Perdidos na noite
Perdi a identidade. Não se trata do documento, mas sim da minha identidade pública. Não sou mais Jens, o Magnífico, o Colosso de Ébano, o Amado Soberano do New Garden Village, o Escriba Genial dos Pampas e outros cognomes igualmente dignificantes (dos quais sou merecedor, esclareço). Agora sou apenas o “Simon”. Ou melhor, “Seu Simon”. É assim que sou chamado pelos freqüentadores do Enigma, meu mais novo ancoradouro nas raras noites que deixo as dependências luxuosas do castelo para confraternizar com a plebe rude. O estabelecimento é administrado pela Ana e pelo Sandro, simpático casal a quem deixo registrado meu agradecimento pela generosa linha de crédito com que fui distinguido.
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A perspicácia popular sempre me surpreende. O meu epiteto, por exemplo, firmou-se depois que a turma descobriu que além de amigo, compadre, sou também eventual assessor de imprensa de Carlos Eugênio Simon, o único árbitro brasileiro que apitou três Copas do Mundo. O apelido não me incomoda, apesar das provocações dos torcedores desafetos de Simon (sempre os há). Neste quesito, me incomodei na infância, quando era chamado de Bolo Fofo e na adolescência adulta, na época em que fiquei conhecido como o Porra Louca do 204. Por causa disto, distribui muitas porradas. Respeito é bom, bonito, barato e eu gosto.
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Não sou o único que perdeu o nome próprio. Há outros, como o Careca e o Cabecinha. O primeiro vive apregoando que é macho. Gosta de fofocar. (Já eu não sou fofoqueiro, apenas repasso informações em “off”, como manda a nobre tradição jornalística).
Dia destes o Careca quase levou um catiripapo na orelha. O pessoal cantava sambas antigos, quando ele resolveu sugerir uma canção de mau gosto: “Vai Gina, Vai Gina”. O Miro (Mirinho para os íntimos) não gostou.
- Que liberdade é esta? Respeite a minha senhora- exigiu.
O Vilmar, igualmente acompanhado, também sentiu-se insultado.
- É isto ai, seu corno filho da puta. Modere a linguagem. Respeite as damas.
O Careca foi cantar sozinho – e baixinho - em outra mesa.
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Numa noite, o Cabecinha chegou esbaforido, com a dor estampada no rosto. Mostrou a calça rasgada. Foi mordido por um cachorro quando se dirigia célere ao bar, pilotando sua potente Yamaha 125.
Aconselhei-o a desinfetar o ferimento. Ele concordou.
- Boa idéia.
Pensei que iria até um hospital público das imediações procurar atendimento. Ele entendeu outra coisa. Pediu um copo de cachaça (51, naturalmente), foi até a frente do bar e derramou o aguardente na ferida. Fiquei pasmo. Outros freqüentadores não.
- Porra, isto é melhor do que álcool – disse o Dorinho.
Estupefato, achei melhor não comentar.
Depois de automedicado, o Cabecinha, juntamente com malta, pôs-se a elaborar a vingança contra o cão danado. Não vou detalhar para não chocar a sensibilidade dos amantes dos animais. Mas, se o plano foi levado à efeito, temo que o auau já esteja no Grande Canil Lá do Outro Lado.
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Pra não dizer que não falei de eleição: não assisti nenhum programa eleitoral gratuíto em ambos os turnos. O mesmo vale para os debates. Durante a campanha tentei acompanhar apenas o básico para não ficar totalmente alienado. Aos primeiros sintomas de náusea, desisti; tenho estômago fraco. Acho que estou amadurecendo, enfim.
Ah sim, vou votar nela. Sou um velho lobo com convicções arraigadas.
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Beijos, belas. Abraços, valentes.
Pra cima com a viga.



