam em nós.
A conversa girava em torno do assunto habitual - as mulheres das outras mesas.
- Olha ali, discretamente, que pitéu! (o Moah, com o passar do tempo, transformou-se em um cavalheiro à antiga. Só falta usar bengala, polainas e pincenê).
- Putz, que coxoduzulda! (eu, ao contrário, continuo um bagual de estância, cada vez mais desbocado).
- Olha só, olha só, que deusa!
- Bah, acho que vou ter um troço.
Estávamos assim, conversando amenidades e olhando as pernas das moças - ultimamente é única coisa que fazemos: olhar e comentar - quando tudo ficou escuro.
Apavorado, gritei como se fora uma mulherzinha.
- Ai, fiquei cego! Socorro!
- Calma – pediu o Moah.
- Um médico, preciso de um médico, estou cego! – insisti, histérico.
Meu associado me deu um tapaço nas costelas.
- Começou A Hora do Planeta, seu bolha.
Entendi mal.
- O QUÊ? A hora final do planeta? SOCORRO!
- A hora, a HORA do planeta. Tá surdo?, seu tonto.
Os nervos abalados (sou um bagual sensível, como todos sabem) me fizeram persistir no equívoco auditivo.
- Não quero morrer! – berrei aos prantos.
Pressentindo que meu apelo não seria atendido, já que era o fim do mundo, resolvi aproveitar os meus últimos minutos de vida na Terra para purgar os pecados da carne mais graves, aqueles que poderiam me levar diretamente ao Inferno. Minha intenção era garantir uma vaga no Purgatório, considerando, pelo meu histórico existencial, o Paraíso uma improbabilidade e o Céu uma impossibilidade.
- Senhor, perdoai-me. Aquele lance com o Jorge, e também com o Paulinho e o Pedrinho, foi sem querer. Eu era uma criança. Sacumé, né Deus, a carne é fraca.
A mulherzinha coxoduzulda que vive dentro mim estava tresloucada.
Percebendo que eu estava fora de controle, o Moah radicalizou. Jogou um copo de água gelada na minha cara. O choque deu resultado, o bagual reassumiu o comando das emoções.
- Pô, qualé? Enlouqueceu?
- Te liga, hoje é o dia da Hora do Planeta.
- Não tô sabendo. Que troço é este?
- Putz, quanta alienação. E o seguinte: das oito e meia às nove e meia às luzes vão ficar apagadas, para mostrar que estamos preocupados com o aquecimento global. É uma forma de protestar e alertar ao mesmo tempo.
- Ah, entendi.
Envergonhado, olhei em volta. Todas as mesas, inclusive a nossa, estavam iluminadas por velas. As Deusas sorriam, divididas entre a indulgência e o sarcasmo. Obviamente, qualquer possibilidade romântica existente antes do episódio estava completamente soterrada. Percebi que o Moah estava tristonho. Desculpei-me.
- Pô, foi mal.
Ele me fuzilou com os olhos e respondeu com um palavrão.
Renovamos as doses e bebemos em silêncio.
O mundo não acabou. Ainda.
***
Beijo e abraços encabulados, moças e moços.
Pra cima com a viga!
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PS pascal – o coelhinho antecipou-se e deixou este vídeo como presente de Páscoa. Cristóvão Feil, do Diário Gauche, explica do que se trata: “172 alunos de Comunicação da Universidade de Québec à Montreal (UQAM), do Canadá, fizeram este vídeo no primeiro dia de aula em setembro último. Levaram 2 horas e 15 minutos para gravar o vídeo com a música do grupo hip-hop Black Eyed Peas. Simples, divertido, sem a estupidez dos trotes que conhecemos. E integrador. Na Universidade de Montreal, campus de Quebéc, há uma semana dedicada à integração dos alunos ao chamado "espírito universitário", com brincadeiras, jogos, exibição de vídeos, peças teatrais, e registros dos alunos (como esse).
Ah!, e ninguém reclamou do tamanho da saia das meninas...”
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Eu gostei. É possível que vocês gostem também. Tenham todos uma boa Páscoa.
Eu gostei. É possível que vocês gostem também. Tenham todos uma boa Páscoa.






