Chá, aspirinas e biscoitos
Pulta Melda, quase fui para a cidade dos pés juntos. Sério, passei tri-mal nos últimos dias.
Os primeiros sinais de que algo estava errado surgiram na sexta-feira passada: calafrios, coriza, pressão arterial oscilante. Como convém a um bom bagual, imediatamente entrei em pânico moderado e fui para a janela principal do castelo em busca de ajuda feminina (em momentos assim, só uma mulher sabe cuidar de um homem).
- Socorro, estou doente! Preciso de ajuda! – supliquei aos berros.
Em resposta, obtive três manifestações desanimadoras, duas com voz masculina:
- Sai daí e fecha a janela, Matilde. Este cara é doido.
- Vai te ferrar, vagabundo!
- Bem feito, seu tarado ingrato! – completou uma dama certamente agastada com a minha reconhecida falta de fidelidade amorosa.
Diante da recepção glacial da vizinhança, passei para o segundo estágio do bagual em apuros: o pânico delirante. “Querem acabar comigo; é uma conspiração dos deuses”, pensei enquanto me arrastava até o telefone. Liguei para a Beti Timm. Julguei que, em memória dos bons e velhos tempos, não me negaria auxílio nesta hora aziaga.
- Tô glabgulub doente – balbuciei. Meu cérebro enfermo prejudicava a comunicação.
- O quê? Não entendi.
Fui mais enfático:
- TÔ Glabgulub DOENTE.
- Ah, tá doente? O que tu tem?
Alinhei os sintomas.
- Não é nada. Só uma gripezinha, toma um chá com aspirina e vai te deitar que passa. Tchau.
Despreocupada, desligou alegremente antes que eu pudesse disparar o palavrão adequado diante de tamanha insensibilidade.
Já em total desespero, com o rosto encharcado de lágrimas, baba e ranho (eca!), decidi adotar uma medida drástica: alugar um jatinho para ir até Floripa, a fim de submeter-me aos cuidados da mana Rosa. Certamente, o cunhado Beto de bom grado assumiria os gastos integralmente, considerando-se a gravidade da situação. Apavorado, tentava domar os dedos trêmulos e ligar para a empresa de táxi-aéreo quando ouvi o toque da campainha.
Do outro lado da porta, a salvação na figura de anjo.
Era a Mari Timm que veio em socorro do pai munida de um galão de chá com mel e limão, uma cumbuca com canja de galinha, e uma cesta com bolachas de água e sal, biscoitos recheados e aspirinas. Sob seus cuidados, melhorei sensivelmente, mas meu estado ainda inspira atenção.
A notícia sobre o infortúnio se espalhou e, para reconforto do meu coração, estou recebendo inúmeros agrados e mensagens de pronto restabelecimento. Marisinha, minha musa em tempo integral e secretária eventual, está organizando a visitação, a fim de evitar congestionamento nas vias que conduzem ao castelo. Ela foi passar o fim de semana na serra, mas retornou célere assim que soube da enfermidade que adonou-se do meu corpo esbelto, porém frágil no enfrentamento das moléstias disseminadas pelas solertes tropas dos vírus gripais.
Assim, quem quiser me visitar deve agendar dia e hora com a bela, através de telefone ou email. Quanto aos mimos, os itens preferidos pelas damas são petiscos variados, como, por exemplo, bolinhos de chuva, biscoitos, waffles, bolo de chocolate e torta de bolacha. Para os cavalheiros, recomendo contribuições em dinheiro vivo (agrados através de cheque ou cartão de crédito não serão aceitos) ou, ainda, na forma de preciosidades líquidas oriundas das terras altas da Escócia. Ursinhos de pelúcia e visitantes sem presentes serão barrados na entrada.
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Para evitar surpresas desagradáveis, aviso aos eventuais gentis visitantes que não se assustem com a minha aparência um tanto quanto desleixada – os poucos fios de cabelo que me restam desgrenhados, barba por fazer... Por ordem expressa da junta médica de notáveis recrutada pela doce e fiel Marisinha, além de não colocar os pés na rua em dias de chuva, não devo realizar asseio corporal até que a temperatura esteja amena. Considerando o clima aqui nos pampas, vou tomar banho só no verão de 2011.
Beijos, gurias. Abraços, guris.
Saúde é o que interessa. Pra cima com a viga.








