Tô voltando



No futuro, quando se debruçarem sobre os fatos econômicos relevantes da primeira década do século 21, os historiadores farão referência a três acontecimentos. O primeiro é o crack de Wall Street; o segundo, a falência da Grécia e por fim, mas não menos importante, A Queda da Casa de Jens, o Déspota Esclarecido do Jardim Vila Nova. 
Felizmente, o mundo não sucumbiu. O negro Barack será louvado por ter usado o dinheiro dos contribuintes ianques para sanar as malfeitorias dos banqueiros de New York. A valquiria Ângela Merkel terá o seu valor reconhecido por ter direcionado uma soma considerável dos recursos germânicos para pagar as contas dos pais da democracia moderna. Quem, no entanto, terá seu nome gravado, perene, em letras de ouro nos anais da História por ter perpetrado o feito mais admirável e fundamental de todos: o resgate de Jens – Soberano, Primeiro, Único, Indispensável, Lindo, Divino, Maravilhoso, Deus de Ébano, Pai da Mari Timm – do abismo da inadimplência? Bem, eu não vou revelar. Se vocês quiserem saber consultem os livros de história daqui a 50 anos; vasculhando a conta bancária, meus biógrafos descobrirão facilmente o nome do meu FMI pessoal – o personagem que me lançou a bóia salvadora em meio a procela . Hoje, apenas a Receita Federal e o Banco Central têm acesso à sua identidade. Conhecendo seu bom humor e irreverência, me permito chamá-lo de Deep Throat. Ele vai entender. Publicamente agradeço: valeu a força, camarada! Dificílimo (impossível, porra!) encontrar um amigo como você - ainda mais assim, distante, virtual. Um dia a gente se pecha por aí e vamos prá praça, fazer pirraça.
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Pois é, gente, a exemplo de Honoré de Balzac, Fiodor Dostoiewiski, Henry Miller, Scott Fitzgerald, Oscar Wilde e James Joyce, entre outros, passei por um período de desconforto financeiro (me recuso a usar bancarrota, uma palavra feia). 
Diante da tragédia, minha primeira reação foi partir para a ignorância, como convém a um bagual valentão: “vou acabar com estes filhos da puta” (no caso, os credores). Não pude levar adiante a intenção belicosa por falta de numerário para municiar a garrucha que herdei do meu avô Daniel, usada na Revolução de 1923.
Descartada esta opção, busquei a salvação nas palavras, como fizeram outros escribas talentosos antes de mim (se alguém falar em falta de modéstia eu tiro a navalha que carrego no bolso traseiro da calça – herança do vô Gersávio, um sapateiro anarquista). Assim, escrevi muito, na qualidade de ghost writter, e não recebi – uma sina que persegue muitos de nós, operários da palavra. Ousado, arrisquei a sorte no mercado do sexo, apresentando-me como ancião de programa. Cheguei a publicar anúncio em jornal (“Velho safado. Satisfação garantida ou seu dinheiro de volta. Preço a combinar”). Não obtive o retorno desejado. Três damas me procuraram. Duas se recusaram a fornecer doses industriais de Viagra (não incluídas nos meus honorários); a terceira, aposentada, dependia de um empréstimo consignado para concretizar suas intenções lúbricas – o INSS não liberou. 
Persistente (sou bagual que não se entrega assim no mais), tentei outra solução: renegociar mais uma vez o contrato no qual vendi a alma ao Diabo, anos atrás. Em outras ocasiões, Belzebu concordou em ceder uns trocados a mais. Desta vez não. A cotação do meu espírito está em baixa no mercado do Além. 
Encurralado, redescobri, em toda sua intensidade, o sentimento religioso. Assim, recorri a Ele, o Senhor do Universo. Querendo fazer bonito, recorri aos versos de Drummond: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste se sabias que eu não era Deus, se sabias que eu era fraco?”. O Cara Lá de Cima não se manifestou, talvez agastado pelo uso do recurso literário. Decidi ser eu mesmo: “Pô, Deus, qualé? Vai me deixar na mão?”. Relembrei boas ações que pratiquei e as 365 noites depois da Primeira Comunhão em que rezei o Terço inteiro antes de dormir (não por fervor, mas como uma espécie de poupança religiosa para ser sacada em tempos difíceis, como agora). Ninguém me respondeu; o Pai, o Filho e o Espírito Santo ficaram em silêncio. Pressentindo que a Trindade Divina não queria se envolver no meu caso, só restou uma alternativa: chamar a minha mãe.
Suspeito que Dona Arminda, que foi para o Outro Lado no início do ano (sob o meu olhar solitário) tenha confabulado com Seu Antonio, o homem magro que escolheu ser meu pai, e, juntos, tenham arregimentado o nosso pessoal do Lado da Lá – avós, tios, tias e,claro, a Nairinha, meu primeiro amor – para pressionar o Dono do Céu a tomar alguma providência a meu favor. Coincidência ou intervenção divina, o fato é que foi neste momento que Deep Throat apareceu, e se dispôs a ser o meu FMI particular (mais generoso, já que não cobra juros). O resto é história.
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O que move a humanidade? O que nos impulsiona a sair da cama todas as manhãs? Para Karl Marx, a força motriz é o dinheiro – a sua conquista e, consequentemente, o bem estar que ele proporciona: mesa farta, diversão, tranquilidade em relação ao futuro, aquisição de bens materiais, acesso fácil à produção cultural e outros prazeres da existência. Para Sigmund Freud, a mola mestra é o sexo – buscamos, sobretudo, o prazer da carne capaz de nos conduzir ao êxtase do espírito. Nesta questão, sempre simpatizei mais com Freud. Hoje, nem tanto. No período da borrasca particular, a prioridade era a preocupação econômica. O sexo, até então vital, tornou-se uma necessidade secundária (devo reconhecer que foi um coadjuvante de luxo; nas esparsas ocasiões em que reivindicou seu lugar na ribalta exibiu uma performance vigorosa, intensa e apaixonada – como se não houvesse amanhã).
Parafraseando o Eclesiastes, o britânico George Orwell (Eric Blair, of course) sentenciou: “dinheiro, tudo é dinheiro”, aderindo à percepção marxista do mundo. Mestre Millôr Fernandes, o filósofo do Méier, aprimorou: “tudo é a falta de dinheiro”, mas fez uma concessão à Freud: “para um homem faminto não há nada mais sensual do que um franguinho assado no espeto”.
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Abandonei a BrOi, a marafona resultante da fusão da Brasil Telecom com a Oi. Não foi uma separação amigável, ainda vamos nos encontrar nas barras dos tribunais. Estou flertando com a GVT, que prometeu consumar a união nos próximos dias. Portanto, ainda não estou operando a pleno vapor. Assim, não voltei – ainda tô voltando. É o que falta para consolidar o fim do inverno e o advento da minha primavera existencial. Lá fora chove e faz frio. No meu âmago o sol voltou a brilhar, timidamente - ainda.
De novo, thanks Deep Throat.
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Beijos saborosos, damas, com a alegria de um marujo meio estropiado prestes a ancorar em águas serenas.
Abraços vigorosos, cavalheiros, com a cumplicidade de quem sabe o que significa navegar em mar revolto e não soçobrar.
É bom voltar.
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PS: Deep Throat (Garganta Profunda) não tem nada a ver com o informante do caso Watergate, assim alcunhado pelos jornalistas Carl Bernstein e Bob Woodward. Minha referência é o filme revolucionário (um clássico) dirigido por Gerardo Damiano e interpretado pela flamejante Linda Lovelace.

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