Chá, aspirinas e biscoitos


Pulta Melda, quase fui para a cidade dos pés juntos. Sério, passei tri-mal nos últimos dias. 
Os primeiros sinais de que algo estava errado surgiram na sexta-feira passada: calafrios, coriza, pressão arterial oscilante. Como convém a um bom bagual, imediatamente entrei em pânico moderado e fui para a janela principal do castelo em busca de ajuda feminina (em momentos assim, só uma mulher sabe cuidar de um homem).
- Socorro, estou doente! Preciso de ajuda! – supliquei aos berros.
Em resposta, obtive três manifestações desanimadoras, duas com voz masculina:
- Sai daí e fecha a janela, Matilde. Este cara é doido.
- Vai te ferrar, vagabundo!
- Bem feito, seu tarado ingrato! – completou uma dama certamente agastada com a minha reconhecida falta de fidelidade amorosa.
Diante da recepção glacial da vizinhança, passei para o segundo estágio do bagual em apuros: o pânico delirante. “Querem acabar comigo; é uma conspiração dos deuses”, pensei enquanto me arrastava até o telefone. Liguei para a Beti Timm. Julguei que, em memória dos bons e velhos tempos, não me negaria auxílio nesta hora aziaga.
- Tô glabgulub doente – balbuciei. Meu cérebro enfermo prejudicava a comunicação.
- O quê? Não entendi.
Fui mais enfático:
- TÔ Glabgulub DOENTE.
- Ah, tá doente? O que tu tem?
Alinhei os sintomas.
- Não é nada. Só uma gripezinha, toma um chá com aspirina e vai te deitar que passa. Tchau.
Despreocupada, desligou alegremente antes que eu pudesse disparar o palavrão adequado diante de tamanha insensibilidade.
Já em total desespero, com o rosto encharcado de lágrimas, baba e ranho (eca!), decidi adotar uma medida drástica: alugar um jatinho para ir até Floripa, a fim de submeter-me aos cuidados da mana Rosa. Certamente, o cunhado Beto de bom grado assumiria os gastos integralmente, considerando-se a gravidade da situação. Apavorado, tentava domar os dedos trêmulos e ligar para a empresa de táxi-aéreo quando ouvi o toque da campainha.
Do outro lado da porta, a salvação na figura de anjo.
Era a Mari Timm que veio em socorro do pai munida de um galão de chá com mel e limão, uma cumbuca com canja de galinha, e uma cesta com bolachas de água e sal, biscoitos recheados e aspirinas. Sob seus cuidados, melhorei sensivelmente, mas meu estado ainda inspira atenção.
A notícia sobre o infortúnio se espalhou e, para reconforto do meu coração, estou recebendo inúmeros agrados e mensagens de pronto restabelecimento. Marisinha, minha musa em tempo integral e secretária eventual, está organizando a visitação, a fim de evitar congestionamento nas vias que conduzem ao castelo. Ela foi passar o fim de semana na serra, mas retornou célere assim que soube da enfermidade que adonou-se do meu corpo esbelto, porém frágil no enfrentamento das moléstias disseminadas pelas solertes tropas dos vírus gripais.
Assim, quem quiser me visitar deve agendar dia e hora com a bela, através de telefone ou email. Quanto aos mimos, os itens preferidos pelas damas são petiscos variados, como, por exemplo, bolinhos de chuva, biscoitos, waffles, bolo de chocolate e torta de bolacha. Para os cavalheiros, recomendo contribuições em dinheiro vivo (agrados através de cheque ou cartão de crédito não serão aceitos) ou, ainda, na forma de preciosidades líquidas oriundas das terras altas da Escócia. Ursinhos de pelúcia e visitantes sem presentes serão barrados na entrada.
***
Para evitar surpresas desagradáveis, aviso aos eventuais gentis visitantes que não se assustem com a minha aparência um tanto quanto desleixada – os poucos fios de cabelo que me restam desgrenhados, barba por fazer... Por ordem expressa da junta médica de notáveis recrutada pela doce e fiel Marisinha, além de não colocar os pés na rua em dias de chuva, não devo realizar asseio corporal até que a temperatura esteja amena. Considerando o clima aqui nos pampas, vou tomar banho só no verão de 2011.
***
Beijos, gurias. Abraços, guris.
Saúde é o que interessa. Pra cima com a viga.

A luz da Luma

Certa ocasião, confrontado com a indagação de um discípulo jovem e inquieto – “o que devo fazer para mudar minha vida?” – mestre Millôr Fernandes sentenciou:
- Você não pode mudar radicalmente de uma hora para outra, mas é preciso dar o primeiro passo. Mudar o modo de pentear o cabelo pode ser um bom começo.
(Cabe registrar que, na época, o sábio carioca do Méier ostentava uma abundante cabeleira escura).
***
Eu também quero promover algumas alterações na minha vida. Na impossibilidade de concretizar os desejos mais radicais (dormir remediado e acordar milionário, por exemplo) e também implementar medidas mais prosaicas (devido à penúria capilar não posso mudar o penteado), decidi começar a caminhada em direção a um novo patamar da existência mudando a aparência do blog. Além do desejo de mudança, críticas da Mari Timm e de Alexandre, seu Cavaleiro Andante (“tá ruim de ler, Seu Jens”), serviram de estímulo para que apresentasse meus escritos bobos sob uma nova roupagem.
Como sou semi-analfabeto em termos de internet – só sei utilizar o básico –, vi-me obrigado a recorrer aos préstimos de um especialista no assunto. Mas quem? Quem?
A resposta veio em forma de luz. A  Luma, claro. Creio que vocês conhecem a Luma. Ela é uma das pioneiras da blogosfera, a timoneira intrépida do Luz de Luma, embarcação virtual que conduz com sensibilidade, sensatez, aguçado senso de justiça e indignação contra os malfeitos e preconceitos da humanidade. Para quem ainda não a conhece, recomendo que preencha esta lacuna sem mais demora, clicando aqui.
Além de competente, a Luma é uma pessoa generosa, que não nega auxílio aos blogueiros neófitos e aflitos, como é o meu caso. O resultado da sua atenção está aí: a Toca completamente redecorada.
Eu gostei. Espero que vocês também gostem. O verbo continua o mesmo, mas os meus cabelos... quanta diferença.
Valeu, Luma. Mais uma vez, thanks. Para a tua mãe, meus melhores pensamentos.
***
Beijos e abraços, pessoal. Bom tempo para todos nós.
***
PS: O desenho lá em cima é uma arte da Beti Timm em homenagem a Luma e duas das suas grandes paixões:o fiel Max e o mar.

Travessia

Ela perguntou:
- Oi, tudo bem?
Os cabelos eram pretos, muito pretos, lisos e compridos até abaixo dos ombros. Usava uma blusa vermelha amarrada atrás do pescoço que exibia o colo nu e realçava os seios empinados, deixando as costas desnudas. Calçava botas pretas de cano longo e falso couro brilhante que a cobriam até pouco acima dos joelhos. As meias de náilon que protegiam as coxas eram sustentadas por cintas-ligas vermelhas presas na calcinha preta semi-oculta por uma minúscula e aderente saia branca. A nesga de pele à mostra era alva, muito alva. Coxas roliças, seios agressivamente opulentos, bunda atrevida. Mascava um chiclete. Os olhos escuros convidavam, avaliavam, desafiavam. Meus sentimentos se dividiam entre o tesão e o medo.
O primeiro comandava as ações.
- Tudo bem, respondi.
- O que tá fazendo aqui?
- Passeando.
Nervoso, tentava ocultar o desejo violento que forçava o tecido da calça de tergal (ainda não havia comprado o meu primeiro jeans – que não foi uma Lee, mas uma Levis). Profissional competente, ela percebeu.
- Uau, que tesão. Como é grande.
Os dedos experientes apalparam meu sexo em brasa. O toque das unhas vermelhas se revelou suave, provocação em forma de risco. Imponente como aço, como nunca estivera até então, meu membro corcoveava, ansiando por liberdade.
Maliciosa, a boca carnuda vermelha atiçou o santo em busca da perdição.
- Vamos?
Os hormônios ensandecidos e os nervos alvoroçados disseram sim. A razão lutava para não naufragar
- Quanto é?
- Depende.Simples, 20. Completo, 30.
Estava com 120 cruzeiros no bolso – salário de menor que recebia mensalmente. Lúcido, avaliei custos e benefícios de concretizar ou não o desejo que inflamava meus sentidos. Entre o céu e o inferno, optei pelos dois.
- Completo - balbuciei sem saber muito bem o que estava comprando, mas com as labaredas da lascívia crepitando irremediavelmente na imaginação.
- Legal. Ainda tem 10 pila pelo quarto.
- OK.
- Então vamos. Vou fazer bem gostoso.
Conduziu-me pela mão até um hotel na mesma rua, não muito distante. Paguei 10 cruzeiros a uma mulher de óculos, gorda e bonachona, que parecia não se importar com a exposição dos seus seios fartos e maduros soltos num vestido floreado, que se ofereceram aos meus olhos quando, depois de receber o dinheiro, me pediu fogo e se inclinou para acender o cigarro. Entregou para minha acompanhante uma chave, um rolo de papel higiênico e uma toalha pequena, de cor indefinida, que precisava ser lavada.
- Anota aí pra mim, dona Iracema, este é o terceiro.
- Pode deixar minha filha.
Olhando pra mim perguntou:
- Quer uma cerveja?
Minha dama aproveitou:
- Paga uma cuba pra mim, bem.
Vacilei.
- Quanto é?
- Baratinho, só cinco cruzeiros.
Roubo, roubo, roubo.
- Não sei...
Pressionou as coxas e os seios contra meu corpo.
- Vamos lá, vai valer a pena.
- Tá bom - tartamudeei.
Não tinha condições de recusar nada.
O hotel estava em franca decadência. Era um retângulo encravado entre uma loja de roupas e outra de sapatos, no início da Volunta. Que de dia era a Voluntários da Pátria, uma rua com camelôs nas calçadas e lojas populares com mercadorias expostas no passeio público. Os homens e mulheres de bem faziam compras, negócios e também faziam de conta que não viam aqueles ninhos de pecado adormecidos durante o dia. À noite o comércio era outro. Eu trabalhava na sala 73 do edifício Realeza, o primeiro prédio, nº 9, da Volunta. Não era muito distante do hotel sem nome, mal iluminado, cujas escadas de madeira gasta eu agora subia, hipnotizado pela bunda saliente que rebolava à minha frente. A saia apertada ressaltava as polpas brancas e redondas.
O quarto combinava com o resto. Decrépito. Paredes descascadas, resquícios de uma pintura que um dia fora verde, piso de tábuas esbranquiçadas pelo uso. Na mesinha ao lado da cama antiga, sólida, um abajur com uma luz vermelha, daquelas de árvore de natal, iluminava o ambiente. Ao lado, um cinzeiro de alumínio amassado. Um amarrotado lençol cinza claro – um dia fora branco - cobria o colchão. Aos pés da cama outro lençol amontoado. Em cima de uma mesa na frente da cama, uma bacia de alumínio com água. Ela parecia contrariada e um pouco envergonhada.
- Que merda, a gente paga esta bosta pra que pelo menos a cama esteja arrumada. Peraí um pouquinho.

Depositou a toalhinha e o sabonete na mesa.

Eu estava dividido entre a repugnância e o desejo. Era uma relação comercial sórdida. Acendi um Minister.

Ela voltou, sentou ao meu lado. Fumou o meu cigarro.

- Tu não te importa de pagar antes?

Dobrou com cuidado, até formar um quadradinho as três notas com a efígie do presidente Getúlio Vargas. Guardou num bolsinho costurado ao lado do short, fechado com zíper. Tragou. Colocou o cigarro no cinzeiro. Expirou a fumaça, colocou as mãos nas minhas pernas e elencou os meus direitos.

- Tu pagou programa completo. Então vai ser assim (...).

Antes de iniciar as atividades ela descobriu o que eu desajeitadamente tentava ocultar.

- É a tua primeira vez?

Mais do que uma pergunta, era uma constatação.

Pegou o cigarro e tragou. A fumaça acompanhou suas palavras quando ela me dominou com um brilho selvagem nos olhos escuros:
- Vou te ensinar tudo.
Boa professora, cumpriu a promessa. Me fez rei e vassalo; príncipe e plebeu; presa e predador; egoísta e solidário, deus e demônio. O guri virou homem, já inoculado com o vírus da iconoclastia.
O nome dela era Maria do Céu, mas à noite, nas ruas, a conheciam por Lena, de Maria Madalena.
***
Beijos, damas. Abraços, cavalheiros. Boa semana para todos nós.
Pra cima com a viga!
***
PS: o desenho é da Bete Timm, que tem mais trabalhos publicados aqui.
PS2: suspeito que já publiquei este texto. Se assim for, sorry. Viver é, também, lembrar.

Empreendedorismo


Acabou. Finalmente fechei o Marca da Cal, uma das publicações que garante que eu mantenha a aparência de estilo de vida nababesco. Particularmente estafante foi a edição da principal entrevista do jornal. O entrevistado é um personagem vetusto e destacado da arbitragem de futebol do RS, com muitas histórias para contar e ensinamentos a transmitir. Porém, como sói acontecer com quem já percorreu uma longa distância na trilha da existência (no caso, a caminhada já dura 90 anos), ele tem certa resistência em caminhar em linha reta por seu universo memorialístico, enveredando subitamente por atalhos e retornos inesperados. Colocar o material em ordem foi o desafio que venci com galhardia. Mais uma vez.
Editar é organizar o caos.
***
Nem sempre ganhei a vida escrevendo. Já exerci profissões mais decentes e úteis para a sociedade.
Ingressei no mercado de trabalho, por exemplo, através da reciclagem de lixo. Minha idéia era enriquecer recolhendo garrafas vazias, metal velho, osso e vidro quebrado para depois vender para o Seu Paciência, o Homem do Ferro Velho. Desisti quando constatei que a grana oriunda do esfalfante trabalho semanal sequer cobria os custos de 1 bolo inglês e 1 gibi de faroeste no armazém do Seu Walter. Ontem, como hoje, a faina dos operários da ecologia não era valorizada. Dane-se o mundo.
Persistente, migrei para o comércio alimentício, mais precisamente a venda de pêras e ameixas desapropriadas de uma chácara nos fundos da casa de Ipanema, na rua Mário de Andrade. O negócio era atraente, mesmo depois da divisão de lucros (tinha associados na empreitada). No entanto, vi-me obrigado a abandoná-lo depois de escapar por um triz dos tiros de sal disparados pelo chacareiro de maus bofes. Além disto, em pouco tempo consumia, juntamente com meus sequazes, boa parte do produto destinado à venda. Estávamos em fase de crescimento.
Teimoso, não desisti de ganhar o chocolate e o mil-folhas (só pensava em gulodices) de cada dia com o suor do meu rosto. Entrei para o ramo da jardinagem, isto é, capina e corte da grama das casas da vizinhança. Não durou muito. Meus dedos delicados não se adaptaram às agruras do trabalho manual.
Os insucessos não abalaram meu entusiasmo em relação ao mundo do trabalho. Continuei matutando acerca dos caminhos profissionais mais adequados ao meu espírito inquieto, a saber: bombeiro, por causa da cor vermelha e da sirene da viatura, que me fascinavam – talvez um indício precoce do socialista que eu viria a ser; lixeiro, para horror do Boris Casoy (veja aqui a baixaria), em razão do sobe-desce nas laterais do caminhão, atividade extremamente atraente para um pequeno aventureiro e, por fim, pensei em ser cobrador de ônibus, para ter um bolo de dinheiro entre os dedos, andar de ônibus sem pagar passagem e ainda coxear as moças (não havia roleta naquela época).
O debate interno acabou quando o pai anunciou minha entrada iminente no 1° ano primário do Grupo Escolar José de Anchieta. Arquivei meus projetos de riqueza, planejando retomá-los depois da conclusão dos estudos. Mas então mordi a maçã, isto é, aprendi a ler e escrever. O demônio da escrita entrou no meu corpo e nunca mais saiu.
O resto é história. Não exemplar, reconheço.
***
Beijos, gurias. Abraços, rapazes. Bom tempo para todos nós.
Pra cima com a viga!

Um dia de fúria

Novamente de posse das faculdades mais atraentes da minha personalidade (sovinice e mau humor), devidamente arrependido e curado do repentino e inexplicável surto de generosidade (acho que foi alguma coisa que comi – o torresminho do Alemão estava com um gosto estranho), vi-me obrigado a abandonar as luxuosas dependências do castelo para enviar os mimos prometidos. Além disto, algumas contas vencidas exigiam pagamento imediato, sob pena de suspensão dos serviços (ainda não consegui um modo seguro de usufruir da net, internet, telefone e energia elétrica sem pagar. Os melhores cientistas do reino estão trabalhando 24 horas – em regime de pão, água e chicote – visando equacionar a questão. Em caso de insucesso, cabeças rolarão. Machadão, o verdugo do reino, está impaciente).
Na fila do banco (Bradesco), 20 pessoas na minha frente. Apenas duas caixas funcionando, sendo uma para atendimento do pessoal da terceira idade, as pessoas portadoras de necessidades especiais e as lactantes. Depois da primeira meia hora emiti os primeiros sinais de impaciência; rosnei alguns palavrões, desferi alguns chutes ao vento e não fiz nenhum esforço para ocultar o beiço de contrariedade.
Fiquei particularmente invocado com a turma do caixa especial. Uma dama loira, de olhos azuis, bem apessoada, foi atendida celeremente por estar carregando um bebê no colo. O infante chorava e se debatia enquanto ela desajeitadamente tentava domá-lo: “calma Kevin, fica quietinho, meu filho”. Detalhe: Kevin era negro. Humm... Observei também que alguns anciãos de aspecto humilde, possivelmente aposentados, tinham pilhas de contas para pagar, visivelmente em desacordo com os magros proventos oriundos da Previdência Social. Minhas suspeitas de que algo estava errado ficaram mais robustas quando Kevin retornou nos braços de uma jovem alva e ruiva. Agora se chamava Washington.
Depois de 1 hora de espera, libertei o justiceiro que vive em dentro de mim em concubinato com a mulherzinha histérica e coxoduzulda.
- Pô, é muita sacanagem – reclamei. Em seguida expus à platéia atônita minhas suspeitas.
- Tem treta aí, estão nos fazendo de bobos – sentenciei.
Diante da incredulidade de alguns clientes, resolvi provar. Encarei um cidadão de basta cabeleira branca, cujo rosto barbeado exibia poucas rugas, mais adequadas a quem está na faixa dos 40 anos (eu, com 54, tenho a cara toda escalavrada).
- Qual a sua idade? – intimei.
- 62 – balbuciou, intimidado.
- Duvido! Aposto que pintou o cabelo para furar a fila. Espertinho!
Me joguei contra o sujeito. Apavorado, lentamente derreteu-se, as costas deslizando rente à parede. Enquanto estava sentado, respirando com dificuldade, escarafunchei a cabeleira, buscando revelar as raízes escuras. Não achei.
- Maldito! Teu barbeiro fez um bom trabalho. Depois me passa o endereço.
Disposto a desmascarar a fraude de qualquer maneira, investi contra o próximo da fila, que escondia os olhos sob óculos escuros e apoiava-se numa muleta, simulando não ter uma perna.
- Arrá!, o velho golpe do perneta fajuto – berrei.
Com uma pernada certeira – habilidade desenvolvida nas quebradas de Ipanema nos anos de delinquência juvenil – joguei a muleta longe. Na queda, o farsante perdeu os óculos. Desfiz a dobra da calça, caçando a parte oculta da perna. Não achei. Aparentemente, o sacripanta automutilou-se. Além disto, fingia-se de cego, pedindo ajuda para catar os óculos. Impressionante o que o populacho é capaz de fazer para levar vantagem em uma prosaica fila de banco.
Uma mulher exibindo uma barriga de nove meses me olhava apatetada.
- Arrá!, o velho truque da gravidez falsa.
Voei em sua direção.
- Chegou a hora do parto!
Fui contido em pleno vôo por dois seguranças.
A clientela parva clamava por sangue. O meu sangue.
- Sem vergonha, porrada nele!
- Deve ser louco, baixa o cacete neste porralouca.
- Tá intochicado, completamente emaconhado.
- É isto aí, tenho um sobrinho que fica assim quando bebe maconha.
- Chama a polícia.
- Sei não, pra mim é coisa do Exu Tiriri.
Um segurança (armário duplex) me pegou pelo cangote e me levou para fora da agência, enquanto eu balançava os pés e imprecava, desatinado.
- Trouxas, bobocas, bundões, estão sendo enganados. Exijo meus direitos. Lula, socorro!
Na rua, fui aconselhado a dar o fora e nunca mais voltar, sob pena de levar uns cascudos e ser conduzido à delegacia mais próxima. Obedeci, acabrunhado, raivoso e inseguro. Meu faro de jornalista investigativo nunca havia falhado até então. Seria este o primeiro sinal da tão temida senilidade, o início do fim?
Na esquina, vi Kevin Washington nos braços de uma mulher que, deduzi, pela semelhança, era sua real genitora. A seguir, chegou a grávida. Tirou uma almofada acondicionada sob a blusa e entregou à mulher, juntamente com algo que parecia ser uma cédula de dinheiro. A mãe empresária abordava as mulheres que se dirigiam ao banco – seguramente oferecendo serviços de aluguel.
Eu sabia! Mais uma vez o minha intuição estava na trilha da verdade. Não foi à toa que li todos os livros de Raymond Chandler - a argúcia detetivesca de Phillipe Marlowe sobrevive em mim. Depois de uma congratulação íntima, abordei a mulher. O empréstimo da almofada custava 5 reais; os serviços de Kevin Washington (na verdade Richard Cleyson), 7 pilas. Pechinchei e obtive um desconto de 1,50. Peguei o garoto e dirigi-me para a agência do Banco do Brasil. Faceiro, entrei na fila do caixa especial. Quando ele começou a berrar, acalmei-o carinhosamente.
- Não chora não, Raymond, netinho querido do vovô.
Fui atendido em menos de cinco minutos.
***
Beijos e abraços. Bom findi para todos nós.
Pra cima com a viga, moçada!

The winner is...


O concurso já tem um vencedor. É o navegante Gilson, uma grata e nova presença aqui no espaço de comentários, que abiscoitou o prêmio ao acertar primeiro as cinco respostas, a saber: 1.Catarina II, Imperatriz da Rússia; 2. Elizabeth I, a Rainha Virgem da Inglaterra; 3. Cleópatra, a Soberana do Egito; 4. Mona Lisa, imortalizada por Leonardo Da Vinci e 5. Chica da Silva, a Rainha do Tijuco. Para receber o livro, que será enviado através do Correio no final desta semana, solicito que o vencedor encaminhe o seu endereço para o email j.nunessilva@gmail.com Bem-vindo, camarada.
Peço que o professor Moacy também faça a gentileza de enviar seu endereço. E também à querida amiga Soninha, que vai ganhar o mimo em razão da sua combatividade bem humorada (como ex-militante conheço – e temo – as qualidades das bravas moças do sindicalismo de São Bernardo nas lutas reivindicatórias).
Para os demais, republico a crônica que escrevi para o livro.
***

O árbitro

Aconteceu há muito tempo atrás. Foi nas férias escolares. A vida, então, era sinônimo de diversão. E as ruas de Ipanema eram o nosso parque.
No meio do jogo, começou um bate-boca generalizado.
- Pênalti! – berrou o Alemão, centroavante, pegando a bola e levando para a marca da cal.
O jogo era Rua de Cima X Rua de Baixo, um clássico da década de 1960 nos campinhos de Ipanema.
- Não foi não! A bola bateu na minha mão – contestou o Sabiá, suposto infrator.
O Zeca tentou por fim à discussão que se anunciava.
- Mão na bola e bola na mão é a mesma coisa. Foi pênalti!
A confusão aumentou. A turma da Rua de Cima defendendo a penalidade; o pessoal da Rua de Baixo garantindo a inocência do zagueirão Sabiá (assim chamado por sua impressionante semelhança com a ave canora e, também, por ser um exímio caçador de pássaros, seja através de arapucas ou certeiros fundaços).
A discussão verbal se encaminhava rapidamente para o confronto físico. Depois ouvir uma referência desairosa à sua mãe, o defensor da Rua de Baixo retrucou com um risco no chão feito com o pé descalço seguido de uma cuspida insolente. Segundo o código não escrito da molecada daqueles tempos, era um desafio para a briga. O Alemão estava prestes a aceitar quando o Renatinho interveio.
- Não foi pênalti.
Surpresa, a turma se calou. O Renatinho era magrinho, franzino e ruim de bola. Um perna de pau. Nas peladas, nunca era escolhido, a não ser, em raras ocasiões, para jogar no gol, quando faltava alguém para completar um dos times.
- Tu não sabe nada quatro olhos! – o Alemão queria abreviar a conversa e decidir a questão na porrada.
- Sei sim, conheço a regra – insistiu o perna de pau.
O Zeca, liderança de ambos os bandos em conflito, garantiu a palavra.
- Explica aí, mas se enrolar vai apanhar que é pra deixar de ser bobo.
O Renatinho não se abalou. Consciente da sua importância naquele momento histórico – o último jogo das férias de inverno - aprumou a voz antes de expôr seu conhecimento.
- Meu tio apita os jogos no campo do Pindorama e tem um livrinho de regras. Eu li e tá escrito lá: quando o cara bota a mão na bola por querer é pênalti; quando a bola bate na mão sem querer não é. Tá na regra.
O pessoal ficou em silêncio, pensando. O sonho de todos era em breve ingressar nos quadros do Esporte Clube Pindorama ou do Ipanema Futebol Clube (no 1° Quadro, é claro), as duas potências futebolísticas do bairro. Para jogar como os grandes era uma boa ideia, desde já, obedecer as mesmas regras.
Antes de decidir por todos, o Zeca exigiu confirmação.
- Tem certeza?
- Claro – garantiu o Renatinho faceiro, sentindo o gostinho bom do respeito.
- Então tá não foi pênalti. Bola no chão.
Antes da partida reiniciar, o Zeca nomeou o Renatinho:
- E tu de agora em diante vai ser o juiz das nossas partidas.
O quatro olhos franzino e ruim de bola exultou. No dia seguinte pediu emprestado o livro de regras do tio e fez o pai comprar apito, camiseta, calção, meias e chuteiras pretas. Finalmente descobrira o seu lugar dentro das quatro linhas.
Ele era um juiz de futebol.
***
Beijos e abraços.
Pra cima com a viga

Quiz Show


Para aplacar a solidão – o marido estava ocupado entregando ovos de Páscoa e os infantes foram curtir o feriadão na praia – a senhora Coelhinho apareceu na minha suntuosa morada no final de semana. Somos amigos e tivemos um rápido e tórrido affair em tempos idos. Obedecendo as regras do cavalheirismo britânico, sob as quais fui rigorosamente educado (noblesse oblige), me permito apenas revelar que foi uma visita extremamente prazerosa, e, também, destacar a competência da visitante na execução das lides domésticas. Limpo, meu castelo reluz com cheiro de alecrim e a geladeira está abarrotada de comida pré-pronta. A senhora Coelhinho é uma dama de cama, mesa e banho. Uma mulher digna de um jantar de 400 talheres (thanks, Nélson Rodrigues).
Encantado com tanto esmero, vou acionar meus lobistas em Brasília para reivindicar junto ao presidente Lula a edição de uma Medida Provisória instituindo a comemoração quinzenal da Páscoa. Cristo merece. E eu também (pronto, consegui! Temo que com mais esta blasfêmia minha entrada no Reino do Céu esteja definitivamente proibida.).
***
Depois de um final de semana assim gratificante é natural que esteja de bom humor, predisposto a ser generoso com meus quase semelhantes (segundo Humprey Bogart, a humanidade está sempre duas doses abaixo do normal. Não é o meu caso; estou sempre normalíssimo, graças ao velho coronel Jack Daniels). Por esta razão, resolvi promover um game cultural que vai premiar o feliz vencedor com um exemplar do livro Os Juízes do Juiz. Trata-se de uma obra editada no final do ano passado pelo Sindicato dos Árbitros de Futebol do Rio Grande do Sul,Safergs, entidade que aluga o meu inigualável talento profissional (alguém viu a minha modéstia por aí?), que reúne crônicas publicadas nos últimos três anos no jornal Marca da Cal, pelo qual sou um dos responsáveis. As crônicas são assinadas por Luiz Fernando Veríssimo, Ruy Carlos Ostermann, Soninha Francine, Paulo Roberto Falcão, Raimundo Fagner, Zeca Baleiro e outros bambas das letras e do esporte, que tecem considerações sobre a nobre e difícil arte de ser um árbitro de futebol. O amigo, compadre e ex-chefe Carlos Simon, meu associado Moah e eu, além de cronistas, organizamos o livro. Ói nóis ai:
Para participar da promoção basta identificar quais são as personagens (todas femininas) a que se referem os textos a seguir. Vamos lá.

Quem sou eu?

1 - Fui a mãe despótica de todas as províncias geladas. Meu exacerbado apetite sexual fazia a alegria da soldadesca em noites de luar. Revitalizei meu império, tornando-o uma das maiores potências européias. Fui a grande soberana das estepes.
2 - Em noites antigas, às margens do grande rio, nas terras dos, então, devotos de deuses pagãos, fiz do conquistador do mundo meu vassalo, graças às artimanhas sensuais dos meus lábios carnudos e da língua inquieta.
3 - Pela preservação do reino bretão, morri virgem (há controvérsias, mas ninguém jamais saberá a verdade). Fui a última representante da minha dinastia.
4 - Até hoje, minha imagem encanta, inebria e entontece os homens, que não se cansam de elaborar as teses mais disparatadas para explicar o meu sorriso. As mulheres, mais sutis, na sua maioria já desvendaram meu segredo.
5 - Graças à beleza do rosto, à formosura do corpo, ao dengo do andar e à luxúria na cama, driblei o destino e me tornei a rainha mais improvável do lado debaixo do Equador. Entre brutos, reinei numa terra de ferro e pedras brilhantes
***
Barbada, né? O primeiro que responder todas as perguntas corretamente leva o livro (que não está a venda nas melhores livrarias do ramo, foi uma edição comemorativa e limitada). Na eventualidade de ninguém acertar integralmente, ganha quem acertar mais. O prêmio será enviado através do Correio. O concurso é sério (não sou um escroque como o Betho Sides).
Ah, o professor Moacy Cirne é hors concours – sabe tudo! Seu exemplar já está assegurado.
***
Beijos e abraços achocolatados.
Boa semana pra todos nós. Pra cima com a viga.

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