A voz rouca das ruas
Confesso que tenho certa simpatia pelo populacho, determinada pelas leituras de obras tão diversas como a Bíblia e os clássicos marxistas (inclusive do velho Groucho) e, também, pelas raízes populares da minha ascendência; já fui um humilde aldeão antes de me tornar um monarca despótico e esclarecido. Assim, vez por outra abandono o luxo de minha morada e me atrevo a circular entre os meus leais súditos, a fim de auscultar seus humores. Um soberano que assim não procede corre o risco de perder literalmente a cabeça, como mostra o destino trágico de Luiz XVI e Maria Antonieta na Revolução Francesa.
Imbuído deste espírito de autopreservação, no último sábado fui às ruas ver e ouvir o meu povo.
Ao ver um carroceiro murmurando alegremente enquanto conduzia o veículo, no lugar do cavalo, aproximei-me para ouvir que canção embalava sua alegria naquela manhã de sol. Fiquei apavorado:
- Bala na cara das feias – cantarolava o bom homem, com sinais de embriaguês matutina, seguindo o ritmo monótono de uma música que ouvia no celular.
Aqui todo mundo tem celular, menos eu, o último dos dinossauros.
Abre parêntesis. A propósito, além do por do sol do Guaíba, o mais belo do mundo, Porto Alegre se orgulha de ser a Capital Mundial das Carroças. Nos meus domínios, especialmente, é abundante a proliferação de carroceiros. Estou pensando em turbinar as finanças do reino com a criação do Imposto sobre a Propriedade de Veículos Movidos a Tração Animal. Fecha parêntesis.
Depois de ser saudado efusivamente pelo sorriso sem dentes do bravo integrante da classe laboral, dei continuidade à caminhada, já arrependido de ter dispensado os bravos mercenários encarregados da minha guarda pessoal. Encontrei um representante da juventude dourada, devidamente encapuzado, entoando um hino de louvor ao seu rincão:
- Este é o funk do Jardim Vila Nova. Não gostou pega nas minhas bolas.
Ocultando o pavor, elogiei a criatividade.
- Fui eu mesmo que fiz – declarou orgulhoso o infante, antes de pedir um trocadinho pra comprar bala. Concedi, com medo de levar bala na cara. “Bala na Cara”, a propósito - de novo! - é o nome de uma gangue de jovens empreendedores locais que enveredaram pela senda do crime.
Estarrecido, encerrei a jornada e voltei célere para a segurança da minha fortaleza, com a certeza de que o fim está próximo.
Ao se debruçarem sobre os tempos atuais os historiadores do futuro (provavelmente extraterrestres; não acredito que vá sobrar ser humano para contar a história) terão um indicativo sonoro da derrocada da civilização: tudo começou com o funk.
***
Beijos apocalípticos, damas. Abraços igualmente funestos, cavalheiros.
***
(PS: nos 60, durante a ditadura militar, Vinicius de Morais escreveu que o país só poderia esperar algo de bom a partir do movimento estudantil e da música popular brasileira. Bons tempos aqueles). Imagem: O Grito, pintura do norueguês Edvard Munch, datada de 1893.


eu sabia que vc só precisava de um beijo na boca! rs...
espetáculo, bagual! vc é fodástico! pena que vc ainda seja um dinossauro e que tenha medo de pagar determinados preços! rs...
outros beijos!
Meu caro, partilho totalmente seu pavor...e é melhor nem ir ao Brasil, dado que sou feia, rrsss
Um abraço solidário.
Então...
agora que ja passou no blog Coisas de Homem sim, passa nesse, pacote completo e nem é sexta feira.
http://reflexoemcoisasdemulher.blogspot.com/
Hoje mesmo vi que lançaram uma campanha de doação de fones-de-ouvido para os funkeiros. Até camiseta tem. Agora só falta acabarmos com a Nextell!
Hunn...
será mesmo que é dinossarico assim ou será uma boa metafora?
Conversava sobre celular com uma amiga de aerobica na orla e falei: me passa seu numero de cel?ela: Joguei na parede. Pq? indago eu louca
ela: Meu marido me rastreia...
ficar sem é tudo de bom.
Perfeito.
Mas jornalista sem cel?
Afff
será?
Falando do post: adoro essa forma que escreve e que me conduz a querer
ler até o final pra saber se finaliza com ponto final ou com reticências...
Aff a Loba
pegou no seu pé... desculpa sou intrometida mesmo rsrs.
Amo essa tela.
Bjins entre sonhos e delírios
Uau!
Jens, lendo teu brado me lembrei, imediatamente, de um samba dos meus idos tempos, gravado por Chico Alves (o rei da voz) que em suas primeiras estrofes rezava assim: Que rei sou eu, sem reinado e sem coroa, sem castelo e sem rainha afinal que rei sou eu...
e por aí seguia.
Camarada, com ou sem celular, a vida está cada vez mais periculosa.
Os reis de antigamente já não se aventuram pelas ruas.
Cuidado!
Primeiramente, chega de imposto, não, primeiramente, tive medo da gravura, pintura, sei lá, não conhecia.
Segundo, meu filho de 15 anos, dias desses me disse: "mãe, músicas boas são as da sua época" e eu terminei: "de lá, pra trás" e pensei cá comigA: "minha educação não foi tão má assim".
Terceiro, o Guaíba não é o mais bonito nem do Brasil... mas isso é questão de gosto.
e por fim, tiraram a minha atenção aqui e eu esqueci.
bjosss
Nem me fale dos tempos idos. É, celular por incrivel que pareça até tenho, mas o bichinho vive sendo esquecido em casa qdo saio. Qto ao funk, abomino não só a música como o volume em que ele é ouvido pelas ruas de Sampa. Incrivel mas minhas filhas discutiam outro dia sobre as músicas e uma delas disse: É incrivel como os roqueiros curtem seus rocks no celular dentro do metrô com fone de ouvido, os pagodeiros, emos também ouvem com fones, de repente entra um funk com volume estourado e todos são obrigados a ouvir. Uma delas perguntou pq será que só ouvem o funk alto? logo uma respondeu é que qdo eles roubam o celular não dá tempo pedir o fone. kkkkkkk Preconceito?rsrsrsr
Ora ora o lobo desentocou hihihi
e de dois jeitos né, se inspirando e escrevendo, e saindo ouvir seu povo.
Eu já conhecia essa pintura de EM, e me simpatizo um monte com ela, é propícia pra ilustrar váários brados! O que mostra que, entra década sai década, e a gente continua querendo mesmo é sair gritando...
Qualquer analfabeto bobinho pode fazer música, é sensorial, mas o funk atinge a culminância do total mal gosto!
Essa cena que descreve parece o início do holocausto. Eu espero bem pior, ouviremos funk sobre corpos mutilados ao som de eguinha pocotó :-(
Desejo descanso para seus ouvidos e olhos na volta para sua fortaleza hehe
Combatente, o negócio é mesmo assustador (trabalho com adolescentes e fico abismado com o que escutam - e pior - saem cantando frequentemente).
Mas, por questões de adequação, prefiro chamar essas m... sonoras de "pancadão" (o que é bem significativo), ao invés de funk, que é um subgênero da música pop digno de respeito.
Um abraço!
Estou contigo e não abro, meu caro camarada: bons tempos que não voltam mais, como diria o saudoso amigo Zé Maria Viana Filho! E em pensar que o Vinícius cantava saudades já naquele tempo, com "Carta ao Tom 74"... Cuidado nas tuas próximas voltas pelas cercanias do castelo, hein?! Abração!
P.S.: acho que além de celular, não tens mesmo 'internet' - foi para aquele 'e-mail' mesmo, que sempre apões lá nos Morcegos, que enviei alguns escritos meus para a seleção, bem como nele que mandei algumas conversinhas de qüiproqüós - e fiquei aguardando resposta até hoje...
P.S.2: no sábado, 30, os Morcegos completam 7 anos de existência e eu comemorarei "sartando fora" - pela absoluta falta de tempo, darei um tempo do universo virtual para acertas as coisas e depois eu volto! Mas gostaria de manter contato contigo via 'email', para continuar sabendo de notícias do castelo: por isso, passa a checar tua caixa de correspondências virtuais, ó, pá!
P.S.3: tem "resposta" lá nos 'comments' nos Morcegos!
Epa!
A saúde chegou!
Vamos lá, Senhor Rei! Caminhada faz um bem danado. Mesmo que não faça muito bem aos ouvidos...rsrsrs
Abraço fraterno.
Sem celular e dinossauro . Gostei. é quase igual por aqui.
Minto. Um pouco melhor . Tenho um bip desde 83, pena que ainda não descobri como funciona ..
abraços !
Olá Jens, saudades daqui. Já fui logo rindo "Bala na cara das feias" confesso que é muito preconceito, mas é engraçado, apesar de ser bem cara dessas músicas sem noção, esse funky é terror! Essa do carroceiro e o celular é demais. Aqui é assim tbem, todos ligados na mais alta tecnologia móvel.
Sinto muito, Majestade, mas Vossa Alteza não é o último dos dinossauros; eu também nunca me atrevi a comprar um cel, e não sei se virei a comprar no futuro. Quanto ao Grito, é pouco, precisamos dar bordoadas nos que nos obragam a consumir essas aberrações sonoras. Meu abraço.
'Seu' Jens!!! Que página de gente grande (e alta) Aff. Cada vez gosto mais de ler vc... e seus afins... grata por suas passadas de olho nas minhas coisinhas la no meu canto, é sempre uma honra...
Gosto de ver tua imaginação agindo nos textos.
Beijo.
Bjs meu amigo!
Doce man,
sabe que você é doce mersmu? Vou parar de dizer porque senao vao pensar sou tua admiradora (nem tao) secreta assim.
Vim dizer que tenho que concordar contigo naquela suspeita sobre algumas damas ainda quererem um viver burocrático e funcoes definidas. Eu torco para que elas realmente expandam mais os pensamentos, e tentem se adaptar à nova realidade, porque sairão frustradas e vao ter que morar no sertao :>
Beijinhos admirados, ops
Bala na cara das feias? O que significa isso exatamente? Nao pode ser bala de caramelo para adoçar? Provavelmente nao era isso que o pinguço estava tentando dizer logo de manha, em plena era da Lei Maria da Penha... Olha, so fui uma vez a POA, nao me lembro de ter visto carroças. Mas tb, fiquei pouco, logo segui para aquele lugar que temuma casa de Papai Noel. Nossa, esqueci o nome. Sao dois nomes... mas esqueci. De que nome foi que voce chamou o Louis? Muito erudito pour moi, nunca tinha ouvido aquilo nao. Significa o que ? Ou é nome proprio? Hehehehe...
Amanha, vou assistir o casamento real. Tenho certeza de que voce estara lá entre os convivas mais ilustres.
Bjos Jens e de um beijo nos principes por mim.
O que é a choldra? Canallhices tem em toda parte. Li que estao convidando ditadores do mundo inteiro, podre. Os aristocrata, nobres e afins sao mesmo uma coisa ridicula. Mesmo assim, adoro ver uma festinha dessas, como se fosse um Oscar. Pra falar a verdade, é a primeira que assistirei nesses termos, mas acho que vou gostar bastante da besteirada. Cada um é cada um, e todos juntos reunidos, somos um com o mundo. É o que penso.
Bjos AMIGO, fique com Deus. Nao estou nada de chateada. So com sono. Imposto de renda e muiiiiiiiiiiita sacanagem que fizeram comigo nessa vida, tudo incluido em muitos papéis...
Deixei um recado pra você lá nos comentários do Umbigo, mas pode ser que vc não possa voltar lá pra ler:
Correrei atrás do conto e do livro, amigo Jens. Concordo em que uma boa vida pode abrir caminhos, já que te deixa mais relax e de bem com o mundo. Mas remember: também pode fazer parte dessa boa vida ler coisas que te deem prazer.
Beijo
O pancadão (concordo com o Halem) é uma desgraça... Aliás, só numa cultura troglodita como esta de agora para as mulheres uivarem alegremente versos que as diminuem, as humilham e prostituem. Pena.
Oi Jens,
Que isso amigo, desencana. Vou te contar um segredo: chiii nao conta para ninguem- eu nao assisti o casamento. Quando lembrei do fato fui correndo ligar a tv pra ver se ainda tinha um restinho. Que nada rapaz, so "comentaristas" do evento, chefe de cerimonial do Itamarati ou algo do genero e outros palpiteiros. Chaterezimo. Fiquei com pena messs. Queria ter visto. Mas nao tem nada nao, minha amiga esta me mandando uma canequinha com a cara dos principes, heheheheh,boa!
Aquilo é uma brincadeira, sonho, so que eles nao parar de brincar quando a gente quer ne? Se tiver uma nave no final dos tempos e eles forem os primeiros a entrar junto com o presidente dos EUA e tal, eu vou chiar. Direito iguais, a monarquia que se dane, heheheh. Mas deixar de olhar as roupas das celebridades, jamais!
Bom fim de semana amigo!
Cam
Olá, Jens, amigo querido e monarca preferido!
Bala na cara seria algum produto facial embelezador? Péssimo nome!Ninguém vai comprar...kkkk
Péssima idéia de sair pelas ruas, sozinho, só observando...primeiro porque poderia ser assaltado,como em qualquer outra cidade brasileira (já não se assalta só em Sampa e RJ), segundo porque poderia ter caído na tentação de entrar em um pub qualquer e chutar o balde do tratamento médico,o que seria catastrófico...humpf!...décimo quarto porque sem celular hoje em dia é burrice mesmo, pois é o mínimo que um assaltante poderia levar sem mandar bala na cara, seja de qual calibre for...sei lá! Tome vergonha e compre um celularzinho baratinho...celular tb é ferramenta de trabalho,viu Sr.jornalista!...
Trigésimo quinto, pq amamos você e curtimos a bessa seus textos!
Adorei!
Fique bem!
Excelente findi! Muita paz!
Beijossssssss
É meu caro, época de pancadão, das cachorras (pior que muitas mulheres se embalam com essa denominação), já foi tempo da Boquinha da Garrafa, do Tapinha não Dói, é impossível acreditar que a mídia, programas televisivos tragam essa gente para enfeitar seus horários, e ainda, pagando altos cachês para esses funkeiros. Celular?? Tenho, mas ele é meu escravo. E batemos o tricolor gaúcho, abração meu velho, até outras tantas vezes.
sEM FALAR NO rap, NO hip-hop, heavy metal. Tenho dúvidas sobre se dar expressão 'artística' à violência latente mais a esvazia, ou mais a multiplica.