Tesouros da juventude



Sou um crédulo, quando se trata de fórmulas fáceis e infalíveis de ganhar dinheiro. Seguindo o exemplo dos capitalistas nacionais, sempre que ouço uma sugestão capaz de fazer com que embolse uma grana sem fazer força, trato de aderir à idéia (“Tô nesta!”).
Porém, infelizmente, o general De Gaulle tinha razão quando disse que o Brasil não é um país sério. Além do mau destino, tem sempre alguém de plantão disposto a iludir nossa boa fé e espezinhar nossas melhores intenções pecuniárias.
Em tempos idos, juntei os selos do IPI (Imposto sobre produtos industrializados) das carteiras de cigarros. Segundo os boatos de então (por mim considerados expressão da mais pura verdade), se o camarada juntasse um determinado número de selos (1 milhão, talvez), ganhava uma cadeira de rodas. Radialistas de programas populares pediam contribuições aos berros, nos programas matutinos. Crente, eu andava pelas ruas de Ipanema com os olhos grudados no chão, em busca de carteira de cigarros vazias. Minha idéia não era doar a cadeira rodas para quem necessitasse, mas sim vendê-la por um bom preço. Tinha amealhado um saco cheio de selinhos quando, com medo dos larápios, decidi esconder a preciosidade num buraco no fundo do quintal, à maneira dos piratas. Garoto imprudente, não fiz um mapa com a localização do tesouro. Quando tentei reavê-lo, esburacando aleatoriamente o quintal, fui impedido pelo pai em nome da preservação do patrimônio familiar. Até hoje, em lugar incerto nos fundos da casa número 159 da rua Mário de Andrade, repousa uma fortuna em selos de cigarro. Quem achar pode cobrar o prêmio da Souza Cruz. Em caso de negativa de pagamento, sugiro que recorra ao Procon
Em tempos mais idos ainda, meu cunhado Beto ganhou um caminhão da Pepsi-Cola. Na época, a empresa distribuía prêmios que vinham gravados embaixo das tampinhas. Meu cunhado removeu a cortiça e achou um caminhão. A comunidade ipanemense exultou:
- Porra, o Betinho ganhou um caminhão.
- Rabudo, vai ficar rico.
Solidários na alegria e na dor (eram outros tempos), os moradores organizaram uma comitiva para ciceroniar o feliz vencedor até a fábrica da Pepsi, que ficava no bairro Menino Deus. Foi providenciada até uma pequena fanfarra para acompanhar o sortudo. Tudo em vão. O caminhão não era um flamante Scania-Vabis como julgava a audiência, mas um simples caminhãozinho de madeira, mais condizente como uma promoção destinada ao público infanto-juvenil. Menos mal que a Pepsi, para desfazer o mal-estar (alguns mais exaltados falaram em “ladroagem”, “abaixo a água negra do imperialismo”, e aventaram a possibilidade de apedrejar a empresa), concordou em arcar com as despesas da churrascada acompanhada de cervejada.
Já em tempos não tão idos, deixei-me empolgar por mais uma lenda urbana, segundo a qual protéticos desesperados pagavam uma pequena fortuna por 1 quilo daqueles anéis de alumínio que servem para abrir as latinhas de refrigerante. Aparentemente, aproveitando um bom momento economia, uma horda de brasileiros recorreu aos dentistas em busca de próteses dentárias para melhor exibir o sorriso de alegria e fé na vida, que é uma das características principais do nosso povo. Assim, sumiu o metal utilizado para unir as dentaduras. Segundo uma das leis imutáveis da economia, o aumento da procura determinou a valorização do produto. Entusiasmado com este novo mercado, lancei-me, frenético, à cata dos preciosos aneizinhos. Depois de estocar uns 100 quilos, aluguei uma carroça e dirigi-me, pimpão, ao ponto de venda (o consultório de um renomado protético do bairro, um empresário audaz dono também do quiosque conhecido como “X do Tiozinho”). Para minha decepção, o profissional zombou dos meus esforços. Colocando um ponto final nos meus sonhos de riqueza, explicou que o material não servia para a confecção de dentaduras.
- Isto aí, é conversa do povo ignorante – sentenciou.
Acabrunhado, só me restou o consolo de um xis-bacon. Fiado e com bastante maionese.
Porém, ainda procuro o pulo do gato financeiro. Aceito sugestões. Como bom brasileiro, não desisto nunca.
***
Beijos, gurias. Abraços, guris.
Pra cima com a viga, moçada!

Guerreiros do verbo


Encontrei meu associado Moah no Naval. Contrariando o comportamento habitual, não nos queixamos da vida. Ao contrário, brindamos o advento de novos e bons tempos.
- Agora, vai!
- Ou vai ou racha!
A razão da euforia era um reajuste salarial recém conquistado, a custa de sangue, suor, lágrimas, choramingos, imprecações, promessas e orações.
Como convém a bravos e combativos guerreiros da palavra, não hesitamos em partir para a ignorância, a fim de obter o justo reconhecimento da nossa labuta. Primeiro, sugerimos a possibilidade da deflagração de greve por tempo indeterminado. Diante da insensibilidade do patronato, radicalizamos, acenando com a  perspectiva de cometer um gesto tresloucado, como ingerir soda cáustica em frente ao local de trabalho, um ato de denúncia da exploração capitalista e, ao mesmo tempo, um repto à classe trabalhadora para acirrar a luta por sua redenção.
O Moah, sempre pragmático, argumentou que um de nós deveria permanecer do Lado de Cá, para liderar a caminhada histórica que então se iniciaria. Concordei. Ficamos de decidir, no par ou impar, quem seria o mártir. Felizmente não foi preciso. 30% de reajuste foram suficientes para aplacar nossos ânimos revolucionários.
Mas que ninguém se iluda, nós voltaremos. O capitalismo malsão não perde por esperar (geralmente ganha 10% ao mês).
***
Na ocasião, o Moah me olhou fixamente. Irritado, indaguei:
- Qualé?
- Porra, tu tá ficando branco – ele respondeu, visivelmente impressionado.
Constrangido, reconheci:
- Tomei banho e fiz a barba.
Ele insistiu na estupefação:
- Não é isto. A tua pele está ficando branca. Acho que estás com a mesma porra que deu no Michael Jackson, como é o nome?
- Vitiligo. Mas não tenho esta merda. Nem o Michael tinha. Vitiligo é outra coisa, o cara fica com manchas brancas na pele, mas não embranquece totalmente.
O Moah não esticou o assunto. Pediu mais uma dose de bourbon, o uísque de milho feito no Kentucky, o preferido de William Faulkner.
De minha parte, recorri aos préstimos do velho coronel do Tennessee, mister Jack Daniel´s.
Mas, juntamente com meu associado, serei cobrado, of course, em tempos mais sóbrios. Quando chegar o momento, lembrem-se dos bravos rapazes do Álamo:
nós resistimos.
***
No mais:
Cy, a rainha mãe do mato
Macunaíma fascinou
E ao luar se fez poema
Mas ao filho encarnado
Toda maldição legou.

Macunaíma indio, branco, catimbeiro
Negro, sonso, feiticeiro
Mata a cobra e dá um nó
***
Beijos, gostosas. Abraços.valentes.




Pra cima com a viga.


Encontro com os gorilas

É possível, como disse alguém, que o cérebro humano seja o computador mais perfeito que existe. Registro, porém, uma imperfeição. Frequentemente, sem solicitação e razão aparentes, nos são disponibilizadas informações há muito armazenadas. Nos últimos dias, por exemplo, o meu email interno recebeu uma série de mensagens relativas a acontecimentos dos anos 70. Uma delas é de natureza política-festiva-policial.
O episódio teve como palco o Bar Pelotense, na rua Riachuelo, no centro de Porto Alegre, hoje transformado em salão de cabeleireiro (tristes tempos). Na época era o local para onde convergia a esquerda combativa e festiva para discutir a melhor forma de acabar com a ditadura militar, depois de participar de reuniões no Sindicato dos Bancários ou nas respectivas organizações políticas (eu era o chefão e um dos fundadores da minúscula mas valente DAEPA – Dissidência Alcoólica da Esquerda Porto Alegrense). 
Certa noite, provavelmente uma sexta-feira, o Pelotense estava lotado. Entre os clientes habituais estava o Poeta, trotskista ferrenho, livreiro nas horas vagas e bêbado de estimação em tempo integral, como convém a um bar de respeito. Por questões creditícias, ele iniciou uma discussão em altos brados com o caixa, um novato que desconhecia a tradição da casa de jamais exigir do Poeta pagamento imediato. Ele tinha crédito ilimitado. Assustado, o aprendiz acionou a Brigada Militar.
Com a arrogância e truculência características, dois brigadianos adentraram no estabelecimento e fizeram menção de arrastar o Poeta para a viatura. O livreiro resistiu esperneando e berrando contra o abuso de autoridade. Imediatamente conquistou a adesão do público presente.
- Assim, não! Ninguém vai tirar ninguém daqui à força! – berrou uma voz anônima no fundo do bar.
E seguida o coro de apoio se manifestou.
- É isto mesmo, seus porras! Abaixo a ditadura!
A turma se levantou, dando a impressão de que pretendia dar início à derrocada ditadura com o justiçamento dos dois policiais.  Assustado, um deles escafedeu-se e, pelo rádio, chamou reforços, que chegaram em menos de cinco minutos. Os caras invadiram o bar de armas na mão (inclusive escopetas calibre 12).
- E agora, cadê o macho? – intimou o rude brigadiano que minutos antes estava se borrando de medo.
Prudentemente, ninguém se apresentou.
Os gorilas circularam pelas mesas cutucando uns e outros com as armas. Percebendo que não conseguiria identificar o autor da afronta, o chefe do grupo ordenou:
- Todo mundo de mão parede. Já!
Resmungando, obedecemos à voz de comando (até hoje o bom senso recomenda não contrariar um homem da lei, especialmente se estiver de arma em punho). Fomos apalpados, revistados e identificados. Os que apresentavam carteira de identidade eram instados a mostrar a carteira do trabalho e vice-versa. O desfecho se encaminhava para o encarceramento amplo, geral e irrestrito, quando se ouviu o protesto da mesma voz anônima:
- Isto é ilegal, um abuso de autoridade.
O chefe do bando alvoroçou-se.
- Quem é o valente?
- Sou eu – apresentou-se um sujeito mirrado, barbado e engravatado.
- Tu faz o quê na vida? É vagabundo, comunista, viado ou tudo junto?
- Sou advogado – respondeu o outro, exibindo a carteira da OAB – e digo que o senhor está desobedecendo a lei. Segundo a Constituição, que é o estatuto maior do país, tanto a carteira de identidade como a carteira do trabalho são documentos válidos para fins de  identificação. Não é necessária a apresentação de ambos. Qualquer detenção realizada sob este argumento será considerada ilegal.
O gorila-mor vacilou, certamente atordoado pelo linguajar do causídico. Pressentiu que o petulante sabia do que falava.
- Ninguém vai prender ninguém, mas o senhor vai ter que nos acompanhar até a delegacia.
- Por quê?
- Perturbação da ordem pública e incitação à violência contra autoridades constituídas – o gorilão não era exatamente uma nulidade intelectual.
O advogado riu.
- Isto é ridículo. Apenas reagi a uma flagrante ilegalidade.
- Isto quem vai decidir é o delegado.
O sujeito mirrado, barbado e engravatado, percebendo a inutilidade de um diálogo racional, submeteu-se ao ditame do meganha.
Apesar da revolta, as armas engatilhadas fizeram com que o pessoal do bar restringisse as manifestações de solidariedade ao plano intelectual.
Na confusão, esqueceram do pivô do imbróglio. O Poeta, depois de certificar-se da ausência das forças da repressão, verbalizou sentimento de todos:
- Cambada de porco fiadaputa! Abaixo a ditadura!  Me vê mais uma aí, seu porra.
O caixa novato, apavorado com o incidente, não faz qualquer objeção.
Mas o incidente não estava encerrado.
- Não podemos abandonar o companheiro – disse alguém.
- É, temos que fazer alguma coisa – corroborou outro.
Rapidamente instalamos uma assembléia para decidir o que fazer. Depois de intervenções contra e a favor, ataques irados ao governo de exceção, defesa de ações contundentes contra o regime e reafirmação das palavras de ordem unitárias (Greve geral!, O povo, unido, derruba a ditadura!) foi aprovada a formação de uma comissão para ir até a 1ª Delegacia de Polícia, na rua Demétrio Ribeiro, para obter informações sobre o companheiro detido. A sobriedade foi o principal critério para a escolha do comando avançado. Para meu orgulho, a DAEPA, dura na queda, estava na linha de frente.
No distrito, fomos informados que o advogado já havia sido liberado. O entrevero foi classificado como uma discórdia de boteco. O delegado, atento aos novos ventos que sopravam na seara política, já respirava os ares da abertura lenta, gradual e segura, preconizada pelo alemão nascido em Bento Gonçalves, o ditador Ernesto Geisel.
Na minha avaliação isenta, o acontecimento  marcou o início do fim da ditadura militar.
***
Beijos e abraços, turma. Nos próximos dias devo retomar as visitas às vossas moradas. Isto, claro, se não chover, se a Seleção Brasileira continuar ganhando, se os porteiros continuarem proibindo a entrada de pessoas estranhas ao condomínio, se a Deusa que conquistou meu coração continuar insensível aos meus apelos e, principalmente, se Deus quiser.
***
Sobre a ida para a África do Sul, referenciada mais embaixo, um alerta: não sou poeta, mas também sou fingidor. Ou seja, nem tudo que reluz é ouro, nem tudo que parece é. Ou ainda, para bom entendedor, meia palavra bas...


Agente secreto


Ufa, voltei! E, como sempre acontece nos retornos, me vejo obrigado a desfazer boatos maledicentes disseminados por meus opositores. Vamos lá.
Não é verdade que estava homiziado em Paris, numa suíte do Hotel Ritz, protagonizando uma sessão interminável de exercícios sexuais na companhia de belas e coxoduzuldas damas. Não fui ao Paraíso. Ainda.
Também é fantasiosa a versão segundo a qual estaria em rota de fuga para Casablanca, no Marrocos, em razão das ameaças de credores de maus bofes. Aliás, aproveito para comunicar que renegociei quase todas as minhas dívidas astronômicas (ainda tenho pendências com a Oi que, temo, só serão resolvidas num duelo ao sol). Devo, não nego e pagarei um dia. Não amanhã, seguramente.
Também é falsa a informação de que estaria hospitalizado por causa da vindita de um marido traído. Como bom cristão, sigo a risca o mandamento que manda não cobiçar a mulher do próximo. Não tenho pretensão de ir para o Céu, mas estou de olho numa vaga no Purgatório.
Na verdade, minha ausência teve como motivo uma missão secreta e altamente patriótica. Estava na África do Sul, prestando assessoria jornalística e emocional ao Chefe Carlos Simon, que participa da sua terceira Copa do Mundo, feito inédito entre e arbitragem de futebol no Brasil. Aproveitei a ocasião para dar alguns conselhos para o meu vizinho Dunga, atualmente técnico do escrete canarinho, o que pode ser comprovado no flagrante abaixo, onde estou gravando as minhas orientações (a principal: colocar o Nilmar ao lado do Robinho no ataque).

Cumprida a missão, retornei ao pago antes do início da Copa, apesar de ter sido instado pelo governo da África do Sul a assistir a competição na qualidade de convidado de honra (numa era antiga, meus antepassados foram reis naquele pedaço do mundo). Declinei o convite por saudade do Rio Grande, minha querência amada, e também por orientação médica que recomenda parcimônia na vivência de fortes emoções.
Bom, estou de volta. A gente se vê por aí.
Beijos, gurias. Abraços, guris.
Pra cima com a viga, Brasil.

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