Meu encontro com Madame
Como é do conhecimento público, não sou o tipo de sujeito que se deixa seduzir pelas crenças do populacho relativas à existência da sorte ou daquela palavrinha que tem dois “a”, um “z” no meio e termina com “r”, a qual não ouso pronunciar. Sou um cultor da razão pura, formado na escola de pensamento de homens como Lord Bertrand Russel, entre outros luminares da história do intelecto humano. Só abro mão do racionalismo diante de situações extremas, como, por exemplo, nas noites de sexta-feira (tóc tóc tóc!) ou naquelas ocasiões em que a palavrinha que referi acima dá sinais de que fez pouso na minha morada. Em tais momentos recorro, sem peia, ao auxílio das forças do além.
Foi que fiz recentemente depois de ver a propaganda de uma agência funerária que se chama, sem brincadeira, “Só falta você”. Funciona em uma cidade da região metropolitana de Porto Alegre – São Leopoldo ou Novo Hamburgo. Em razão dos recentes infortúnios que permearam minha existência, considerei a visão como um recado sinistro. Assim, mandei o racionalismo às favas e fui buscar os préstimos de Madame Veridiana.
Para quem ainda não sabe, informo que Madame, sogra do Lara – um empresário audaz da região –, é o contato da comunidade local com as forças ocultas. Mediante pagamento, em 48 horas traz de volta o amor perdido, cura espinhela caída, lumbago , catarata e resolve problemas financeiros. Ou seja, o tipo de profissional que eu preciso.
Percebendo a gravidade do meu caso, Madame Veridiana lançou mão de toda a sua sapiência. Jogou búzios, consultou as cartas do tarô e fez uso da bola de cristal. Gemeu, fungou, bebeu uísque (Madame não gosta de cachaça), fumou charuto (cubano legítimo), resmungou, sacudiu-se e deu o veredicto:
- O doutor está com encosto.
Senti um arrepio na espinha.
- Que porra é esta?
- Um espírito sem luz, que está aí do seu lado atrasando sua vida – esclareceu Madame.
Apavorado, olhei para os lados e me controlei para não berrar como uma mulherzinha.
- Como é que ele vai embora? Na porrada?
Madame riu.
- Nada de violência. É preciso tomar um banho de descarrego.
Fiquei irritado.
- Porra, todo mundo me manda tomar banho. Onde é o chuveiro? – perguntei resignado.
Madame esclareceu que não era bem assim. Pelo que entendi trata-se de um banho espiritual. E caro.
- 500 paus e resolvo o problema. - explicou que era preciso também comprar mimos para conquistar a simpatia das divindades do além.
Fiz ver que um dos motivos da minha presença era justamente a escassez de numerário. Tentei negociar.
- Não dá pra dar um desconto?
- Nem pensar.
- Parcelar em 10 vezes?
- Por favor, mais respeito. O além não é uma filial das Casas Bahia.
Tentei a última cartada.
- Não precisa ser um banho completo. Quanto sai uma meia boca?
Madame Veridiana fez “humpt!”, resmungou algo sobre falta de decoro para com as santidades, recolheu os búzios, guardou as cartas e cobriu a bola de cristal. Estava prestes a me despachar com uma praga e um palavrão quando, presumo, enternecida pelo desespero no meu olhar, mudou de idéia.
- Quanto o doutor tem no bolso?
Depositei na sua frente umas notas de 2 e 5 reais amassadas e um punhado de moedas.
- Isto é tudo.
Depois de contar, me entregou uma ferradura enferrujada, a pata de um coelho e um trevo de quatro folhas desidratado.
- Isto é tudo que posso fazer por ti, meu filho. Boa sorte.
Pensei em pedir um trocados para a passagem mas desisti. Mellhor não abusar da sorte. Agradeci e sai com os objetos que vão me trazer fortuna e realizar meus sonhos de vingança contra os inimigos.
Agora, vai!!!
***
Beijos, lindas damas. Abraços, gentis cavalheiros
Foi que fiz recentemente depois de ver a propaganda de uma agência funerária que se chama, sem brincadeira, “Só falta você”. Funciona em uma cidade da região metropolitana de Porto Alegre – São Leopoldo ou Novo Hamburgo. Em razão dos recentes infortúnios que permearam minha existência, considerei a visão como um recado sinistro. Assim, mandei o racionalismo às favas e fui buscar os préstimos de Madame Veridiana.
Para quem ainda não sabe, informo que Madame, sogra do Lara – um empresário audaz da região –, é o contato da comunidade local com as forças ocultas. Mediante pagamento, em 48 horas traz de volta o amor perdido, cura espinhela caída, lumbago , catarata e resolve problemas financeiros. Ou seja, o tipo de profissional que eu preciso.
Percebendo a gravidade do meu caso, Madame Veridiana lançou mão de toda a sua sapiência. Jogou búzios, consultou as cartas do tarô e fez uso da bola de cristal. Gemeu, fungou, bebeu uísque (Madame não gosta de cachaça), fumou charuto (cubano legítimo), resmungou, sacudiu-se e deu o veredicto:
- O doutor está com encosto.
Senti um arrepio na espinha.
- Que porra é esta?
- Um espírito sem luz, que está aí do seu lado atrasando sua vida – esclareceu Madame.
Apavorado, olhei para os lados e me controlei para não berrar como uma mulherzinha.
- Como é que ele vai embora? Na porrada?
Madame riu.
- Nada de violência. É preciso tomar um banho de descarrego.
Fiquei irritado.
- Porra, todo mundo me manda tomar banho. Onde é o chuveiro? – perguntei resignado.
Madame esclareceu que não era bem assim. Pelo que entendi trata-se de um banho espiritual. E caro.
- 500 paus e resolvo o problema. - explicou que era preciso também comprar mimos para conquistar a simpatia das divindades do além.
Fiz ver que um dos motivos da minha presença era justamente a escassez de numerário. Tentei negociar.
- Não dá pra dar um desconto?
- Nem pensar.
- Parcelar em 10 vezes?
- Por favor, mais respeito. O além não é uma filial das Casas Bahia.
Tentei a última cartada.
- Não precisa ser um banho completo. Quanto sai uma meia boca?
Madame Veridiana fez “humpt!”, resmungou algo sobre falta de decoro para com as santidades, recolheu os búzios, guardou as cartas e cobriu a bola de cristal. Estava prestes a me despachar com uma praga e um palavrão quando, presumo, enternecida pelo desespero no meu olhar, mudou de idéia.
- Quanto o doutor tem no bolso?
Depositei na sua frente umas notas de 2 e 5 reais amassadas e um punhado de moedas.
- Isto é tudo.
Depois de contar, me entregou uma ferradura enferrujada, a pata de um coelho e um trevo de quatro folhas desidratado.
- Isto é tudo que posso fazer por ti, meu filho. Boa sorte.
Pensei em pedir um trocados para a passagem mas desisti. Mellhor não abusar da sorte. Agradeci e sai com os objetos que vão me trazer fortuna e realizar meus sonhos de vingança contra os inimigos.
Agora, vai!!!
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Beijos, lindas damas. Abraços, gentis cavalheiros









