Gosto de dezembro por ser um período desbragadamente festivo. Ele dá a partida à tradicional temporada hedonística a que a nação se entrega anualmente e só termina depois do último dia de Carnaval, para contrariedade particularmente de baianos e pernambucanos.
O apreço pelo último mês do ano, no entanto, não impede meu aguçado senso crítico de apontar alguns costumes inconvenientes incorporados aos festejos da época.
Um dos hábitos que considero mais prejudiciais à saúde é aquele que determina que no Natal e no Ano Novo o camarada só possa encher o pandulho depois da meia-noite. Trata-se de uma imposição torturante: mesa farta, comida a dar com pau (esta gíria vai pegar), o estômago rugindo de fome e o cara esperando as doze badaladas para poder libertar Pantagruel. Alguém dirá que se pode petiscar durante a espera. Não recomendo, pois há o risco de estragar o apetite para o prato principal (peru, porco, churrasco ou o misterioso chester), como o sujeito que num restaurante se empanturra de pãozinho com manteiga enquanto aguarda o filé a parmeggiana.
O interessante é que a bebida não obedece a mesma regra. Se quiser, o cara pode começar a biritar no almoço e seguir adiante até o fígado protestar: “qualé, quer me matar, seu porra?”. Uma das vítimas mais frequentes deste sistema draconiano é o Janjão (primo do Jorjão, contumaz barranqueador de éguas). Ele não lembra a última vez que cumprimentou Papai Noel ou saudou a chegada do Ano Novo. Sempre é abatido antes. No ano passado tentamos despertá-lo com gritos de incentivo revolucionário: “De pé, ó famélico da terra! De pé, ó vítima da fome!” Não deu resultado; só acordou às 2 horas da manhã, tomando gluco (glicose, para os não iniciados) deitado em um banco no corredor do Pronto Socorro.
Vou fazer uma petição às autoridades eclesiásticas para que liberem o horário da comilança. Não me consta que Maria, José, os Três Reis Magos, as ovelhinhas, a vaquinha e o burro tenham esperado em jejum a chegado do Menino.
***
Outro negócio que me incomoda é a programação de filmes na tevê nesta época do ano. É um pé nos países baixos. É sempre o mesmo nhenhenhém, filmes bíblicos ou películas exaltando o tal “espírito de Natal”, seja lá o que isto for (pra mim é uma corrida de obstáculos nos shoppings centers). Antes que alguém diga que estou tentando cercear a sagrada liberdade de comunicação empresarial, esclareço que sou pela liberdade ampla, geral e irrestrita. Acho apenas que todas as preferências devem ser contempladas, inclusive as dos sofisticados intelectos adeptos de obras primas da sétima arte, como é o meu caso. Assim, permito-me recomendar entusiasticamente três filmaços. O primeiro é Natal Macabro. É a história de um boneco de neve que ganha vida. Mas é um boneco do mal, com sede de sangue, preferencialmente de criancinhas que acreditam em Papai Noel – sangue fresco e virgem aos borbotões, trilegal. O outro é A Vingança de Papai Noel. Traumatizado por um acontecimento da infância, o bom velhinho se dedica a decepar cabeças na noite de Natal, cuidadosamente acondicionados no saco, para posterior encolhimento. Este Papai Noel não vive no Pólo Norte, mas é o pajé de uma tribo de encolhedores de cabeça perdida nos confins da Amazônia. É um clássico do gênero. Por fim, como pièce de résistance, indico a última versão em 3D do insuperável Piranha! Corpos estraçalhados à granel. Coisa de bagual, indicado especialmente para almas sensíveis.
***
Tinha muito mais coisas pra falar. Porém, confesso, estou com preguiça. Desde o início do mês, além do inferno astral (que só termina na semana que vem) estou enfrentando uma maratona de festas conjugadas com trabalho (árbitro de futebol adora uma churrascada). A última pauta etílico-festiva-churrascal é nesta quinta-feira, dia 23, a derradeira (assim espero) homenagem ao amado chefe Carlos Simon, que despediu-se galhardamente da arbitragem do rude esporte bretão. É um saco fazer a cobertura e se divertir ao mesmo tempo - alguma coisa sempre se perde (frequentemente não consigo decifrar minhas próprias anotações). Porém, como bom profissional, sigo altivo para o último churrasco de ovelha do ano. Ainda há quem diga que jornalismo é moleza.
***
No Natal, mana Rosa e cunhado Beto lideram a tribo gaúcho-catarinense rumo à Porto Alegre. De Flopis já enviaram sinais de fumaça avisando: querem uma festa de Natal como nos velhos tempos, o que significa que vai ter festa de arromba. Que Tupã e Manitu me ajudem. Se der sorte como algo mais do que perú assado, se é que me faço entender...
***
Beijos carinhosos para as adoráveis Deusas e abraços afetuosos para os preclaros Faunos.
FELIZ NATAL PRA TODOS NÓS!
(Aguardem minha visita na véspera de Natal, se o organismo permitir)
Pra cima com a viga!
A charge é do camarada Bier, que nos deu um susto no final do ano, mas já está legal.