O tom da paixão
Estou apaixonado. E, por esta razão, em crise existencial e cultural.
Ao contrário dos boatos maledicentes espalhados pelos inimigos, sou um homem fiel às minhas convicções existenciais, sejam elas de natureza amorosa, política, econômica ou cultural. Acreditem: hoje eu teria uma vida bem mais confortável, caso fosse um pouco mais “maleável” na obediência de princípios éticos e morais. Mas sou fruto de velha e boa cepa. Não sou um sujeito volúvel, não posso ser dobrado. Como o personagem de Hemingway em o Velho e o Mar, só serei derrotado quando for destruído. Não estou à venda para os inimigos, não traio amores e não abandono companheiros de estrada. Quando o afeto se encerra, não disfarço, sigo meu rumo com mala, cuia, garrucha e relho.
Alguns de nós somos assim, exagerados. O “nós”, no caso, é ramo dos Silvas a que dei origem, que inclui Beti Timm (é no sempre, sempre será, independente de qualquer coisa) e minha herdeira Mariana Timm da Silva. Antes que alguém pense em propor a canonização do clã (pessoalmente aceito; acho que mereço) esclareço que também cometemos pecados (no meu caso pecadilhos) e caímos em tentações. Afinal, somos humanos, apesar de alguns discípulos acreditarem que eu não sou deste mundo. Confesso que estimulo esta crença celestial em relação a minha origem, desde que descobri, quando tinha 30 anos, que era um filho bastardo. Na minha imaginação fértil e amorosa, o Homem Magro e a Mulher Dedicada (Seu Antonio e Dona Arminda) que escolheram ser meus pais, são as versões modernas de José e Maria. E eu Jens, o Anjo Decaído, o primo pobre de Jesus (algo assim como um parente distante e pedichão do Ronaldinho Gaúcho). Estou sendo herético, eu sei. Mas não me importo.
Mas somos só um trio ingênuo unidos na maternidade até a eternidade. Fazer o quê? Assim fomos forjados por Antônio, o Homem Magro que escolheu ser meu pai e avô carinhoso de Mariana (“minha Preta”, como ele a chamava). Como diz ela, a Preta, somos uma pequena tribo de fortes. No fim dos tempos, um Timm da Silva estará lá.
(A propósito, o mundo não acabou dia 21 de maio, como anunciado. Isto vai me causar problemas. Confiante no Armagedon, me endividei, seguindo o pensamento lógico de lorde Bertrand Russel: já que tudo vai acabar, f...-se o resto. Suspeito que meus credores, malditos materialistas, não são sensíveis à considerações filosóficas. Assim sendo, acho que em breve vou precisar me homiziar. Ofertas de refúgio são bem-vindas).
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Bob, o botão da minha primeira calça Levis, adquirida em 1978, hoje elevado à condição de minha consciência critica, aconselha:
- Menos divagações e mais objetividade, senão este troço não vai acabar nunca. Afinal, onde tu quer chegar? – indagou com a petulância habitual.
Reagi com o orgulho do guasca que sou e sempre serei:
- Ninguém manda em mim. Sou bagual, pô.
Depois do esporro, pensei melhor e decidi seguir a orientação. Bob sempre tem razão. Então, vamos lá – objetividade, enfim, sem gip-gip nem nheco-nheco.
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Como disse estou apaixonado e em crise. Minha paixão atende por vários nomes – Maria, Nana, Daniela, Gal, Paula, Roberta, Adriana, Fernanda, Isabella, Beth, Elis, Joyce, Luciana e Miúcha – e tem um único responsável: Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim. O Tom, como a ele se refere o Chico (Buarque, of course), ou Tomzinho como carinhosamente o chamava o Poetinha, no caso o embaixador poeta e compositor Vinicius de Morais.
Pois é, (re)descobri Tom Jobim.
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Que merda, eu queria homenagear o cara, mas cometi um erro crasso, qual seja o de escrever ouvindo suas canções. Percebi que qualquer elogio seria bobo, besta, pretensioso, diante da genialidade do Maestro. Assim, só posso recomendar que ouçam o CD Aqui Tem TOM (uma palinha aqui: http://www.somlivre.com/?1913/produto/cd/Aqui-Tem-Tom-vol.-1#) onde várias vozes femininas interpretam suas músicas. As vozes são as das damas que citei acima. Não dá pra comentar. Apenas ouvir, encantar-se e permitir apaixonar-se.
Empolgado com a suavidade e delicadeza do ritmo, juntamente com a beleza das palavras, aliadas à esplêndida tarde de sol (escrevo num sábado, em pleno veranico de maio) interrompi a escrita várias vezes – em alguns momentos para reverberar, aos berros na janela do castelo, os versos magistrais e em outros para embalar numa dança solitária amores imaginários de ontem, hoje e amanhã – possíveis e impossíveis.
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Explicitada a paixão, resta esclarecer a razão da crise. Sinto que estou traindo Chico, Gil, Caetano, Milton, Cazuza, Cartola e Noel, entre outros. Perdoem, rapazes, ainda gosto de vocês. Mas Tom é maior.
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O CD que acalenta meus dias de outono é apenas o volume 1. Ou seja, há mais maravilhas no volume 2.
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Beijos suaves, garotas. Abraços fraternos, cavalheiros.
Pra cima com a viga!
PS1: valeu Inter, Campeão Gaúcho 2011!!!
PS2: voltei, porra!!! Esta semana vou conferir o que vocês andaram aprontando na minha ausência.





