Um convite de corpo e alma em verso e prosa


Um dos anseios mais ardentes daqueles que cultivam veleidades literárias é ver o seu trabalho publicado em livro. Falo da obra impressa, palpável, aquela que se pode tocar, cheirar, sublinhar as frases que tocam mais intimamente às nossas emoções e nos permitem dialogar com as idéias do autor através de anotações feitas a lápis nas margens. A propósito, receio que estas práticas estarão em desuso em médio prazo, em razão do hábito das novas gerações à leitura na internet. Nada contra os novos costumes; apenas sou um amante à moda antiga. Inclusive literariamente.
Sou daqueles que acreditam que livros têm vida eterna, desde que protegidos do ataque das traças. Um livro impresso é imune as trapaças da sorte e aos dissabores do progresso que eventualmente atingem o universo virtual. (Algumas das minhas obras-primas, como é todo o texto submetido apenas à crítica generosa do autor, foram abatidas pela rapidez do progresso cibernético; estão perdidas para sempre num naqueles disquetes pré-históricos que deveriam ser eternos e hoje nenhum computador é capaz de ler).
Tenho apenas três textos publicados em livro – uma crônica e dois prefácios. Não é muito, mas já garanti uma ínfima presença na eternidade. Em breve este número será aumentado, graças a uma iniciativa que nasceu em 2006 e será reeditada em 2011. Trata-se da coletânea Corpo e Alma em Verso e Prosa, que pela segunda vez reunirá poemas, crônicas e contos de autores blogueiros.
Junto comigo na empreitada estarão a Loba e a Cherry – o que é uma garantia de qualidade e seriedade (mais por parte delas do que minha, reconheço).
É para participar deste projeto que me atrevo a convidar damas e cavalheiros que me honram com a sua atenção.
A idéia surgiu em 2004 e veio para o papel em 2006, com a participação de quase 90 blogueiros. Não participei desta primeira aventura, mas quem estava lá garante que foi uma experiência gratificante, que deixou um rastro de boas emoções e belas amizades. Que agora poderão ser revividas ou vivenciadas pela primeira vez.
Confira a seguir como fazer para participar do projeto.


ESTÁ ABERTA A SELETIVA DE TEXTOS PARA

O livro II da Coletânea de contos, crônicas e poemas de autores blogueiros

Corpo e Alma em Verso e Prosa

Informações gerais:
Tema: Livre. O(s) texto(s) pode(m) ser em prosa e/ou verso.
Nº de participantes: mínimo de 30 (trinta) – máximo de 45 (quarenta e cinco)
Custo do Investimento: Cada autor terá a obrigatoriedade de adquirir 01 (um) exemplar ao custo de R$ 30,00. O pagamento é antecipado e deverá ser feito conforme informações que enviaremos após o processo de seleção.
Prazo para adesão: até 20 de abril de 2011 ou até completar os 45 participantes
Páginas por participante: 04 (quatro)
Importante: Para calcular o tamanho da página, use Times New Roman nº 12, formatação Normal e conte 22 linhas, a partir do título. Caso encontre alguma dificuldade, mande-nos como estiver. Faremos a paginação e, se necessário, entraremos em contato para os devidos ajustes.

Responsáveis pela organização, revisão, diagramação e editoração: Loba, Jens e Cherry

Especificações da edição:
- Formato padrão de 14,0x21,0 cm
- Miolo em papel branco 75g com impressão em preto
- Capa personalizada e exclusiva, com impressão em papel 220g - em policromia (a cores) e plastificação
- Acabamento com lombada e orelhas
- Registro do ISBN
- Código de barras
- mínimo de 132 páginas – máximo de 200 (dependendo do número de participantes)

Importante:
No primeiro contato, através preferencialmente do FORMULÁRIO DE CONTATO PARA COLETÂNEA, logo abaixo desta postagem, ou pelo e-mail editoriacoletanea@gmail.com, os interessados deverão enviar seus textos – NO CORPO DA MENSAGEM, juntamente com as seguintes informações:
Nome completo
Nome que usará na publicação
No prazo máximo de duas semanas após o encerramento das inscrições, os autores dos textos selecionados receberão nosso retorno com as demais informações.
IMPORTANTE: NÃO SERÃO ACEITOS TEXTOS ENVIADOS COMO ANEXO. TODOS DEVERÃO SER COLADOS NO CORPO DA MENSAGEM E DEVERÃO TER TÍTULO.

Não se preocupe com o tamanho do texto. Não há limites de caracteres no corpo da mensagem de e-mail. Assim que recebermos o texto enviaremos uma mensagem acusando o recebimento. Caso não receba a confirmação, entre em contato pelo e-mail da editoria.
***
 
FORMULÁRIO DE CONTATO PARA COLETÂNEA:

Seu Nome :
Seu Email :
Assunto :
Mensagem :
Digite os caracteres
observando maiúsculas e minúsculas:


Então, vamos erguer esta viga?
Beijos, damas. Abraços, cavalheiros.

Um case de sucesso


Recentemente, Bruna Surfistinha esteve na capital dos gaúchos vendendo livros, distribuindo autógrafos e palestrando. Recebeu a deferência dedicada às personalidades que se destacam de forma positiva no universo literário e empresarial, constituindo-se em exemplo para as gerações mais novas.
No rádio, um respeitado jornalista local exaltou seus dotes intelectuais. “Isto é literatura!”, derramou-se o vetusto homem de imprensa, sem ironia na voz, depois de ler um excerto de O Doce Veneno do Escorpião, o livro de Raquel Pacheco, o nome de batismo da moça. Assustado, pensei que ele a indicaria para o Prêmio Nobel de Literatura. Não foi possível ver, mas deu para sentir o constrangimento da autora (que, a propósito, teve a ajuda de um profissional das letras para escrever sua obra prima). Só faltou pedir ao entrevistador: menos, bem menos, professor Ruy...
Nas páginas de um suplemento descolado de um jornal local, direcionado ao público jovem, Bruna foi definida como empreendedora e sua trajetória profissional qualificada como um "case de sucesso." Também aqui a ironia de manteve distante. O jornalista moderninho anotou a predominância de jovens entre a atenta plateia da palestra e os sôfregos fãs em busca de autógrafo e, a suspeita é minha, da receita do sucesso. É possível que a jovem ainda seja eleita a Empresária do Ano.
Senti terror e calafrios diante de tamanha ausência de discernimento entre o comportamento certo e errado, moral e imoral. Ressalte-se que Bruna (ou Raquel, como queiram) não tem culpa da louvação. Apenas surfa na onda da imoralidade vigente. Retrógrado, jamais imaginei ver, ler e  ouvir a glorificação da prostituição como meio de vida. Sou remanescente de um período em que não era de bom-tom louvar esta que se convencionou denominar a profissão mais antiga do mundo, especialmente na sala de jantar ou nos espaços nobres dos meios de comunicação. "Eram tempos mais hipócritas, hoje tudo é natural", dirão os arrivistas modernos. Pode até ser. Seja como for, sou um homem em desacordo com sua época e lugar. Preciso me reciclar.
Pensando melhor, não. Neste caso, o anacronismo é uma benção.
***
Beijos destoantes, damas. Abraços conservadores, cavalheiros.
Pra cima com a viga.

O desenho lá em cima é da Beti Timm.

Mulherzinhas

Aproveitando os ritos momescos, meu associado Moah retornou à Sampa, sua terra natal, tecendo com este gesto uma oportuna aliança entre o agradável e o útil. O prazer é por conta do reencontro com os familiares para uma providencial e salutar troca de afetos e carinhos. Já a utilidade consiste no fato de que a distância o manterá temporariamente afastado da sanha de credores empedernidos. Apesar da ausência significar, para mim, sobrecarga de trabalho, incentivei-o a ir, pois sei por experiência própria dos malefícios físicos e mentais causados pela nobre e difícil arte de engambelar comerciantes, síndicos, agiotas, banqueiros e usurários em geral. O Moah precisa espairecer.
Alias, presumo que foi por esta razão que ele, um fervoroso integrante das hostes da Nação Alvinegra do Parque São Jorge, desfilou na ala das baianas do Grêmio Recreativo e Cultural Escola de Samba Gaviões da Fiel, a ramificação carnavalesca da torcida corintiana. Informações fidedignas repassadas por meus perdigueiros na capital paulistana dão conta de que o Moah desempenhou o seu papel com brilhantismo, tanto no quesito samba no pé como no remelexo das cadeiras. A fantasia de baiana assentou-lhe maravilhosamente. Bravo, companheiro. Por vezes a franga precisa sair do galinheiro.
***
A propósito do tema, me impressiona a compulsão que leva um contingente não desprezível de homens a fantasiar-se de mulher durante o reinado de Momo. Em Florianópolis já virou uma tradição que a cada ano conquista adeptos das mais variadas idades e estilos de vida. O mesmo acontece em outras localidades do país, como comprovam imagens veiculadas na tevê e fotos publicadas nos jornais. Até onde é possível perceber, os foliões a que me refiro não têm parentesco próximo com travestis, transformistas e congêneres. São cidadãos das mais diversas profissões, pais de família, estudantes ou simples desocupados, na maioria convictos da sua heterossexualidade, que nos dias de folia abandonam a prudência cinza do cotidiano e se comprazem em pastichar a figura feminina.
Não sei o que impulsiona a adoção deste comportamento, que agrega também a imitação grotesca da voz e dos trejeitos femininos. Talvez seja aquela inveja que segue o rastro da admiração. Ou a mulher interior clamando por liberdade.
Já as mulheres não partilham do mesmo desejo de transformar-se em seu oposto. Ao menos em público. É raro encontrá-las em grupo fantasiadas de homens.
Ajuizadas, as damas.
***
O Beto, o sisudo patriarca dos Lima, consorte da mana Rosa, a doce matriarca, vivenciou a experiência agora protagonizada pelo Moah. Foi há muito tempo, na cidade de Pelotas. Porém, diferente do meu associado, fantasiou-se de melindrosa – a cabeça coroada por uma tiara azul, o corpo semi-coberto por um vestido enfeitado por franjas da mesma cor do céu, o pescoço adornado por um colar de pérolas falsas e lábios realçados por um batom carmim. Encantador(a). Ele bem que tentou destruir a comprovação visual e colorida deste momento histórico e revelador. A mana Rosa não permitiu e deixou sob meus cuidados o registro fotográfico. Como ensinou o general Golbery do Couto e Silva, o idealizador do Serviço Nacional de Inteligência – o BBB da ditadura militar –, documentos históricos devem ser preservados para o bem ou para o mal. E, acrescento eu, também para eventuais chantagens levadas a efeito por um cunhado inescrupuloso em constante conflito com cobradores de implacáveis. No decorrer dos anos, tal foto tem-me sido de extrema valia. Não exagero ao dizer que graças aos dividendos auferidos através das ameaças de divulgá-la, livrei minha delicada e acetinada pele das sanções físicas aplicadas aos inadimplentes contumazes, que, aqui na terra dos baguais, incluem vergastadas de vara de marmelo ou relho de couro cru trançado.
***
No que me concerne, creio que a porção mulher é um tanto negligente no que diz respeito a questões do vestuário, pois até o momento não apresentou nenhuma reivindicação neste sentido. Suas prioridades são outras, que não explicitarei em obediência à discrição indissociável do comportamento público exigido daqueles que foram educados sob as rígidas regras de conduta do cavalheirismo britânico. No entanto, posso revelar que fui convidado para desfilar vestido de prenda nas comemorações da Semana Farroupilha, na próxima primavera. 
Estou avaliando a proposta com carinho.
 ***
Beijos, colombinas. Abraços, pierrôs.
Aproveitem. Tá quase no fim.
Pra cima com a viga.
Ah sim, Salve o 8 de março. Beijos especiais, damas.

15 minutos

Na madrugada de domingo estava dormitando em frente a tevê (os desfiles e reportagens carnavalescas são um ótimo sonífero) quando tive a atenção despertada pela visão plastificada das formas curvilíneas e abundantes de uma esfuziante cortesã do reino de Momo, destaque de uma escola de samba paulista. O principal atributo da jovem dama eram os seios volumosos e reluzentes. Depois de arregalar os olhos, reagi à maneira de Santo Agostinho:
- Senhor, dai-me a castidade e a continência, mas não agora” - balbuciei com fervor.
Bob, o botão da primeira calça Levis que tive, depois promovido à função de minha consciência critica, recorreu à literatura e também à religião: “Ó admirável mundo novo que possui maravilhas assim. Obrigado, Senhor. Hosana nas alturas!”
Subitamente libertos do domínio da apatia Moe, Larry e Curly – meus neurônios remanescentes – espevitaram-se diante daquela surpreendente exuberância:
- Posso sentir que hoje a noite vai ser muito boa – declarou o espertinho do Moe, apostando que passaria despercebida a tradução e apropriação de um dos versos de I gotta feeling, o sucesso do Black Eyed Peas.
Larry umedeceu a ponta dos dedos com a língua e inutilmente tentou domar a rebeldia encaracolada das madeixas abundantes que desertaram do alto do crânio para as laterais da cabeça.
- Uau, que pitéu. Uma tremenda gatinha – avaliou, simulando no olhar o que julga ser a sagacidade sensual inerente a um conquistador inveterado.
- Cachorra! – corrigiu Moe, já de posse do tradicional mau humor.
Larry não entendeu.
- Não se diz mais gatinha, pitéu. Hoje é cachorra, piriguete e até mesmo potranca, para os acostumados com o linguajar campeiro.
- Puxa vida, que tempos estranhos. Não é assim que se deve tratar uma mulher – espantou-se Larry, reprovando os costumes modernos. Ele é um cultor de hábitos antigos.
- Bobagem, elas gostam – encerrou Moe.
Curly, depois de sapatear e grunir sucessivamente enquanto estapeava a própria cabeça, reencontrou o dom da fala:
- Esta é a mulher que mamãe queria pra mim. Uma fábrica de leite! – exaltou o Cabeça de Pudim, sob o olhar atônito de todos. Explicou que não foi amamentado na infância, o que foi motivo de frustração para ele e culpa perene para a mãe. Por esta razão, ela sempre desejou que  encontrasse uma mulher de peitos grandes e leite farto.
Exigi silêncio, aproveitando o constrangimento geral depois desta inusitada revelação. Na tevê, o monumento preparava-se para falar. Equilibrando um adorno de penas sobre a cabeça, sacudindo o corpo no balanço do samba, a bela esforçava-se para ouvir a pergunta da repórter, que berrou:
- Você não sente vergonha de desfilar assim, com os seios praticamente à mostra? – apenas as auréolas estavam cobertas por duas estrelinhas brilhantes. Neste momento, o cinegrafista, profissional competente, enquadrou em close os seios sacolejantes.
Mostrando pendor para a atividade política, o pitéu desconsiderou a pergunta e disse o que bem quis. Declarou paixão pelo samba e amor eterno à escola (da qual errou o nome, sendo corrigida pela repórter). Esclareceu que se preparou durante todo o ano para estar em forma e fazer bonito na passarela, honrando as cores da  escola do seu coração que, com a ajuda de Deus, deverá sagrar-se campeã do carnaval paulista que, a propósito, a cada ano está melhor, nada devendo do Rio de Janeiro, onde no dia seguinte ela também estaria desfilando. Informou que nunca fez lipoaspiração. Professoral, ensinou que o segredo da boa forma é “malhar todo o dia e fechar a boca”. Disse ter orgulho das dimensões extravagantes dos seios. “Aqui não tem silicone, é tudo natural” garantiu, sacudindo o colo para realçar a afirmação.
Calou-se para retomar o folêgo. A repórter aproveitou a pausa para insistir na pergunta original.
Desta vez, a musa não refugou. “Não vejo nenhum problema em mostrar os seios. Carnaval é festa e alegria. As pessoas me elogiam, mas sem baixaria, o povo é muito carinhoso. As crianças me adoram.”
Então, fechou com chave de ouro: "no Carnaval, peito é cultura!”, afiançou.
Estupefato, não contive o entusiasmo:
- PQP! Que maravilha! É a frase do ano! – estava admirado com aquele portento (estou me referindo aos dotes intelectuais, não aos seios).
Bob também se rendeu.
- Que agudeza intelectual. É um gênio da raça!
Dos três patetas a única manifestação que se ouviu foi um ruidoso e prolongado AAAHHHHHH!, indicando satisfação intelectual intensa e coletiva.
Na tela, a beldade despediu-se dos queridos telespectadores  distribuindo beijos e desejando a todos um feliz Carnaval, não sem antes declarar a intenção de seguir a carreira de modelo-atriz-aspirante a BBB e, como não poderia deixar de ser, comandar um programa infantil. Se disse abençoada por ter formas esculturais (exibidas de cima a baixo, frente e verso).  Agradeceu ao Papai do Céu e informou o número do telefone para contato, que eu, tonto, não anotei.
***
E a festa continua.
Divirtam-se com moderação. Beijos e abraços, confete e serpentina.
Pra cima com a viga.

A ilustração é de autoria da Beti Timm.

Nem tudo é carnaval



O assunto é sério. Enquanto meus quase semelhantes se entregam de corpo e alma à insanidade dos folguedos patrocinados por Baco e regidos por Momo, eu, na qualidade de analista permanentemente preocupado com o destino da humanidade, direciono meu arsenal crítico contra uma nova investida ianque que visa solapar as bases sobre as quais repousa a sociedade cristã e ocidental. Enquanto uns se divertem, outros (ou seja, eu), ciosos da sua responsabilidade social, combatem com denodo o avanço das hordas bárbaras que querem colocar a humanidade sob o jugo  de um império amparado em festins licenciosos. Se depender de mim, não passarão.
***
Os alunos da Universidade Northwestern, nos Estados Unidos, tiveram uma aula de educação sexual ao vivo. Jim Marcus, 44 anos, e sua noiva, Faith Kroll, 25, deram um exemplo genuíno de ejaculação feminina com a utilização de um brinquedo erótico. O professor John Michael Bailey declarou que não conseguiu pensar em uma razão legítima para proibir que as pessoas vissem aquilo. “E ainda não consigo”, reafirmou o mestre. 
Torço para que a matéria não seja estendida para o currículo do jardim de infância.
Bons tempos aqueles em que a pornografia ficava confinada em compartimentos reservados nas locadoras de vídeos, nos cines poeiras de má reputação ou nos recantos das bancas de jornais, acessível apenas aos portadores da senha – “catecismo”. Para rezar no altar de Onã era preciso ser batizado.
De minha parte, ao contrário do professor, consigo pensar em algumas razões para vetar a apresentação de performances desta natureza erótica em salas de aula, sendo a principal delas a convicção de que o pundonor é um dos esteios do processo civilizatório. Creio que determinados aspectos da vida privada devem permanecer restritos ao âmbito da intimidade pessoal. Não tenho vocação para voyer. Hummm, menos, Jens, menos... De qualquer forma, melhor do que ver , mesmo ao vivo, é fazer. De preferência, mas não necessariamente, entre quatro paredes. No meu caso, obrigatoriamente sem plateia.
Na onda da sociedade do espetáculo, que glorifica a exposição de relações que em nome do pudor e do respeito dos parceiros por si próprios não deveriam sair da esfera da intimidade pessoal, eu remo contra a maré. Sou um homem antigo, conservador. Quem diria...
Mas não sou totalmente destituído de hipocrisia, visto que não tenho objeções assim tão arraigadas em relação ao testemunho visual e sonoro de experiências sexuais gravadas no celulóide ou nas páginas coloridas das antigas revistas “just for men” (ainda existirão?) ou, então, nos traços rústicos e sensuais dos catecismos de Carlos Zéfiro, o educador extra-oficial da minha geração. Trata-se de um paradoxo, bem sei. Nem sempre caminho em linha reta. As trilhas que percorri  na vida - e  (tóc-tóc-tóc na madeira) pretendo continuar percorrendo por um bom tempo - me ensinaram que a hipocrisia é também um dos pilares da convivência civilizada entre os homens de bem e de boa vontade. Nélson Rodrigues acertou no alvo quando observou que se as pessoas conhecessem a intimidade uma das outras, ninguém se olharia na cara.
***
Foliai, foliãs e foliões. Na impossibilidade de fazer o mesmo vou continuar destilando minha  acidez critica. Agora para as paredes. Beijos e abraços. Façam a festa por mim.

A dama e o vagabundo


Em razão da debilidade do meu estado de saúde aboli as idas ao Enigma.
Ao meu lado, a Marisinha, mordaz, observa que agora é o bar que vem a mim. Na verdade, está com um tantinho de inveja por causa das visitas frequentes que recebo dos meus confrades de boteco. Porém, não é a mesma coisa. Sinto falta da fumaça de cigarro, das gargalhadas, das piadas, dos ocasionais vexames patrocinados por alguém que bebe além da conta – geralmente por causa de derrota no campo de futebol ou na seara da paixão –, do som do bater de copos, eventualmente um se espatifa no chão, e das bolas de sinuca chocando-se no tapete verde (não pratico o esporte, mas gosto de assistir).
Foi por este motivo que na última quarta-feira, espicaçado de saudade, pedi à bela, atualmente no papel de mãe zelosa e enfermeira severa, para me levar até o aconchegante estabelecimento administrado pela Mana e o Sandro. Diante da sua relutância, implorei. Sensível aos meus apelos, ela concordou, mas impôs duas condições: não fumar e não beber. Aquiesci, já que venho cumprindo estas exigências há exatos 30 dias. Depois de me alimentar com mingau de aveia, Marisinha encheu a mamadeir..., ops, a garrafa térmica com chá de ervas preparado pela Dona Veridiana. (“Um santo remédio para os ataques de cabeça, meu filho”, garantiu a vidente).
No local fui acolhido festivamente, com os tradicionais tapaços nas costelas e expressões de júbilo.
- Te aprochega, vivente!
- Porra, bagual, ainda tá vivo?
- Que cagaço, hein, Jens?
- Dá cá um abraço, meu lindo!
Sentamos na mesa de sempre com os camaradas habituais: Jorjão, campônio humilde, contumaz barranqueador de éguas e Caloca, intelectual orgânico, ex- trotskista, atualmente vivendo às custas da pensão previdenciária da mãe. O Sandro, gentil, prestativo e sorridente, colocou uma Skol na minha frente.
Marisinha fuzilou-me com o olhar quando fiz menção de encher o copo.
- Nananinanão – admoestou a bela, confiscando o ouro líquido – Nenê tá dodói. Esta é minha.
O Caloca estava chateado.
- Tentei descolar uma boquinha no governo e não consegui. Nem lá nem aqui. “Vagabundo, não” me disseram. Só não sei como vou deixar de ser vagabundo se ninguém me dá emprego – queixou-se, com razão, o intelectual.
A Marisinha manifestou solidariedade e apontou alternativas.
- Vai carpir uma roça, lavar uma louça – sugeriu a musa.
- Tá doida? Tenho que zelar pela minha reputação de homem letrado e refinado, porra. O pior é aguentar a corneta deste bando de desocupados dizendo que exploro a minha mãe. Não é verdade.  Ela me sustenta com a maior satisfação.
- Mãe é mãe – observei, depois dar uma talagada no chá de ervas.
Por baixo da mesa, o Caloca me passou um cigarro. Fui para o banheiro com a intenção de saciar o desejo de nicotina. Ele não foi discreto o suficiente, a Marisinha foi atrás.
- Não fecha a porta. Tô te cuidando. Aliás, nem precisa tirar a calça. Ou tu esqueceu de colocar o fraldão?
Protestei.
- Fala baixo, pô!
Não consegui fumar nem fazer o número 2 (ou 1, sei lá). Voltei para a mesa.
- Ainda bem que não sou mulher – confessou o Jorjão.
- Ué, qualé o problema? – quis saber a Marisinha, suavemente belicosa.
- Acho que nunca teria coragem de engravidar. Dizem que o parto dói pra caramba. Não é mole (ele pronunciou “mol”).
Gravidez é a mais recente obsessão do Jorjão, que anda acabrunhado pela impossibilidade biológica de ter filhos com sua amásia, a tordilha Mansinha.
- Ser mulher não é pra qualquer um – observou a jovem dama.
O Caloca meteu o bedelho.
- Eu também nunca ficaria grávido. Já pensou se sai um monstrinho como naquele filme, Alien, o oitavo passageiro. Além da dor, tem também a gosma,  nascimento é uma coisa muito nojenta. Se fosse mulher eu seria uma baita...
Foi interrompido com veemência.
- Sei bem o que tu seria, seu depravado! Agora, monstrinho foi o quê a tua mãe pariu. E saiba que os homens são mais nojentos que as mulheres – a veia feminista da Marisinha pulsava.
O Caloca riu, debochado.
Decididamente belicosa, a musa foi em frente.
- Vocês homens são mais nojentos do que nós. Existe coisa mais nojenta do que coçar o saco e depois cheirar a mão?
- Normal – rebateu o Caloca. É coisa de macho. Sir Aldous Huxley, Prêmio Nobel de Literatura, disse que se trata de uma manifestação de um povo jovem, testando manualmente a própria virilidade.
O Caloca gosta de se exibir, mas a Marisinha também tem torpedos literários no arsenal intelectual.
- Pois para o irmão dele, o biólogo sir Julian Huxley, isto é uma boutade (aqui ela fez um biquinho lindo) evolucionária. Ou seja, vocês ainda não completaram o ciclo da evolução. Ainda estão evoluindo do macaco. Acho que é por isto que gostam também de coçar o traseiro. Uhuhuhu – ela começou a pular, imitando um macaco, coçando a parte posterior da sua anatomia privilegiada
- Baixaria não – protestou o parasita materno.
Marisinha estava perdendo o controle.
- E o que dizer do hábito de enfiar o dedo no nariz e depois comer a meleca. Vocês homens são comedores de meleca!
Quase vomitei.
- Não estou me sentindo bem.
- O que foi chefinho? Está tendo outro ataque? A culpa é desta cambada!
Não era o caso. Estava só fazendo manha, antes que a discussão descambasse para o confronto físico.
Em razão do meu desconforto emocional, encerramos a noitada. Voltei apoiado no braço macio da Marisinha.
Não, a noite não terminou de forma romântica, infelizmente. Ainda estou convalescendo.  Mas amanhã será outro dia.
***
Evoé, damas e cavalheiros! Se encontrarem Baco, deem lembranças minhas.
Pra cima com a viga!

(PS: cá entre nós, a Marisinha tem razão, os homens têm hábitos nojentos. Eu sou a exceção que confirma a regra).

Gritos, gosma, sussuros e imagens

O expatriado Roy Frenkiel, atualmente homiziado em Miami, finalmente recuperou-se de uma monumental ressaca e atualizou o Suma Irracional, o boteco virtual que ele administra nos seus raros momentos de lucidez. Eu participei da inauguração do valhacouto, mas logo cai fora, pois não é do meu feitio frequentar casas de tolerância. Afinal,  tenho uma imagem a preservar. Já a Marisinha - minha fiel secretária, musa gostosa e enfermeira dedicada - ficou encantada com o ambiente decadente cheirando a bebida barata e cigarro vagabundo. A bela adora uma patuscada, especialmente se acompanhada de devassidão. Sendo assim, magnânimo, dei permissão para que ela participasse do que o RF chama pomposamente de "empreendimento que vai revolucionar a forma de comunicação na blogosfera" (uma forma elegante de designar a esbórnia). Mas buenas tchê, estou me estendendo em demasia. Vão lá. A Marisinha está discorrendo sobre meleca, sexo, berros e gemidos. Aguarda a visita e comentários de vocês.
Ah, a arte da Bete Carabina, ops, Beti Timm também está lá. O desenho aí de cima é de autoria dela.
***
Beijos, garotas. Abraços, rapazes. Se a gente não se ver até lá, divirtam-se por mim no Carnaval, já que eu não vou a lugar nenhum por causa desta porra de AVC.

Powered by Blogger